“Un Film Dramatique” (2019), de Eric Baudelaire

O diretor reúne pré-adolescentes de uma escola da periferia de Paris e, com eles, reinventa o cinema, o ato de filmar e pensar com/a partir das imagens. Entrega-lhes as câmeras, a decisão inicial do que deve ou não entrar no filme, quase 100% do material que aparece no corte final.

Então, acompanhamos aqueles meninos e meninas por quatro anos criando juntos o cinema que querem fazer, as histórias que devem contar e o mundo que passa a figurar em tela e que se confunde com suas próprias vidas e questões da França contemporânea: nacionalidade, cidadania, identidade, imigração, racismo – e também a miséria parisiense, como ouvimos, do fora de campo, o pai de uma das garotas que filmava moradores de rua nas margens de uma rodovia.

O que é um filme e, afinal, o que são no mundo contemporâneo francês, aparecem como questões que se imbricam o tempo todo ao longo das sequências. Mas Eric Baudelaire sabe que não é suficiente o ato de entregar a câmera ao Outro para configurar o compartilhamento da criação no cinema – e, por sinal, não tem essa pretensão ou desejo, que já virou cacoete no cinema contemporâneo que oferece certo protagonismo aos personagens para, simultaneamente, anulá-los.

O filme que assistimos (“Un film dramatique“) não é o que vemos os estudantes fazerem (“Dora Maar”) com todas as suas “imperfeições”, ainda que imprimam sofisticada reflexão sobre o som, a luz, a encenação. Estão conjugados, mas, nitidamente, as margens que os separam são visíveis porque não está em jogo a autoria coletiva – sobretudo quando entram em cena os diálogos dos pré-adolescentes sobre o mundo, a preparação das gravações e o próprio ato de filmar(-se). Essa ideia de que o Outro realizou o seu próprio filme aparece mais nitidamente em A vida na estrada (2020), uma obra segmentada produzida por Bahman Ghobadi com crianças dos campos de concentração no Oriente Médio.

O que é um filme, o que se revela através das suas imagens, ou melhor, o que se deixa transparecer quando o processo de criação no cinema é vivenciado, são perguntas que atravessam o tempo todo aquelas crianças que vemos crescer e pensar a França desde dentro e para além das suas fronteiras.

*Un film dramatique, de Eric Baudelaire, está disponível na programação do MUBI.

Marcos Aurélio Felipe é professor do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor do livro “Ensaios sobre cinema indígena no Brasil e outros espelhos pós-coloniais” (Ed. Sulina, 2020). [ Ver todos os artigos ]