A utilidade da crítica

Foto: Shannon-Tanski

Por Mirhiane Mendes de Abreu
REVISTA PESSOA

Os comentários feitos ao artigo inaugural (aqui) desta coluna mostraram que as inquietações relacionadas aos estudos literários são capazes de ir ao encontro de um universo muito grande de pessoas. Aos que leram o texto, me escreveram e se dispuseram a discutir os assuntos, agradeço pelo acolhimento da proposta.

Não posso precisar quando idealizei este ambiente público a fim de debater o alcance da literatura com um tipo de abordagem que, sem abrir mão do rigor acadêmico, atingisse interlocutores mais diversificados. Gradualmente, em razão de querer refletir sobre o tema por meio da própria obra literária, busquei ler narrativas em que se concretizasse a relação entre escrita e espaço escolar e foi desse modo que me deparei com o belo livro A flor fatal, de Fernando Cabral Martins. Li-o quase sem interrupções, da epígrafe tão sugestiva à “luz imaculada”, ricamente imagética, ao final de um enredo que é pura habilidade.

Livros que se passam no ambiente escolar não se configuram como novidade, como podemos nos lembrar de O Ateneu, por exemplo. A flor fatal, publicado em 2009, faz da escola seu espaço principal, embora a narrativa ofereça outra perspectiva sobre o assunto. No universo da ficção, a escola é apresentada como lugar de sofrimento e horror, um pesadelo. Já no livro de Fernando Cabral, a ideia de angústia que se comunica nesse lugar desdobra-se não pela estrutura opressiva do ambiente, mas pela paixão avassaladora que o professor Aurélio nutre pela aluna Queen Kelly. Essa paixão incendiária e indiferente ao que é bem ou mal promove um sinuoso curso de encontro e desencontro e possibilita que a narrativa conduza a personagem da aluna ao cortejo literário de mulheres fatais que semeiam a ruína entre os homens.

Ao trazer à tona o prazer e a dor, a narrativa preserva um movimento ascendente de aforismos e o plano do discurso move-se entre os desvios do casal, suas dores e sua libido. Com isso, o enredo submete toda experiência à reflexão, como se conceituar fosse a regra do jogo. De queda em queda, não admira que Queen Kelly, desamparada, regresse ao seio materno. Seu corpo desgastado recobre-se, por fim, de nova atmosfera, agora sublime, que envolve a experiência da maternidade nas suas duas pontas, a da filha e a da mãe. Sublimidade esmagada pela interrupção dramática da vida, atando o percurso da narrativa ao seu início e à história do poeta-suicida, a aula sobre Mário de Sá-Carneiro, que funciona no enredo como mote a ser glosado.

O autor de A flor fatal, Fernando Cabral Martins, é professor de literatura da Universidade Nova de Lisboa e muito conhecido no cenário acadêmico brasileiro por suas reflexões a respeito do modernismo, nas quais se inclui o Dicionário de Fernando Pessoa e do modernismo português, publicado em 2008. Além de sua produção ensaística e de A flor fatal, há muito Fernando Cabral vem se dedicando à escrita ficcional, com a publicação de uma novela, intitulada A Cidade Vermelha (1991), e de livros de contos, que são: Ao Cair da Noite (1989), O Deceptista (2003), Viagem ao Interior (2004) e Os fantasmas de Lisboa (2012). Por esse transcurso de uma vida voltada para a literatura (como ensaísta, professor e autor ficcional), convidei-o para iniciar o ciclo de entrevistas nesta coluna da Revista Pessoa. Em meio aos eventos celebrativos do centenário da revista Orpheu, tema de sua especialidade, o professor Fernando Cabral aceitou responder, por email, às questões que discutem o seu ofício e que aqui estão reproduzidas:

Pessoa – O seu Dicionário de Fernando Pessoa e do modernismo português é muito lido e consultado no Brasil e o estudo O modernismo em Mário de Sá-Carneiro também se constitui como referência constante. No seu livro de ficção A flor fatal, em epígrafe e no corpo do enredo, há fragmentos de textos e referência à literatura de sua familiaridade acadêmica, além de se passar no ambiente escolar. Como ocorre a relação entre sua escrita ficcional e seu trabalho como professor e crítico literário?

Fernando Cabral Martins – As minhas experiências como autor de ficção tinham sempre extravasado do meu campo profissional de professor. Quando muito, tinham ligações ao cinema, que constituiu durante alguns anos foco do meu trabalho em jornais como crítico de filmes. De resto, para mim a vida está mesclada de cinema, tanto quanto de literatura. Na minha primeira visita a Paris, andei por todo o lado a seguir os passos de Sartre, Henry Miller, Godard, Bresson. Muitas vezes me lembro de passagens de livros e de versos, mas também de réplicas de filmes para comentar, ou até para entender o que se passa comigo no dia a dia. Os livros e os filmes passaram a fazer parte da vida como um múltiplo ensinamento de muitos amigos por quem se tem admiração. E, no caso de Mário de Sá-Carneiro, a sua obra foi o tema do meu doutorado, de modo que passei vários anos a percorrer intimamente a sua obra e a sua vida. No final desse percurso, comecei a escrever um romance que se inspirava directamente nele, e que o integrava como personagem, embora de um modo indirecto. Foi para mim uma necessidade, um gesto que tinha absolutamente que cumprir.

Pessoa – O fato de você ser um dos críticos mais importantes sobre o modernismo português e sobre Fernando Pessoa influenciou de algum modo o seu exercício ficcional (quer como estímulo, quer como inibição)? Por quê?

Fernando Cabral Martins – De facto, tudo funcionou a partir da vontade de ficção. Comecei por querer escrever e publicar contos em jornais e revistas, e depois, resolvi dedicar-me ao estudo da literatura. Ora, no âmbito da literatura portuguesa, o que mais me interessou foi Fernando Pessoa, que na altura da minha formação ainda não tinha atingido a dimensão que hoje tem, mas já sobrelevava os restantes autores contemporâneos. A partir daí, era importante desenvolver o estudo dos outros autores modernistas e do envolvimento estético internacional, e foi assim que fui prosseguindo, cada vez tendo menos tempo para as escritas ficcionais próprias, que nunca deixei de ir fazendo.

Pessoa – Você possui algum método de trabalho como escritor ficcional? Estabelece o enredo previamente, elabora anotações? Em que diferem ou como se aproximam sua escrita ficcional e seu trabalho crítico do ponto de vista do processo da escrita?

Fernando Cabral Martins – Não sou o tipo de escritor que usa um plano fortemente elaborado. Só no caso dos livros de ensaio, é claro. Mas há na ficção alguma coisa de orgânico, no sentido em que tudo está dependente, para um determinado projecto, de uma ideia muito simples de base, sempre associada a um título, que magnetiza depois os textos à volta dessa ideia de base, de uma forma inteiramente dependente do impulso de escrever. Nunca me sento à mesa a espremer as meninges para produzir qualquer coisa, no que respeita à ficção. Ou aparece e se desenvolve (quase) automaticamente, ou então não me interessa.

Pessoa – Você lê críticas, resenhas e estudos sobre seus livros? Tem algum contato com seus leitores?

Fernando Cabral Martins – Os suplementos literários dos jornais desapareceram todos em Portugal. Tenho alguns amigos a quem peço para me lerem, é tudo. Mas dou muita importância (mesmo que não queira) a todas as críticas que aparecem após a publicação, em jornais e revistas ou em blogues.

Pessoa – O que despertou em você a vontade de ter uma carreira intelectual?

Fernando Cabral Martins – Devo ter sido imaginado que era capaz de “escrever bem”, o que quer que seja que isso signifique.

Pessoa – Você acha que a literatura tem alguma relevância? Qual seria?

Fernando Cabral Martins – A literatura hoje mistura-se com outras artes, e os seus diferentes géneros também se transformaram: a ficção inclui o ensaio, a poesia torna-se prosa, o ensaio ficcionaliza-se, num mundo de cruzamentos múltiplos e em ritmos cada vez mais rápidos. Mas aquilo a que continuamos a chamar literatura continua a ser o modo essencial de usar as palavras, e as palavras são a fábrica do sentido. Por mais fantásticas e tridimensionais que sejam as imagens e por mais fortes que sejam as emoções, por entre filmes, concertos, jogos e reality-shows, só aquilo a que chamamos literatura é a arte do sentido, e no centro do entendimento do mundo continuará sempre a arte da escrita e da leitura.

Pessoa – Como gostaria que seus livros fossem lidos na escola e na universidade?

Fernando Cabral Martins – Como sinais de vida, como afirmações da vida.

Pessoa – Agora vamos à construção de uma hipótese. Se você fosse professor de Educação Básica e lecionasse para crianças e jovens, como conduziria seu curso para tornar a literatura estimulante para os alunos? Ou, dizendo de outro modo, de quais princípios não abriria mão para essa finalidade?

Fernando Cabral Martins – Antes de mais, a literatura é um modo de tornar claro o pensamento, e também de dar forma ao pensamento. Depois de uma defesa dos princípios da clareza e da exactidão, talvez o mais importante fosse dar a perceber aos alunos os poderes da literatura, que são a criação de mundos imaginários e a capacidade de exploração de todos os mundos possíveis. Não sei se valeria a pena dar a ler exclusivamente textos fáceis ou chamar a atenção só para a dimensão de divertimento que as palavras também comportam, quer dizer, atrair os alunos com base na sedução do jogo literário. Acho que não faz mal explicar que é preciso trabalho, que muitas vezes é preciso vencer as resistências naturais, porque o resultado será altamente compensador.

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Mirhiane Mendes de Abreu tem graduação em Letras pela Universidade Federal Fluminense, com mestrado em Letras e doutorado em Teoria e História Literária pela Unicamp na área de Literatura Brasileira. Pós-doutorado na Unicamp e na Sorbonne. É autora do livro Ao pé da página: a dupla narrativa em José de Alencar. Entre 1999 e 2006, foi Professora de Teoria Literária da Universidade Estadual de Londrina. Atualmente, é Professora Adjunta de Literatura Brasileira na Unifesp. Desenvolve pesquisas sobre romance, história e crítica literárias e epistolografia.

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