Utopias & Ucronias: O reino dos senhores do tempo e do espaço

“La simplicidad es la última sofisticación”
(Leonardo Da Vinci)

Convite: façamos um exercício imaginativo que nos permita vislumbrar novos mundos, novos tempos. É um desafio à capacidade de profetizar, quem sabe, uma nova era de ouro para a humanidade. Caminhemos juntos.

As dimensões tempo e espaço têm delimitado o campo da existência humana. Nós, viventes, habitamos um determinado lugar e temos o tempo como uma variável que não nos confere a eternidade. Civilizações inteiras nascem, crescem, têm o seu apogeu e, depois, a sua decadência.

Lugares também passam por transformações. Catástrofes, ciclones, terremotos, vulcões, tsunamis são alguns dos elementos surpresa que deixam um rastro de destruição à sua volta. Continentes inteiros já desapareceram, como se exemplifica com a lendária Atlântida. Existem lugares tenebrosos de se viver, terrenos áridos, inférteis, sob o castigo do sol inclemente que provoca as secas e cria desertos.

Por outro lado, existem  lugares onde o frio, a neve e a nevasca, continuamente, desafiam e testam a capacidade de resistência e de sobrevivência do homem.

Portanto, nem todas as geografias são favoráveis à existência humana. E nem todo o tempo é desejável por nós.

Quem gostaria de viver sob a égide  de escravidão, desigualdade social, injustiça, perseguição, barbárie, atrocidade e guerra? Quem gostaria de se submeter ao jugo do fascismo e à tutela de regimes que atentam contra a dignidade do ser humano?

Não se deve louvor a todos os tempos vividos e tampouco deve-se considerar que o homem habita em um paraíso.  Aliás, a geografia ideal, o nosso lugar por excelência é, na verdade, o não-lugar. Aquele país ou reino que ainda não existe. E que precisa ser criado. A nossa utopia.

Assim, cada um de nós pode usar a sua imaginação para desenhar  o seu paraíso, a sua Pasárgada, como imaginou Bandeira.  Quem sabe, vislumbrar o lugar mágico em que gostaria de viver, a geografia ideal para ser o habitat da sua descendência, onde criar filhos e assistir ao crescimento dos netos.

O não-lugar e o não-tempo

Em acréscimo, poderá imaginar também a feição do tempo futuro, o tempo ideal, com todas as características inerentes ao modo de vida que se pretende. O modelo de sociedade ideal, seja político, econômico, cultural e filosófico. Vislumbrar a “cara” do mundo que se almeja. Seja no futuro próximo ou no longínquo horizonte.

Caber-nos-á desenhar o porvir, os anos vindouros, o não-tempo, a nossa ucronia. Aquela era em que tudo florescerá, em que o tempo será o nosso aliado – e não o tirano que nos faz lutar contra o relógio e contra o calendário.

Um tempo de paz, de solidariedade, de convivialidade, de busca da igualdade, da liberdade e da fraternidade (soa como algo que já ouvimos, não?). Mas algo que ainda não alcançamos,  uma ucronia. Um tempo que ainda precisa ser desenhado e construído.

Utopia, o não-lugar. Ucronia, o não-tempo. Mas ambos deverão ser percebidos como dimensões que se entrecruzam de maneira a nos propiciar o que é fantástico e desejável para se viver em um mundo melhor, num tempo de grande evolução do pensamento, das liberdades, das manifestações artísticas, culturais, políticas e filosóficas.

Leia poema “Os estrangeiros”, de José de Castro

Isto  significa   a concretização de tudo aquilo que  dignifica o homem e o aproxima do que podemos chamar de divino. Seremos os nossos próprios deuses. Teremos o nosso Olimpo. Senhores de um tempo para o lazer, para o ócio criativo, para o deleite, para exercermos uma vida plena.

Enfim, viveremos num tempo e num espaço em que essas duas dimensões serão favoráveis ao desenvolvimento do homem, de maneira integral, em paz e em harmonia com o meio ambiente e com todos os seres viventes. Quem sabe habitaremos o mundo num tempo em que a linguagem universal do homem será a poesia? 

Imaginar custa pouco. Criemos utopias e ucronias. Busquemos as  palavras exatas, os cenários ideais para descrevermos esses modelos de mundo quase impossíveis. Com a fina matéria do sonho, vamos esculpir o tempo e o espaço. Lembrando que muito do que hoje existe no mundo físico, antes passou pela imaginação de alguém. E precisamos desses voos fantásticos. Hoje, ficção. Amanhã,  realidade. O que não podemos é nos conformar e aceitar passivamente uma realidade que costuma superar em horrores toda e qualquer ficção.

Sejamos, pois, engenheiros de um novo tempo, arquitetos do futuro que nos pede ousadia. Imaginemo-nos senhores do tempo e do espaço. Está lançado o desafio, pois sonhar ainda é absolutamente necessário. Desperte a prosa inventiva e a poesia que dorme em ti. É preciso alma e coração de escritor e poeta para reinventar o mundo.

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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