valter hugo mãe e a polêmica sobre o ato de criar

Uma das estrelas da 9ª Festa literária Internacional de Paraty, RJ, que terminou domingo passado, o angolano valter hugo mãe é mais uma dessas revelações que Portugal se encarrega de irradiar para a literatura lusófona de nossos dias e que começa a se fazer conhecido entre os leitores brasileiros, graças ao lançamento de seus romances “A máquina de fazer espanhóis” (Cosac Naify) e “O remorso de baltazar serapião” (34).

Quanto a mais esse nome próprio em letra minúscula, é porque o romancista crê que assim obtém uma ligação mais direta dos seus livros com a oralidade e com uma espécie de “humildade gráfica”. Esse método não deixa de fazer de valter hugo mãe um epígono de seu conterrâneo José Saramago, autor também obcecado pela ideia de oralidade, tanto que promoveu uma simplificação em sua expressão textual, a fim de realçá-la. A abolição do ponto separando parágrafos obedeceu a esse princípio, provando que isso em nada influencia na narração de uma história, desde que acompanhada de uma a estrutura narrativa coesa e bem urdida.

Se a intenção de valter hugo mãe ao lançar mão da “humildade gráfica” como reforço da oralidade se presta a promover maior visibilidade dos seus romances,não se resume todavia a esse propósito, se dermos crédito à cobertura da FLIP feita pela reportagem da Folha de S. Paulo do dia 9 último, dando contato da sinergia que o escritor obteve no evento, magnetizando o público com sua “humildade verbal” (irmã gêmea da outra humildade já referida). A acolhida altamente receptiva obtida por valter hugo mãe junto ao público da FLIP se traduziu ainda no recorde de venda de livros entre os autores convidados à livraria oficial do encontro.

A palavra franca e fácil do escritor português lhe permitiu ainda falar da hipocondria do pai, da boa relação que manteve, durante a infância em Portugal, com uma família brasileira e, mesmo, da música de Renato Russo em tom superlativa: “Achava que Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção ‘Tempo perdido’ ”.

A humildade verbal de valter hugo mãe não resistiu, contudo, a uma significativa discussão sobre o romance, e que tem, entre alguns escritores, um sentido de rito sacrificial. Queremos nos referir àqueles autores que encaram o ato de escrever como um esforço sobre-humano ou renúncia ascética da vida a que se veem obrigados, como se a musa hodierna, agora travestida de déspota, os obrigasse imperiosamente a escrever, sob pena de inimagináveis castigos.

Para valter hugo mãe a escrita nada tem a ver com coisas como autoimolação, renúncia ou qualquer outra forma de sacrifício. Sem entrar em pormenores sobre se isso tem algo a ver com maior facilidade ou não para compor a urdidura textual, vhm expôs sua visão franca sobre a questão: “Alguns autores falam de sofrimento atroz da escrita. Eu acho que terríveis podem ser as coisas da vida, mas acho que escrever é o momento da salvação”.

A criação literária como metáfora oposta à desordem do mundo, e, consequentemente, como um ato de salvação (uma salvação também tendente às formas modestas) segue numa linha que explica melhor, a nosso ver, que o seu oposto, a criação literária. Digamos que para o escritor que extrai sua obra com grande sacrifício, é de se esperar que, na medida do possível, a descarte, a fim de se livrar do sofrimento que ela lhe inflige (salvo os casos omissos de masoquismo literário).

“Escrevo para poder respirar”, confessou o poeta Michael Palmer em entrevista ao escritor Régis Bonvicino (“Cadenciando-um-Ning”, Ateliê, 2001) quando indagado sobre o que é ser poeta de vanguarda. O esforço por respirar que transparece na declaração de Palmer traduz à perfeição a ideia de busca de um “momento de salvação”, aludida por valter hugo mãe.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. chico m guedes 19 de julho de 2011 15:50

    Alex, ele nasceu em Angola (em 71) mas veio menino pequeno pra Portugal e vive lá desde então.

  2. Alex de Souza 19 de julho de 2011 13:32

    e aí, o cara é angolano ou português?

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