[ENTREVISTA] Unidade e Contradição (RN) lança o primeiro single “Expurgo à ofensiva fálica”

Dias desses, passeando pelo Instagram, me deparei com o duo de drone/doom metal “Unidade e Contradição” jogando os primeiros conteúdos sobre processo criativo na rede. E que surpresa boa, uma vez que a banda é formada pelos talentosos Geovana Grunauer e Alex Duarte (Son Of a Witch, Tesla Orquestra), músicos que eu acompanho de outras bandas — maravilhosas, diga-se —, como a Morto (procuremmmm saber!), e de vários movimentos e articulações de luta dos artistas antifascistas.

Dessa união de forças, que visa romper com o machismo no meio underground, e que nos convida a refletir sobre as misérias de pensamento e a deturpação que o mundo sofre com o conservadorismo (e o rock não foi exceção), eu só posso esperar o melhor.

Como não gosto de guardar o ouro, vou lançar a boa nova aqui: dia 15 de janeiro (próxima sexta-feira) o duo lança o seu primeiro single chamado “Expurgo a ofensiva fálica”.

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Geovana e Alex, como surgiu o Unidade e Contradição? Qual a força motriz do duo?

[Banda]: Essa parceria era algo que já vinha sendo gestado desde o momento que começamos a tocar juntos, logo quando nos conhecemos, em jams, na Morto e em outros projetos com amigos. A força motriz acabou sendo o momento da pandemia, após passarmos um tempo distante devido às recomendações desse período. Quando nos encontramos novamente sentimos uma necessidade ainda maior de produzir juntos, compor, fruto de nosso companheirismo e cumplicidade.

[Alex]: Geovana (Riff woman, apelido carinhoso e justo dado por mim KKKK) é muito criativa, e quando começamos a fazer encontros para tocar, jams na verdade, no período da pandemia, ela trouxe muitos riff’s e ideias e naturalmente os processos de composição fluíram aqui em casa. Foram saindo musicas que só depois pensamos em formalizar numa banda, no caso, um duo porque a princípio queríamos simplificar a logística de banda. Com essa parceria também surgiu a necessidade de politizar o projeto, já que ambos veem a arte como uma forma de refletir criticamente a realidade.

A pergunta mais clichê de todos os tempos mas que nunca escapa: quais as influências de vocês, o que tem dentro da mistura do duo?

[Banda] Muitas coisas, a miscelânea de influencias é bem vasta. Geo vem com sua bagagem que vai desde o grunge dos anos 90  ao stoner/doom, shoegaze e post-rock etc. Alex com influências de música experimental, noise, drone music e drone/Doom. Acreditamos que o legal é justamente isso: unir as mais diversas influências e expressá-las nas composições, tudo de forma bem espontânea, o que acabou dando origem a um som bem vasto e diversificado. A música que vamos lançar possui 15 minutos e nela é bem perceptível essa confluência.

Single “Expurgo à ofensiva fálica” será lançado no próximo dia 15

O nome do duo, o que ele significa para vocês, o que querem passar pra gente com “Unidade e Contradição?”.

[Banda]: Escolher um nome para uma banda que se propõe a ter uma estética revolucionária, isto é, arte crítica, sempre é um desafio, uma vez que se tende a condensar a proposta como um todo, no nome. Realizamos até uma lista com vários nomes e dentre eles, Unidade e Contradição pareceu a melhor escolha, tanto pela presença/impacto quanto pelo significado profundo que carrega. Atividade e consciência possuem seus momentos de contradição e unidade. A questão é perceber esse movimento e tentar superá-lo, resolvê-lo, o que na prática significa identificar essas contradições na atividade humana e a partir disso, tratá-las de forma pragmática e lúcida, pois sempre se encontra numa realidade, o seu devir e consequentemente sua superação. Unidade e contradição também é um jogo entre essência e aparência: aquilo que supostamente é uno, harmonioso, se mostra carregado de contradições veladas. A ideia do nome vinculado à proposta da banda, de viés crítico, é justamente uma tentativa de gerar uma reflexão profunda sobre questões e problemáticas de ordem social; rasgar o tecido que camufla em aparências, fatores conflitivos de ordem estrutural.

Geo, você quem fez a arte de capa do single, né? Fale um pouquinho sobre o processo criativo e sobre a arte:

[Geovana]: Maluz, certamente esse foi um processo de muitos enfrentamentos, pois me percebi em meio a um bloqueio artístico cujas causas eram de ordem emocional, de vivências que eu precisava superar, uma vez que estavam interferindo bastante de forma negativa. Foram muitas semanas de tentativa, seguido de angústia e sentimento de incapacidade por não conseguir sair da fase inicial de esboços e esqueletos de corpos de mulheres em diferentes posições de dinâmica, já que sempre tento trazer mulheres que fogem da perspectiva padrão em minhas representações. Tentar exprimir em forma, cor e textura um conteúdo tão forte que retratei na letra “Expurgo à ofensiva fálica”, era como me colocar face a vivências que me afetaram e desencadearam tais bloqueios, o que talvez eu estivesse inconscientemente tentando fugir, não pensar sobre. Mas perceber a arte como uma via potente de canalizar a raiva e indignação fruto de vivências assoladas por episódios de machismo e opressão era, senão, umas das melhoras formas de enfrentar as circunstâncias. E foi então que percebi que lidar com esse processo era lidar com ciclos de dor e superação. Refletir sobre fortalecimento de zonas afetivas, sororidade, acolhimento, expurgo e então, libertação. E conforme eu fui compreendendo isso, o processo conseguiu fluir mais, até se concretizar numa pintura em tinta óleo, feita em um suporte alternativo, a qual serviu como base para posterior edição gráfica do single. Nesse processo também foram surgindo as criações de logo do projeto, cuja estética reflete o nome.

Geovana Grunauer e Alex Duarte visam romper com o machismo no underground e fazer refletir sobre a deturpação que o mundo sofre com o conservadorismo

O single tem participações especiais nos vocais. Como surgiu essa parceria? O duo é instrumental ou contará com mais participações assumindo os vocais nas próximas gravações?

[Banda] As parcerias buscam sempre a participação de mulheres, dando abertura para que o protagonismo feminino seja efetivado na prática, como uma forma de subverter o machismo que permeia o cenário underground, incentivando cada vez mais mulheres em projetos musicais. Convidamos duas amigas, Lanna Oliveira e Júlia Gusso, para gravarem os vocais do single, que não por coincidência, compartilham de vivências retratadas na letra, o que tornou muito orgânico e verdadeiro a contribuição delas. Foi tão surpreendente e satisfatório como todo esse processo se deu que queremos contar com a participação delas nas próximas gravações e apresentações. Estamos já articulando outras parcerias futuras também.

Vocês têm planos de seguir com a banda?

[Banda] A princípio, trabalhar as outras músicas que temos, em torno de 4, 5 músicas para gravar em full álbum em 2021. A banda também pretende fazer apresentações ao vivo, quando os eventos voltarem, e para isso, convidaremos mais músicos, sempre priorizando mulheres, no contra-baixo e bateria, já que o duo é formado com duas guitarra (Geo gravou o baixo da single e a bateria foi programada). Também está nos nossos planos produzir merchadising como camisas, patches prints etc.  Sem dúvidas é nosso desejo tocar em diversos lugares, mas sabemos que isso só será possível após a vacina ser disponibilizada para toda a população.

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