A universidade em liquidação

Outdoors estão espalhados pelas ruas e avenidas. A universidade está em liquidação. Faça uma graduação e ganhe uma pós-graduação, inteiramente grátis. Faça um curso no dobro do tempo tradicional, e pague também no dobro do tempo, com parcelas pela metade. Um teste de matemática, onde a soma das parcelas não altera o resultado da adição. O modelo do crediário em suaves prestações, com a mercadoria em consignação. O produto como refém da dívida. E o produto agora é intelectualidade. Enquanto os professores, a mais valia do patrão.

Economize transporte e material didático, faça um curso à distância com material didático grátis, ou incluso no valor da mensalidade. Apostilas e livros de domínio público, estão disponibilizados na internet, com acesso através da intranet das universidades. No ambiente virtual de professores, funcionários e alunos. E a universidade se reserva o poder da criação de novas turmas, de acordo com o interesse da procura. Quem manda é o mercado, com a lei da oferta e da procura. No curso a distância, o aluno não vê professor e as deficiências da estrutura universitária. Não cria custos de usos e instalações.

A grande Startup do momento é a faculdade e a universidade. Combina tecnologia e empreendedorismo, vendendo facilidade. Vende conhecimento, um produto imensurável. Um mestre e doutor, um dia, na tal cidade, afirmou que a faculdade é algo facultativo, daí o seu nome de faculdade, derivada de facultativo. Quem sabe ele tinha razão, ao expor seus devaneios com suas faculdades mentais, e visões facultativas.

A universidade apoderou-se de ideias simples criadas por usuários de computadores, do mesmo modo que se apoderou de um conhecimento que circula nas mentes e nas ruas. O aprisionamento de um conhecimento vendido ou oferecido em parcelas, mediante um pagamento, salvo as universidades públicas, que não cobram parcelas financeiras de seus alunos. Mas representam oficialmente, o domínio e a apoderação do saber e do conhecimento. E promovem lutas internas, com duelos de canudos, onde um catedrático vencedor assume um poder, legitimado pelos que estão a sua volta, e almejam um dia ocupar a posição. O homo academicus de Bourdieu, e seus bens simbólicos com poderes de dominação.

A universidade está em liquidação. E lança suas estratégias de angariar novos alunos. Assumiu agora a estratégia da pizzaria. Com uma massa básica e ingredientes misturados ou posicionados ao gosto e pedido do freguês. Compre uma e leve o refrigerante grátis. Entregamos no seu domicílio. Tal como na universidade, a grade, tamanhos e os sabores podem ser formados e pedidos pela internet. Ferramentas e aplicativos permitem uma ideia virtual. A data e o horário da entrega, da mercadoria ou do canudo, do diploma ou da pizza em cone, pode ser definido pelo cliente. Limitamos o oferecimento de saberes e sabores de acordo com a disponibilidade de professores pizzaiolos e ingredientes. Nossos entregadores podem ser influenciados pelo trafego, das ruas ou do seu servidor, e até do seu navegador.

Tudo pode terminar em pizza, mas a pizza, uma hora ela acaba. E o consumidor vem ganhado espaço, com liberdades de escolhas entre saberes e sabores. Das engenharias e arquiteturas ao vegetariano; do conhecimento social ao vegano. Entre frios e quentes, doces ou salgados. Diet ou light. E é possível fazer pizza em casa, com ingredientes próprios ou comprada pronta.

Um currículo ao final vai apresentar semelhanças com um exame de sangue e outros exames complementares. O colesterol bom ou ruim vai ser identificado, resultados de dietas ou conhecimentos adquiridos, com gorduras e conhecimentos saturados ou poli saturados. E muitas universidades para aumentar clientes em massa, pecam com excesso de glúten na massa básica.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Gilberto D'Alma MARACAJÁS 14 de Janeiro de 2016 22:08

    TEMPOS MODERNOS… TEMPOS MODERNOS…
    MAIS MÁQUINA, MAIS VIRTUAL…
    MENOS HUMANO Roberto Cardoso!!!
    Parabéns belo texto! Bela Crônica do “Saber” dos novos Tempos!

  2. Rubens Barros de Azevedo 15 de Janeiro de 2016 13:38

    Análise fria, realista, atual!

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