Universidade, universidades

Leciono em universidades desde 1982. Comecei na UNESP/Assis (pública). Depois, ingressei na USP (pública), com regime parcial de dedicação, salário insuficiente para pagar as contas mínimas – eu era casado com uma professora da rede pública. Por esse motivo, acumulei trabalho na PUC/SP (privada) durante um ano, até que recebi contrato em regime de dedicação integral à docência e à pesquisa na USP. Até hoje, trabalho na mesma USP, com experiências curtas de atuação na UnB (professor visitante) e atividades como cursos de ainda mais curta duração, mesas-redondas e similares em várias unidades públicas e privadas do país e no exterior.

Penso que as universidades privadas são uma realidade na educação brasileira, atingindo milhões de alunos, mobilizando milhares de professores. As universidades públicas, hoje em dia minoritárias em termos de abrangência quantitativa, mantiveram padrões de excelência reconhecidos internacionalmente. Não se trata de destino manifesto reservado à universidade pública. Por serem instituições que prestam serviços à população (cursos, extensão etc.), merecem financiamento público, que leva em conta necessidades de pesquisa e equipamentos, quase sempre muito caros. O padrão salarial, via de regra, é um pouco melhor que nas entidades privadas (mas não é nada milionário). Noutros países, como EEUU, existem excelentes instituições privadas de ensino superior, que recebem gigantescas dotações de fundações e similares. Cobram anuidades caríssimas mas oferecem bolsas para pobres talentosos.

A universidade brasileira foi extremamente tardia, mesmo em relação a outras colônias do continente, preodominando numericamente (e em escala quantitativa muito baixa, diante da população) o setor público até os anos 60 do século XX. Não por coincidência, a ditadura de 1964/1984 investiu pesadamente contra a universidade pública, anunciando modelos similares aos EEUU. Qualquer primeiranista de Direito sabe as brutais diferenças entre fundações naquele país e no nosso. Quem mora na terra da Fundação José Augusto nem precisa de maiores informações, a maioria das fundações brasileiras vive como anexo do estado, desdobrando-se em organizações não-governamentais dependentes… dos governos.

Certamente, existem ótimas universidades privadas no Brasil, bem conhecidas: as PUCs de Rio de Janeiro e São Paulo, as FGVs das duas cidades, algumas universidades luteranas no RS… Não se trata de incompetência dos corpos docentes, é claro, conheço excelentes professores de universidades privadas. Acontece que ensino universitário de qualidade é muito caro. Aquelas boas universidades privadas brasileiras indicadas cobram mensalidades altíssimas até para famílias de classe média e os programas de bolsas que mantêm são limitados – e vivem a um passo da insolvência, como se observa nas PUCs. Sim, existem os programas de bolsas governamentais para alunos de universidades privadas. Um aluno da PUC/SP que pega uma bolsa dessas deve se sentir como a Griselda da novela da Globo, ganhou na loteria. Mas essas bolsas findam apoiando mais universidades de má qualidade, até agora não houve maiores pressões no sentido de garantia de padrão qualitativo para fazer jus a cotas de bolsas. Compreendo a importância de se elevar quantitativamente a formação universitária no Brasil, que tem péssimos índices nesse campo, talvez os piores da América Latina – não me refiro apenas a México, Argentina e Chile, qualquer Equador possui maiores percentuais que o Brasil na área.

Quando comentei a notícia do Novo Jornal sobre as avaliações de universidades no RN, parti dos seguintes pressupostos:

1) Atuo no ensino superior desde 1982, acho que aprendi algo sobre ele.

2) Sou especialista em História e Imprensa (Mestrado em 1981, Doutorado em 1987, Livre-Docência em 1999). Li os Roland Barthes e Christian Metz da vida, sei o beabá das relações entre imagem e texto.

3) Sou cidadão, com direito a, respeitosamente, comentar um órgão jornalístico que é público.

4) Sou natalense, embora more fora da cidade há algumas décadas. Sempre mantive ligação com a cidade, sua cultura, sua população.

Tenho boa impressão sobre o nível gráfico e textual do Novo Jornal. Isso não significa calar diante do que considero uma relação manchete/imagem/texto principal problemática. Na imprensa escrita, a pureza de manchete, imagem ou texto principal é um mito: tudo dialoga com tudo. E a manchete fisga o leitor, sim, slguns deles se baseiam apenas nela.

No presente momento, a universidade pública brasileira sofre graves ataques da Imprensa, o que se observa no noticiário sobre a USP, caracterizada como antro de usuários de drogas. Curiosamente, é desse antro que sai o maior percentual de produção científica na universidade brasileira. Periga a opinião pública pensar que puxar fumo faz bem pra pesquisa, não é?

Minha carreira profissional é muito restrita a dar aulas, orientar pesquisas, fazer pesquisas, publicar resultados. Não sou nem pretendo ser consultor de órgãos públicos nem privados, nunca fiz visitas de inspeção em nome de MEC, CAPES ou CNPq. Meu salário na USP é suficiente para pagar minhas modestas despesas de classe média média. Não estou procurando emprego noutras universidades públicas nem privadas. Se eu vier a procurar, depois de aposentado, manterei os procedimentos éticos que orientaram minha carreira – só lecionei mediante concurso público

Desejo que as universidades públicas e privadas do RN melhorem cada vez mais. O mesmo é válido para os órgãos da Imprensa.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 25 de novembro de 2011 6:26

    Paulo César:

    Relendo seu comentário, senti vontade de acrescentar algo.
    O fato de professores de IES privadas prestarem concurso para IES públicas e serem aprovados demonstra que eles se prepararam profissionalmente, atingiram um bom padrão de trabalho que, frequentemente, foi exercido já nas IES privadas onde atuavam originalmente. Tenho orientandos e ex-orientandos que trabalham ou trabalharam nessas entidades, já desenvolvi palestras e atividades desse tipo nelas. Tenho certeza de que bons professores oferecem boas aulas ali. Em geral, elas são carentes em termos de bibliotecas (veja Natal: a biblioteca da UFRN é muito superior às congêneres privadas), laboratórios, equipamentos.
    Não tenho preconceito contra ensino privado. Lamento, quando ele é bom, e a maioria da população não pode desfrutar disso.
    Quanto aos alunos da IES privadas, há um número expressivo de pessoas pobres que se sacrificam para pagar por elas porque o mercado de trabalho, atualmente, cobra formação superior para incontáveis funções.

  2. Paulo César 20 de novembro de 2011 18:51

    Meu caro Marcos(permita-me o tratamento cordial),

    Em nenhum momento, no meu breve comentário, aludi ser você um dos profissionais que porventura estivessem se utilizando de expedientes outros para conseguir empregos. Nada sei, exceto o que existe no Lattes e de rápidas leitura aqui e acolá, sobre sua trajetória profissional. Aproveitei sim, sua reprimenda(digamos assim) ao Novo Jornal, para comentar algo que salta aos olhos de muitos aqui no Nordeste.
    Acrescento algo que ouvi agora na siesta pós prandial em agradável alpendre à beira-mar:
    Muitos professores hoje trabalham em IES privadas e – legitimamente – fazem mestrado, doutorado para depois prestarem concurso para as públicas, as quais hoje quase só contratam Doutores e raras vezes Mestres, criando um nicho de mercado ao qual apenas têm acesso os que possuem condições econômicas privilegiadas para se manterem durante a longa formação ou aqueles que labutam nas IES privadas e se sacrificam em longas jornadas cumulativas entre trabalho e estudo. Esse quadro delineado rapidamente mostra que as IES privadas terminam sendo celeiros para as IES públicas, numa cruel inversão entre público e privado. Necessário também ressaltar que a maioria dos alunos de IES públicas – falo por experiencia própria no magistério de cursos de Medicina – são filhos da classe média média(classificação usada por você) e classe média alta.
    Parece que o Galo do Alto cozido, com delicioso pirão, além de algumas não costumeiras doses de cachaça soltaram minha língua, fazendo com que eu me alongasse em demasia, pela qual peço antecipadas escusas.

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