Universalismo x Regionalismo na literatura potiguar

Tácito, vim desaguar aqui o texto que havia elaborado para a coluna de livros da Revista Ginga. Como se sabe, ela seria lançada em novembro. Depois daquela data foram lançados outros livros importantes, como o de Marize Castro e Tarcísio Gurgel. Então, relevem essas faltas.

Também pelo espaço da publicação evitei me estender mais no assunto. Gostaria de pedir a opinião dos partícipes deste site a respeito das posições levantadas. Os autores criticados e elogiados também merecem um contraponto. Seguem aí minhas opiniões:

Regionalismo x universalismo x vanguarda

divaA literatura potiguar alçou voos de águia este ano. Os lançamentos foram muitos e de qualidade interessante. O poder público de pouco ajudou. Desta vez, o idealismo do editor Abimael Silva e o comprometimento da UFRN com a produção literária encontraram apoio na editora Flor do Sal, do poeta Adriano de Sousa e na vontade de escritores estreantes lançarem seus primeiros rebentos de forma independente. Melhor para o mercado editorial local. Mas quando a análise recai na literatura produzida, o estigma da galinha volta com a força costumeira.

O regionalismo literário local apenas ensaia arroubos de universalismo. Não é, ainda, literatura universal. Pelo menos na prosa. E pelo menos no apanhado geral dos enredos. Os dois lançamentos mais qualificados no gênero ficção – A Fortaleza dos Vencidos, de Nei Leandro de Castro, e Remanso da Piracema, de François Silvestre – apresentam escrita moderna, personagens antológicos e carga sentimental intensa. São obras-primas da literatura potiguar. De todos os tempos, arrisco dizer.

O pecado dos dois livros recai nos lugares comuns e na personificação do autor nos personagens. É clara a biografia curricular e histórica de cada escritor em pedaços até inteiros de seus protagonistas. É compreensível a dificuldade ou impossibilidade em se despir das vivências passadas para construir qualquer estória. Afinal, toda escrita tem origem na oralidade, na vivência. Isso é fato e universal. Mas há que se definir a distância temporal e espacial entre a literatura universal e regional.

Cascudo foi quem disse que em todos os lugares do mundo há lendas, costumes, superstições, tudo unido à tradição popular. São elementos da alma e essência de um povo. Não há dúvida. Relatos de costumes sertanejos e riquezas dos cabarés são compreendidos aqui ou em Guiné Bissau. Principalmente quando acompanhados de recheios psicológicos tão universais quanto o amor e o ódio. E o confronto deste regionalismo com um modelo dito estrangeiro, digamos, resulta em literatura cosmopolita.

O equívoco está no excesso da temática local, no ambiente demasiado pitoresco e, principalmente, no registro despropositado de tantos nomes da sociedade provinciana, inconcebíveis em uma obra universalista (se esta foi a pretensão dos autores). Neste caso, o livro se apresenta como cultura representativa de sua localidade. E personagens servem de vitrine para o eixo local. Difere – embora por vezes se aproximem – das narrativas complexas dos costumes sertanejos presentes nos melhores clássicos da literatura brasileira. É este o regionalismo universal ainda escasso na literatura potiguar.

A escapatória dessa pecha provinciana se encontra na poesia produzida aqui, universal também na qualidade. O livro-coletânea Resina, de Diva Cunha (foto acima), é o retrato do estágio lapidado em que a poesia local alcançou. Sobretudo nos talentos femininos. Em Resina, Diva revela a madureza, as angústias de solidão e vontades de viver e redescobrir. Não de uma poetiza, não da professora Diva Cunha, mas de uma mulher universal: “De salto alto/ fico fatalmente/ uma mulher desconjuntada// de salto baixo/ somente sou/ namorada”.

Ainda assim, mesmo a literatura potiguar imersa em um regionalismo provinciano excepcionalmente bem escrito ou em uma poesia universalista produzida por tanta gente boa, falta narrativa referente aos dias confusos do tempo-hoje. Não uma linguagem moderna, mas uma temática mais vanguardista, representativa da nova estética, do mundo caótico e superinformatizado, da queda de sistemas ideológicos, de uma juventude confusa diante de tantas mudanças e cansada de tantas derrotas. Que seja pop, marginal ou beat. Essa literatura precisa emergir desta sopa de poetas para manter vivo e pulsante o retrato, sempre mais ameno, da realidade pelas verdades ou mentiras da arte literária.

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