Vasculhando uma vida reclusa

Por Michiko Kakutani
ESTADÃO

Uma nova biografia expõe as feridas que moldaram o caráter e a ficção de um eterno outsider, J. D. Salinger

A dedicatória de Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira/Seymour, Uma Apresentação diz: “Se ainda existir um leitor amador no mundo, peço-lhe, com afeição e gratidão, que divida a dedicatória desse livro em quatro com minha esposa e filhos”.

O solitário Salinger, que morreu em 2010, aos 91 anos, aparentemente descobriu esse leitor ideal em seu último biógrafo, Kenneth Slawenski, fundador do site dos seus fãs Dead Caulfields, e autor de sua nova biografia, escrupulosa, sensível e de profunda percepção.

Lançada agora, J. D. Salinger – A Life (Random House), que se inspira em grande parte nas cartas do escritor e em um livro de memórias de sua filha, Margaret, peca por pressupor correspondências diretas entre vida e obra do autor. E além disso, repete tópicos cobertos em livros anteriores por Ian Hamilton e Paul Alexander. No entanto, o faz sem aquela especulação condescendente e por vezes voyeurista que prejudicou as biografias iniciais e realiza um trabalho evocativo, traçando a evolução da sua obra e do seu pensamento.

O Salinger que emerge desse livro é um parente próximo, do ponto de vista psicológico, de sua mais famosa criação, o adolescente Holden Caulfield, e das crianças gênios da família Glass, os principais personagens dos seus trabalhos posteriores. Ele é o eterno outsider, o peregrino espiritual que se sente perdido em um mundo materialista, povoado por hipócritas e gente tediosa. Amado de maneira exagerada pela mãe, diz Slawenski, o jovem Salinger “passou a esperar dos outros a mesma reação, e não tinha consideração por quem duvidava dele ou não compartilhava de seus pontos de vista”.

A consciência de ser uma pessoa extraordinária se calcificaria posteriormente em uma impaciência para com as outras pessoas, uma incapacidade de ir além da visão de mundo adolescente de Holden, que acabaria moldando a ficção posterior de Salinger, tornando-a cada vez mais egocêntrica e crítica.

As experiências de Salinger na 2.ª Guerra intensificaram seu sentimento de alienação. Segundo Slawenski, a guerra infligiu nele profundas feridas psicológicas, marcando “cada aspecto” de sua personalidade, e reverberando em seus escritos.

Salinger foi hospitalizado em 1945 por distúrbios decorrentes de stress pós-traumático. Em carta a um amigo dizia que, no dia da rendição do exército alemão, estava angustiado, segurando uma pistola na mão – cena que antecipa o final chocante de Um Dia Perfeito para o Peixe Banana.

Ao regressar a NY, escreve Slawenski, Salinger tentou recuperar uma versão da sofisticada vida de Manhattan que ele conhecera antes da guerra (quando namorava a filha de Eugene O”Neill, Oona, e frequentava o Stork Club). Jogava pôquer com amigos, namorava muito e costumava ir regulamente a restaurantes e boates. Entretanto, tinha dificuldade em encontrar o que Slawenski chama de “um lugar “normal” onde pudesse se inserir”.

Seu isolamento foi gradativo. Inicialmente, afirma seu biógrafo, ele se mudou para Connecticut, e depois, em 1953, adquiriu uma propriedade numa colina, em Cornish, aldeia de New Hampshire. Na época em que se casou com a jovem Claire Douglas, dois anos mais tarde, levava uma existência austera na qual se dedicava exclusivamente a escrever, meditar e praticar ioga – uma vida, segundo Slawenski, “isenta de hipocrisias e materialismo” que Salinger “repudiara em seus escritos”.

Depois do nascimento de sua filha Margaret, em 1955, começou a se dedicar cada vez mais à escrita em um pequeno bunker. Depois de comprar uma fazenda vizinha em 1966, construiu uma casa para si em frente do bangalô da família. Claire pediu o divórcio em setembro daquele ano.

O último livro publicado de Salinger, Hapworth 16, 1924, recebeu uma crítica na imprensa em 16 de junho de 1965, e de 1970 em diante, diz Slawenski, o escritor “cuidou” de sufocar toda e qualquer revelação sobre sua vida particular. Na década de 80, “sua aversão crônica pela correspondência não solicitada passou do terror ao desprezo e medo”; com o tempo, “ignorou não apenas a correspondência de estranhos, mas também as cartas enviadas por familiares e amigos”.

O que provocou isso? Não há dúvida de que sua experiência na guerra influiu em seu crescente afastamento, assim como suas crenças religiosas. No fim de 1946, Salinger começou a estudar o budismo zen e o catolicismo místico e, na década de 50, havia abraçado os ensinamentos do místico indiano Sri Ramakrishna. “Desde a época em que concluiu O Apanhador no Campo de Centeio, aderiu à filosofia de que sua obra era o equivalente da meditação espiritual e que a fama, os fãs e a publicidade alimentavam o ego, mas não o espírito.”

A biografia também analisa a sua ficção. Slawenski não está preocupado em avaliar os dons de Salinger como escritor: seu ouvido sobrenatural pelo diálogo, sua paixão pela linguagem coloquial, sua capacidade de domesticar as inovações do fluxo de consciência dos grandes modernistas. Ele mapeia as conexões entre vida e arte do autor e os temas recorrentes em sua ficção, mais notavelmente o que Slawenski chama de sua “visão do mundo dividida entre o genuíno e o hipócrita”.

Na opinião do biógrafo, depois do Apanhador, Salinger dedicou-se a escrever obras de ficção “de profundo conteúdo religioso, tramas que expunham o vazio espiritual típico da sociedade americana”. E afirma que os contos de Nove Histórias narram uma jornada espiritual – desde o desespero de Um Dia Perfeito para o Peixe Banana (no qual Seymour Glass pega uma arma e atira na própria cabeça) à esperança da relação humana de Para Esmé – Com Amor e Sordidez.

Os leitores talvez não concordem com a leitura de Slawenski de determinadas histórias – sua afirmação, por exemplo, de que Teddy, uma enigmática obra que termina com o grito lancinante de uma criança, significa “o poder da fé pela união com Deus” é extremamente discutível – mas seus argumentos são na maior parte fruto de cuidadosa reflexão.

Quanto à explicação de Slawenski sobre a estranha vida de Salinger, ela é marcada por buracos e perguntas sem resposta, o que não deve surpreender, considerando a extrema reticência do seu personagem, sua mania pela privacidade e a dependência do biógrafo de fontes secundárias.

O biógrafo garante que Salinger “sofreu de depressão por muitos anos, talvez durante toda a vida, e às vezes tinha crises tão intensas que não conseguia se relacionar com os outros”, mas não investigou realmente fontes anteriores à guerra ou o motivo pelo qual o autor se voltou para a religião como uma maneira de superar seu sofrimento.

“Salinger extravasou sua depressão em todos os seus personagens, mas a alguns deles concedeu alguma esperança ou o “caminho para o bem-estar, frequentemente encontrado graças ao relacionamento humano”. Mas embora “o autor muitas vezes compartilhe a dor dos seus personagens, raramente ele consegue curá-la”.

/ TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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