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Urbano Medeiros, senhor do sax

A história do seridoense com trabalho reconhecido pela Unesco.

Um dia, terá sido há mais de 30 anos, Pará de Minas recebeu de presente um novo morador. Lembro-me de, numa tarde, ter ouvido uma música ao longe. Vinda talvez da praça da Matriz, talvez da Torquato de Almeida. Um som puro, nostálgico. Melodioso. Mágico. Ondulante. Aproximei-me. Quem estaria tocando com tanta emoção?

Eu havia morado fora de Pará de Minas por alguns anos e naquele tempo retornava à cidade. Percebi que as pessoas que rodeavam o músico nem notavam a aproximação de outros ouvintes. Num intervalo entre músicas, indaguei sobre o moço do saxofone. Muitos não o conheciam. Poderia ser algum músico que passava pela cidade, pensei. Acaba que alguém me informou:

− É Urbano Medeiros, marido da Regina Mendonça.

−Regina?

− Você conhece o Dirceu Mendonça? É irmão dela.

O Dirceu, eu conhecia. Da Regina, lembrava-me dela menina ainda, linda, única entre muitos irmãos. Então ela já se casou… E que músico!

Algum tempo depois soube que o músico havia nascido em São João do Sabugi, na região do Seridó, lá no estado do Rio Grande do Norte. Uma vez que ele se apresentava em diversos locais da cidade, dava aulas para gente de todas idades, sua biografia foi sendo revelada. É de 31 de outubro de 1956. Começou a tocar sax pelos sete anos de idade incentivado pelo pai, Bill Medeiros. Uma época em que, com o pai, tocava na pequenina São João. Ficava fascinado com os circos que ali iam e neles podia se apresentar com o pai, criar os “climas musicais” ao vivo para o palhaço, para os malabaristas, para o mágico, para a bailarina bonita que encantava os rapazes do lugar.

Serra_do_Mulungu_-_São_Joao_do_Sabugi_-_RNDo Seridó para a Amazônia

Quis saber mais. É católico e judeu. Ama o hebraico. Além de São João do Sabugi, de onde mais Urbano trazia tão bela melodia para nossos ouvidos? Soube. Foi componente da Filarmônica Honório Maciel de sua cidade, cujo maestro, Manoel Felipe, ficava admirado pela sua aptidão musical e pela sua dedicação ao estudo da música.

Mudou-se para a cidade vizinha Caicó. Lá fez parte da Filarmônica Recreio Caicoense. Aos dezessete anos tornou-se regente da Filarmônica do Centro Educacional José Augusto — CEJA, ocasião em que foi homenageado pelo Ministério da Educação e Cultura — MEC, por ser o maestro mais jovem do Brasil. Aos dezoito anos de idade, Urbano era o primeiro saxofonista do Batalhão de Engenharia e Construção — BEC, em Caicó.

Logo depois mudou-se para São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Trabalhou como radialista, educador de arte e comunicador. Estudou teatro, tornou-se contador de histórias e leitor compulsivo.

Músico costuma ser inquieto, mas o tempo e os sons acabam por torná-los mais sossegados. E no seu tanto caminhar, um dia, Urbano Medeiros conheceu a Regina, casaram-se e ele veio morar em Pará de Minas. Num meio tempo de aperfeiçoamento musical, apresentações, gravações, doenças lutadas e vencidas, Urbano e Regina tiveram os filhos Paulo Misael, Elizabeth e Júlio e os netos Pedro e Francisco.

Quem é Urbano Medeiros?

Eleito por entendidos como um dos melhores sopros do mundo, Urbano Medeiros viajou pelo Brasil e pelo mundo, onde é até mais conhecido do que no Brasil. Diversos são os países que conhecem sua música: Argentina, Itália, França, Portugal, Lituânia, Ucrânia, Iraque, Afeganistão, Rússia, Egito, Israel, Líbano e Síria.

Suas obras: 20 CDs (que coisa mais deslumbrante o CD Theotókos, sem desmerecer nenhum dos outros), seis DVDs, diversos vídeos postados no Youtube, dois livros (Sons e Silêncio. Música. Psicologia. Uberlândia: Editora Partilha, 2011 e Homens e Mulheres de Ontem e de Hoje. Reflexões. Filosofia. 2◦. Ed. 2002. São Paulo: Loyola, 1991) estão espalhados pelo Brasil e pelos países por onde passou. No final do ano de 2017, teve participação no livro — “Poética Patafufa”, de Patrícia Pimenta.

“A música é algo tão belo que só pode vir de Deus”, afirma o Urbano Medeiros. (Parece até que ele revalida o dito do poeta e filósofo alemão, Friedrich Nietzsche: “Sem a música a vida seria um erro”.) E completando seu dizer, Urbano relata suas diversas experiências pessoais e religiosas e aborda a eficiência terapêutica da música na cura de enfermidades do corpo e da alma.

Urbano Medeiros.4Trabalho reconhecido pela Unesco

A cumprir sua missão de músico, Urbano toca em cima de prédios, em lugares públicos e hospitais dos mais longínquos recantos do país, na intenção de espalhar ondas sonoras aos depressivos, doentes dos mais diversos males, doentes terminais, dependentes químicos, presos. Sem se esquecer das pessoas que menos padecem — por que não? Por essa razão, recentemente, seu trabalho artístico foi reconhecido pela Unesco.

Nas suas falas sobre música Urbano sempre destaca a influência dos marranos (povo judeu com descendentes do Seridó) e de negros e índios na música e procura ressaltar a importância da valorização do trabalho do músico como profissional. Quantas horas de estudo, de dedicação, de ensaios, um músico despende do dia, da vida, para fazer uma apresentação, seja de uma ou duas horas?

Em 16 de novembro de 2017, em Caicó, os irmãos músicos Urbano, Ubaldo e Antônio “Totó” Medeiros, pelos relevantes serviços prestados à cultura do Seridó, do Rio Grande do Norte e do Brasil, foram homenageados com a Medalha Trabalho e Fraternidade durante o evento “3ª. Noite da Educação, Cultura e Arte.

Que nosso músico tenha saúde e alegria musical para continuar a encantar Pará de Minas e o mundo.

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Comentários

3 comments

  1. JUCA ARAUJO 16 agosto, 2018 at 09:27

    UM GENIO. NUNCA SE VENDEU A ESTE SISTEMA TEMEROSO DE DIREITA QUE VIVEMOS NO BRASIL.
    ESTE É ARTISTA!!!!!!!!!!!
    GENTE DA GENTE.

  2. lurdes araujo 19 agosto, 2018 at 07:28

    músico plural
    ativista de esquerda
    social
    humanista
    humilde e virtuoso
    orgulho do rio grande do norte
    beijos

  3. Francisco Sociólogo 1 setembro, 2018 at 18:25

    Urbano Medeiros esteve em Caicó e com a participação dos irmão Ubaldo e Totó Medeiros fizeram um vídeo lindíssimo com produção e filmagem do grande cineasta pernambucano Marco di Aurélio.
    É da gente chorar de emoção. Altíssimo nível as músicas além de um “toque” de teatro.
    É a arte potyguar explodindo para o mundo afora!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Beijo do prof. Chico

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