Umberto Eco dá aula de mau jornalismo em último livro

Existem muitas maneiras de se ensinar o bom Jornalismo.

Uma delas, sem dúvidas, é ensinar como se faz o mau jornalismo.

Esse é um ponto chave do livro de Umberto Eco (1932-2016), Número Zero, que se converte, ou converterá, em um manual de como não se deve fazer um jornal, por exemplo.

Evidente que concordamos que notícias e verdades não são a mesma coisa quando estão isoladas, como disse Walter Lippmann, em Opinião Pública (1922).

Assim como mentiras e notícias não devem ter relação.

O mais novo livro de Eco se passa em 1992, quando despontam as novas tecnologias e as incertezas do futuro do jornalismo viram certezas inverossímeis e históricas – canibalismo entre mídias, em destaque.

O livro se passa em Milão e suas vielas, ambientado na redação de um futuro jornal, que trará aos leitores o amanhã na edição de ontem, “com artigos aprofundados, suplementos investigativos, previsões inesperadas”.

Umberto Eco
Ficção é ambientada em 1992, um ano em que a Itália ficou marcada por de corrupção e pela investigação “Mani Pulite” (Mãos limpas), arrasadora com boa parte da classe política da época; em conversa com a revista L’Espresso, o semiólogo afirmou que não era um tratado de jornalismo, mas uma história sobre limites da informação e funcionamento da máquina de denegrir, em detrimento do trabalho de informar

Quem conta a história é o ghostwriter Colonna, pessoa próxima ao editor-chefe da publicação, Simei, que explica à redação, na primeira conversa, o que vem a ser um “número zero”:

Um número zero pode ter a data que se quiser e pode ser perfeitamente um exemplo de como teria sido o jornal meses antes, suponhamos, quando a bomba explodiu. Nesse caso já sabemos o que terá acontecido, mas vamos falar como se o leitor ainda não soubesse. Portanto, todas as nossas indiscrições terão gosto de coisa inédita, ouso dizer oracular. Ao cliente nós deveremos dizer: veja como teria sido o Amanhã se tivesse saído ontem. Entenderam?

Basicamente, jornais contam histórias de ontem no amanhã, e não o contrário.

O que faz o jornal Amanhã ser exemplo de mau jornalismo não é, necessariamente, o fato de tentar contar os fatos de amanhã na edição do jornal de ontem, mas sim a maneira objetiva de alcançar esse feito – que, além de tudo, ignora o presente.

Umberto Eco_Numero ZeroDifamar, chantagear e prestar serviços duvidosos a um proprietário confidencial, através da fofoca e da insinuação, caso algum leitor ou jornal tente desmentir os ‘fatos’ publicados.

“Insinuar não significa dizer algo preciso, serve só para lançar uma sombra de suspeita sobre o desmentidor”, ensina Simei.

A composição do personagem Simei é meramente ética, descaracterizando históricos personagens de Jornalistas na literatura e no cinema, e os jornalistas que carregam sua função social penduradas no pescoço.

Porém, esse personagem se aproxima da realidade e de alguns perfis de jornalistas da vida real que carregam essa mesma função, juntamente com o código de ética da profissão, nos bolsos.

Para ele, insinuar ter documentos e dados de uma fonte inexistente é menos cafajeste que admitir a falta de verificação de fontes com rigor e objetividade do trabalho jornalístico – e o processo de noticiabilidade.

Tirando Colonna que entra no jogo consciente das regras, sabedor de detalhes que os demais desconhecem, quem fica atônita com tantas lições diárias de mau jornalismo é Maia Fresia, a única mulher de uma redação com seis redatores.

Maia questiona métodos e modo de operação do Amanhã, mas segue o sistema pelo fato real de necessitar do emprego e de se ‘submeter’ ao sistema.

Maia é vítima de uma redação sensacionalista e sem ética, mesmo sendo ela a responsável por produzir ‘notícias’ de paparazzi, e outras futilidades.

Assim como na vida real, o mercado dita as regras.

Inicialmente serão produzidos 12 números zeros com datas escolhidas propositalmente de acordo com o que ocorreu dois dias depois.

Nessa parte do livro, é possível associar a redação do Amanhã ao ‘Ministério da Verdade’, no livro 1984, de George Orwell, responsável por mentiras estatais do país Oceania, governada pelo Grande Irmão, além de mudar datas dos fatos, apagar notícias já publicadas, e jogar no buraco da memória pessoas que se tornaram inimigas da “revolução”.

O que Orwell imaginou em 1949 acontece com alguns portais e blogs que editam a data e a hora para insinuarem que publicaram as notícias primeiro que a concorrência, ou editam e corrigem seus erros de verificação, depois de publicados.

circa 1934: Italian fascist dictator Benito Mussolini (1883 - 1945) shaking his fist during a speech. (Photo by Keystone/Getty Images)
Livro de Eco aborda assassinato e a tentativa de desvendar teoria da conspiração com Benito Mussolini, supostamente refugiado no Vaticano e depois auto exilado na Argentina, em vez de ser assassinado ao fim da Segunda Guerra Mundial. Fotografia: Keystone/Getty Images

Exemplos não faltam.

No plano de fundo das edições, há um assassinato e a tentativa de desvendar uma teoria da conspiração que diz que Benito Mussolini não foi assassinado ao fim da Segunda Guerra Mundial, mas que se refugiou no Vaticano e se auto exilou na Argentina a espera de um futuro golpe militar anos depois.

O personagem que reúne dados e investiga esse ‘fato’ é Braggadocio.

Ele flerta com o bom Jornalismo investigativo, tentando provar suposições e hipóteses levantadas como diz o manual, com bravura e rigor, sem medo das consequências que esse fato pode trazer para a história, para sua vida e para os demais redatores do Amanhã.

‘Número zero’ é uma aula de mau jornalismo tão importante de se aprender como as melhores classes de bom jornalismo que se há.

O importante de conhecer malfeitos reside no fato de não voltar a repeti-las.

Assim como em As ilusões perdidas, de Balzac, onde Lucien de Rubempré ascende e cai em desgraça, a lição é ética e moral, imprensa e jornalista, respectivamente, ‘Número zero’ nos ensina o que já sabemos, ou deveríamos saber: que nem tudo que se lê em um jornal é verdade, apesar de que verdades e notícias se coincidem quando sinalizadas e trazidas à luz por um farol no meio do mar, tirando fatos da escuridão e os trazendo para a claridade, sendo ou devendo ser, a imprensa o farol da realidade.

Se ao trazer fatos a claridade sem pô-los em relação um com outro e não fazendo uma imagem da realidade “com base na qual os homens possam atuar”, notícias e verdades não se relacionam e se tornam, na verdade, um número zero.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ Ver todos os artigos ]

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