Universo surgiu do nada e por acaso, diz astrofísico Lawrence Krauss

Foto: Ligia Hougland/Especial para Terra

TERRA MAGAZINE
Direto de Washington

Em entrevista exclusiva ao Terra, astrofísico Lawrence Krauss defende que universo surgiu do nada e por acaso e sem ajuda divina

Um dos mais badalados cientistas da atualidade, devido, principalmente, aos esforços em popularizar a ciência, fazendo com que as pessoas deixem a religião de lado e aprendam sobre as belezas de um universo acidental e sem propósito, o astrofísico americano-canadense Lawrence Krauss causou polêmica com o lançamento do livro A Universe From Nothing (Um Universo do Nada, em tradução livre). Segundo o autor, o universo aconteceu por acaso e veio do nada – algo instável e que sempre acaba reagindo, sem precisar de interferência divina.

Krauss, quem tem algumas obras publicadas no Brasil, como A física de Jornada nas Estrelas, já havia enfurecido grupos religiosos americanos quando realizou uma apresentação sobre a origem do universo – o material, que parou no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=7ImvlS8PLIo), já foi assistido por mais de um milhão de pessoas. Comentários acusando o astrofísico de querer acabar com Deus se multiplicaram na internet. Mas o autointitulado antiteista garante: essa era a intenção.

Em entrevista exclusiva ao Terra, em Washington, Krauss defende que um universo aleatório e uma vida sem supervisão divina proporcionam mais significado à existência. Confira a seguir a conversa com o cientista, que aborda a possibilidade de diversos universos serem resultantes de um nada com leis distintas da física.

Terra – De acordo com sua teoria, o universo é apenas um acidente que aconteceu sem a supervisão de um ser superior. A ideia de que estamos aqui por acaso não implica que a vida não tem um sentido maior?

Lawrence Krauss – Não há propósito evidente para o universo. A vida no nosso universo pode ser apenas um acidente. Podemos tentar entender como o universo foi criado, mas não temos como identificar um objetivo evidente. Mas isso não deve nos desolar. É motivo para sermos mais felizes. O propósito e o significado da nossa vida são criados por nós. Isso nos dá mais poder. Em vez de sermos governados por um ditador universal, como meu amigo Christopher Hitchens (famoso ateísta autor do best-seller Deus não é grande (Ediouro), que recente morreu de câncer) diria, criamos nosso próprio significado. Isso deve nos empolgar, pois dá mais sentindo a tudo que fazemos.

Terra – Você não acha que sua mensagem pode fazer com que muitas pessoas percam a vontade de viver, se acreditarem que não existe nada além desta vida, que não há um ser superior que se importa com elas e que não passamos de um acidente?

Krauss – Ao contrário, temos que tirar o máximo de proveito deste incrível acaso. Temos muita sorte de estarmos aqui, de termos a capacidade de pensar, experimentar o universo em toda a sua glória, poder entender até os seus primeiros momentos. Somos incrivelmente sortudos. Devemos explorar tudo que for possível, todas as aventuras que encontrarmos, intelectuais e de outras naturezas.

Terra – No seu novo livro, você fala em multiversos, ou seja, na existência de diversos universos passados, presentes e futuros, teorizando que talvez não existam leis universais da física e que as leis da física podem ser diferentes de acordo com cada universo. Como que o nada pode produzir resultados diferentes?

Krauss – Talvez não exista mesmo um conjunto universal de leis da física. No caso de multiversos, é muito possível que cada universo tenha leis diferentes. O fato de o nada poder produzir universos diferentes é, na verdade, bem simples. A mecânica quântica nos mostra que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e que todas as possibilidades são realizadas. Mesmo em um espaço vazio, há partículas saindo do nada, constantemente. Não apenas isso acontece, como é vital. Na verdade, a maior parte da massa corporal de uma pessoa é determinada pelas partículas que saltam, constantemente, para dentro e para fora do espaço, neste exato momento. A mecânica quântica nos diz que o nada vai, eventualmente, produzir algo. O nada é instável.

Terra – Qual é a probabilidade de estes multiversos estarem interagindo com o nosso universo?

Krauss – Há diversos tipos de multiversos. Uma possibilidade é que existem muitos universos tão desconectados de nós que nunca interagirão com o nosso universo. Nesse caso, nunca os conheceremos empiricamente, eles sempre estarão separados de nós. No caso da teoria das cordas (string theory, o termo em inglês mais usado), há a possibilidade da existência de outros universos literalmente a um milímetro do meu nariz, em outra dimensão. Nesse caso, é possível que algo que acontece em um universo pode impactar outro universo. Portanto, algumas coisas que vemos no nosso universo podem ser fatores aleatórios que estão acontecendo em outro universo.

Terra – Então, você não acredita mesmo em Deus?

Krauss – Considero presunçoso se dizer ateísta, pois não posso garantir que o universo não foi criado com um objetivo, apesar de não haver nenhuma evidência disso. Mas posso dizer que não gostaria de viver em um universo onde existe um Deus, um universo onde eu não passaria de um cordeiro, sem controle sobre a minha existência. Um universo no qual, no caso de algumas religiões, se você faz algo errado, você fica condenado pela eternidade. É um conceito ridículo e horrível. Prefiro viver em um universo onde eu conquisto um significado para a minha vida e uso minha cabeça para agir, em vez de ser mandado por um Deus que, por vezes, é muito vingativo

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. W. Couto 16 de janeiro de 2012 21:01

    Toda afirmativa peremptória sobre o Universo é fruto de pretensão ou crença. As duas observações são carentes de comprovação. Contudo, a crença deísta produz o mal da enganação pelas igrejas e pelo poder. Prefiro, pois, acreditar na formação natural e evolução da vida. Pelo menos, não serei roubado por pilantras da evangelização nem culpado pelas guerras “santas” da sacanagem muçulmana, judaica ou cristã. E se houver Deus, não é problema meu. Eu é que sou problema dele, pois não interferi no meu nascimento.

  2. Jairo llima 16 de janeiro de 2012 8:29

    O nosso astrofísico pratica uma cômoda teologia inversa que nem de longe parece científica. Afinal, este seu “nada” é tão impreciso e nebuloso quanto qualquer dogma sobre a exixtência de deuses.

  3. Emiliano Vargas 15 de janeiro de 2012 22:24

    É Fácil pensar que o nada cria algo, ou que não há significado na criação, pois o resultado é sempre o mesmo, pois em ambos casos não há como conferir, o que torna nosso modelo sempre parcial, portanto essa crença é por excelência contraditória. Difícil é pensar que existe algum significado, pois aí sim haveria uma comunicação efetiva, entre o que é, e o que sabe que é, e para tanto haveria um modelo sempre aproximado. Entre a matemática exata e a estatistica nosso raciocínio processa a percepção. Só conhecemos o fenômeno, portanto não há como resolver essa dúvida.

  4. Tales Costa 15 de janeiro de 2012 21:49

    Tudo surgiu a partir da ordem de um criador – Deus. Nada veio do acaso, pois todas as coisas são muito hamoniosas, têm seus limites, seus propósitos, enfim, sua razão de ser.

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