Universidade, política e partidos

Universidade Nacional Maior de São Marcos, fundada em 1551 por um decreto do rei Carlos I da Espanha. A mais antiga das Américas e uma das mais antigas do mundo

Por Alípio de Sousa Filho
NA CARTA POTIGUAR

Pode a Universidade permitir o seu rebaixamento a interesses de partidos políticos? A submissão da Universidade a interesses políticos de partidos é compatível com o ideal de universidade? Desde seu surgimento no século XII, na Europa, que tem sido a procura pela autonomia aquilo que distingue as universidades entre todas as outras instituições e que igualmente explica, na história de diversos países, sua longevidade e resistência às investidas, sob diversas formas, para seu fracasso ou destruição.

O ideal de universidade, afirmado na independência acadêmica e na liberdade intelectual, recrutou seu prestígio ao não permitir que currículos, pesquisas, debates, ações de seus integrantes e atuações de seus dirigentes obedecessem a interesses políticos particulares. Continua sendo tarefa de todos e de seus dirigentes manter a Universidade livre de qualquer subordinação que ameace a sua liberdade e independência política. Uma tarefa a ser realizada nas práticas cotidianas e em exemplos concretos, não podendo ser substituídos pela retórica da desfaçatez que consagra, em cerimônias e rituais, a dissimulação da verdade: enquanto se permite a prática do aparelhamento político-partidário de universidades, no loteamento de cargos e funções, em tomadas de decisões, e em dirigentes que assumem o papel de ventríloquos de partidos, apregoa-se uma independência que não se verifica em algumas delas.

Dirigentes universitários ou integrantes das mais diversas categorias que aceitam de bom grado ou por fraqueza a subordinação da Universidade a partidos políticos talvez não tenham noção do mal que fazem a um dos mais importantes legados da história humana. Ao se permitir que militantes ou representantes partidários transformem as universidades em “aparelhos” políticos, abandona-se o espaço universitário ao risco de vir a ser o lugar daquilo que Kenneth Monogue chamou “tribalismo acadêmico”. Tribalismo que se exprime nas práticas clientelistas, patrimonialistas, do favoritismo, do fisiologismo e nas práticas do que o sociólogo Michel Maffesoli nomeou “teatro de assassinatos anônimos”: amplo teatro da canalhice acadêmica, em que muitos tomam parte – alguns com a esperança dos seus “quinze minutos de glória” – realizando trocas de benefícios, favores, moedas para prestígios. Tudo isso mascarado nos jogos de cena, na hipocrisia dos rituais acadêmicos, e mesmo no silêncio cúmplice. E mascarado também retóricas “pragmáticas”: “o pensamento adequado”, “oportuno”, “experiente”, “profissional”, “válido”, “útil”, “equilibrado”. Discurso de desqualificação e invalidação permanente de tudo aquilo ou de todo outro que seja a ameaça do desvelamento de atores, personagens e scripts que põem em cena os movimentos de canalhocracias acadêmicas que visam suplantar o mérito intelectual, o prestígio da docência, a exigência de qualidade na produção do conhecimento.

Aparelhamentos político-partidários da Universidade levarão a que esta desça de nível, e como observou Karl Jaspers, “se a universidade baixa de nível, a sociedade e o Estado naufragam juntos”. O controle da instituição universitária por partido político – e qualquer que seja a cor de sua bandeira – a conduzirá à vala comum do pensamento político subordinado, para prejuízo do conhecimento livre, autônomo e desinteressado. E como ensina também Schopenhauer (aquí, em fonte direta), “na universidade, a atmosfera de liberdade é indispensável â verdade”.

A política que a Universidade deve fazer é outra. É a política de seu compromisso com a transformação social, com projetos de ensino, pesquisa e extensão que pensem os problemas sociais, as questões da vida coletiva de nossa sociedade, da humanidade: desigualdades sociais, violências, misérias, racismo, homofobia, justiça, educação, saúde. Participação no debate político-público: politização sem partidarização.

Dirigentes e integrantes da Universidade não podem, a pretexto de apoios (financeiros ou outros?), tornarem-se reféns de partidos ou admitirem chantagens políticas. E não é demais lembrar, na história, os apoiadores de hoje são os traidores de amanhã. E, onde não há sentimentos e propósitos autênticos, não há amizade e confiança possíveis, mas conluio provisório, sempre às vésperas de seu próprio final. Como escreveu La Boètie, “a amizade […] nunca se entrega senão entre pessoas de bem e só se deixa apanhar por mútua estima […]. Não pode haver amizade onde está a deslealdade; e entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma companhia; eles não se entre-amam, mas se entre-temem; não são amigos, mas cúmplices.” Nas universidades, aliás, deslealdade e mentira se dão as mãos num longo enlace.

O bem social que constitui a Universidade não pode ser ameaçado por inautênticos propósitos de agentes partidários que, entre outras coisas, não têm projetos nem para a universidade nem para a educação. É a sociedade inteira, seus diversos segmentos, setores e representantes que devem ficar atentos para não deixar que a Universidade se torne trincheira de interesses menores, destruindo o próprio sentido para o qual uma Universidade deve existir.

Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. RENATO HANNISCH 17 de junho de 2011 8:02

    Saudações.
    Na verdade, entrei neste endereço em busca de textos sobre a ADPF 187, visto estar estudando o assunto “Drogas” com meus alunos do 9° ano (Ensino Religioso – Colégio ULBRA Palmas).
    Mas, gostei mesmo deste texto que trata da Universidade, Política e Partidos. Muito interessante e até mesmo inspirador.
    Faço Pós em Metodologias do Ensino Superior, e este texto, me deu um belo “click” para minha produção de Artigo.
    Valeu… continue inspirando outros!… e inspirando-se!…

  2. Luiz Afonso 16 de junho de 2011 16:15

    Esse sabe das coisas. Alípio, você é o cara. Que bom que a Universidade seguisse seus conselhos. Infleizmente não faz.

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