Vasco da Gama queria retomar Jerusalém

Por Reinaldo José Lopes
FSP – EDITOR DE CIÊNCIA E SAÚDE

Livros propõem que viagens portuguesas às Índias foram motivadas pela disputa entre cristãos e muçulmanos. Busca por monopólio do comércio de especiarias estaria só na superfície do esforço, que teve base nas Cruzadas

Munido apenas do conhecimento de história que você adquiriu no ensino médio, responda rápido. Vasco da Gama recebeu ordens do rei de Portugal para achar o caminho para as Índias. Qual era o objetivo da missão?

A) Inserir Portugal no comércio de especiarias; B) destruir o poderio comercial e marítimo do Islã; C) selar uma aliança com um lendário monarca cristão do Oriente e reconquistar Jerusalém ou D) todas as anteriores, com prioridade para “B” e “C”?

Acertou quem disse “D”, ao menos segundo “Holy War” (“Guerra Santa”, ainda sem edição no Brasil), do historiador britânico Nigel Cliff.

A obra faz companhia a “Por Mares Nunca Dantes Navegados” (editora José Olympio), do americano Ronald Watkins. Os livros retratam as navegações portuguesas como mais um capítulo da luta entre cristãos e muçulmanos que foi o principal drama da Idade Média.

SUPERFICIAL

“Somente no nível mais superficial esta é a história do monopólio comercial de especiarias”, escreve Watkins.

“Para os envolvidos, tratava-se das Cruzadas, em manifestação diferente, mas com o mesmo objetivo. Acreditava-se que passar uma descompostura nos islâmicos que controlavam o portal para as especiarias enfraqueceria os infiéis e levaria à reconquista de Jerusalém.”

“Reconquista”, é bom lembrar, porque cavaleiros cristãos tinham sido chutados da Terra Santa em 1291. E em 1453 os turcos do Império Otomano capturaram Constantinopla, acabando com o Império Romano do Oriente, antiga potência da cristandade.

Nigel Cliff vai mais longe: as viagens de Gama representam um ponto de virada, o momento em que o Islã começou a decair e os europeus iniciaram sua trajetória rumo à dominação do planeta.

Por um lado, a estratégia indiana dos cruzados portugueses era muito sensata. Como o Mediterrâneo tinha virado um lago turco, e Portugal estava voltado para o Atlântico, era melhor dar a volta para alcançar a Índia.

Mas o outro ponto do plano era uma maluquice: a crença medieval na existência do invencível rei-sacerdote Preste João.

PODEROSO JOÃO

Não se sabe como a lenda surgiu. Talvez derive do contato indireto com comunidades cristãs fundadas na Índia por missionários sírios e persas. O fato é que, a partir do século 12, esses grupos foram transformados num poderoso reino de Preste João, descendente dos “Reis Magos” que teriam prestado homenagem a Jesus em Belém.

Se Preste João fosse encontrado, pensavam os cruzados, bastaria fazer uma aliança com ele e atacar os muçulmanos “pelas costas”.

Localizar o monarca foi prioridade da agenda dos reis de Portugal por décadas. A vontade de achar cristãos na Índia era tanta que, quando Gama chegou lá em 1498, os lusitanos interpretaram os deuses hindus como santos cristãos um tanto esquisitos.

Numa coisa, porém, eles não se confundiram: o árabe era a língua franca do comércio no Índico, e muçulmanos estavam por toda a parte.

Quando Gama voltou à região em 1502, as ordens eram forçar os reinos da Índia a rejeitar os mercadores islâmicos e causar o máximo de dano aos seguidores do Islã.

De fato, isso tem muita cara de cruzada. Mas por que os portugueses nunca armaram a expedição para Jerusalém?

Para Cliff, porque os lucros do comércio viraram um fim em si mesmo para o império português, que foi engolido pela Espanha quando o rei Dom Sebastião morreu sem deixar herdeiros em 1578 -lutando numa cruzada no Marrocos, é claro.

HOLY WAR

AUTOR Nigel Cliff

PREÇO US$ 11,99 (e-book)

POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS

AUTOR Ronald Watkins

PREÇO R$ 45,90

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. françois silvestre 23 de outubro de 2011 17:18

    Papo furado. O Vasco só quer o campeonato brasileiro depois da copa do Brasil. O resto é papo náutico, não do Recife, mas do Benfica!

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