Valentina, de Crepax

Por Luciano Trigo
G 1

Título original: Valentina, de Crepax: a personagem mais sexy (sem ser vulgar) dos quadrinhos

A personagem de histórias em quadrinhos Valentina, do italiano Guido Crepax, estreou de forma discreta, como coadjuvante em uma série da revista “Linus” – publicação pioneira nos quadrinhos voltados para o público adulto. Eram meados dos anos 60, e o protagonista das histórias era Philipe Rembrandt, aka Neutron, um misto de crítico de arte e detetive diletante que usava poderes paranormais para combater o crime. Mas, diante da popularidade crescente de Valentina, namorada de Neutron, logo Crepax se deu conta de que o erotismo era um filão mais interessante a explorar que histórias policiais ou de ficção científica, promovendo a moça ao status de heroína.

O álbum “Valentina – Biografia de uma personagem” (L&PM, 152 pgs. R$ 36,90) reúne as primeiras histórias de Valentina, publicadas em 1965 e 1966 e marcadas por um clima de alucinação e fantasia. Elas registram a gênese da fotógrafa descolada que vive as mais descabeladas aventuras sexuais – envolvendo fetichismo, bissexualidade e sadomasoquismo – sem jamais perder a linha, a elegância e a sofisticação. Da infância ao nascimento do filho de Valentina (com Rembrandt, sua eterna paixão, apesar de ela nunca abrir mão de suas aventuras bissexuais), o livro reúne quatro histórias: “Intrépida Valentina”, “Intrépida Valentina de papel”, “A curva de Lesmo” e “O bebê de Valentina”. As notas de Luisa e Antonio Crepax – mulher e filho do autor, que morreu em 2003, aos 70 anos – enriquecem a leitura, trazendo informações interessantes sobre os bastidores de cada história e identificando situações e personagens reais do círculo de relações do artista. Leia aqui um trecho do álbum “Valentina – Biografia de uma personagem”.

Livremente inspirada na atriz do cinema mudo Louise Brooks, Valentina Rosselli é hoje reconhecida como um ícone de seu tempo – independente, misteriosa e cheia de estilo, mas sobretudo liberada sexualmente, alheia às convenções morais que reprimiam o comportamento feminino. Nos álbuns de Valentina, o enredo importa menos que a linguagem: Crepax bebe diretamente na cinematografia europeia da época, com enquadramentos inusitados e uma narrativa não-linear, que expõe o contraste entre o cotidiano relativamente normal da fotógrafa e o mundo de sonhos em que ela se realiza eroticamente. Um detalhe interessante é a preocupação do artista em situar no tempo e no espaço sua personagem: vemos sua carteira de identidade, conhecemos suas relações familiares e profissionais, entendemos seus gostos e suas escolhas, na maneira de se vestir e de se comportar. Sabemos que Valentina nasceu em 25 de dezembro de 1942, em Milão, que ela tem 1m72 de altura e olhos azuis. Valentina envelhece ao longo das histórias: em seu último álbum, “Al Diavolo Valentina”, ela já é uma mulher madura, de 53 anos.

Além disso, Valentina é uma mulher verossímil, que tem crises e momentos de desequilíbrio, que fica cansada, que tem momentos de alegria e tristeza, que tem um filho. Frequentadora da alta roda de Milão, integrante de uma classe dividida entre o glamour e o tédio, Valentina não é, contudo, uma personagem alienada: nas horas vagas, lê Freud e Trotsky, o que confere estofo intelectual ao seu comportamento, à sua bissexualidade assumida, à sua disposição permanente para o sexo e o autoerotismo. Naturalmente, tudo isso chocou militantes feministas da época, que se queixaram do sexismo da personagem. O próprio Crepax respondeu: “Valentina é mulher por inteiro. Eu diria que, nos meus quadrinhos, quem faz um papelão são os homens: eu sempre fui feminista, e não é por acaso que Valentina tem uma profissão, a fotografia, que na época era exclusivamente masculina. Enfim, não lhe dei o papel costumeiro das heroínas dos quadrinhos, tipo Dale Arden ou Diana Palmer, sexy e fatais, mas que depois acabam na cozinha, lavando louça”.

Arquiteto formado pela Universidade de Milão e publicitário bem-sucedido, o milanês Crepax (foto acima) teve sua importância reconhecida por teóricos como Roland Barthes, Alan Robbe-Grillet e Umberto Eco, que transformaram Valentina na primeira personagem dos quadrinhos a figurar na lista de artigos culturais de elite. A originalidade e a elegância de seu traço, marcado por linhas esguias e sensuais, influenciaram diversos artistas, entre eles Manara – autor da história que inspirou o filme “Azul é a cor mais quente” – e Serpieri.

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