Vassouras e Livros: algumas reflexões

Agora, prezados leitor e leitora, refletirei um pouco a partir de uma conversa que tive com Lidiane Pacheco, autora de “Vassouras também servem  para voar”, um livro de contos publicado pela CJA. Recomendo. Pois bem, ela está com um romance pronto – li e gostei bastante –  e livros infantis já na agulha para buscar editoração. Apesar de tudo isso, ela  anda  um tanto decepcionada com o mundo dos livros, não por eles, mas pela falta que sente de bons leitores. Como ela constata, muitas vezes, famílias inteiras são flagradas absortas em seus celulares. “E não estão lendo e-books” – arremata.  Não lhe tiro as razões. Então, seguem reflexões daí advindas.

Existe, mesmo, um descaso com a leitura em nosso país, que ainda carece de políticas que valorizem o livro e as bibliotecas. Apesar de tudo, vejo-me como um autor que se dedica à escrita endereçada a crianças e adolescentes  – ou mesmo para adultos – que conseguem, ainda, se encantar com os livros. Como escritores, precisamos buscar o melhor da nossa imaginação, trincar os dentes e arriscar. E que um dos pontos de partida seja o de a gente também  se encantar com o que escreve. Ora, se a minha escrita não me agrada, como agradará ao outro? Procuro me pautar por isso. E, assim, a gente escreve e reescreve, para extrair o melhor que possamos oferecer.

Como já afirmei, o que falta, ainda, são mais programas de incentivo à leitura. Faltam políticas públicas consistentes e perenes nessa área. Já tivemos um PNBE que foi desativado. Tivemos programas governamentais, que distribuíam livros, parados por vários anos.  Temos um PNLD que mistura livro didático com livro literário. E, agora, querem ditar regras sobre o que pode e o que não pode ser escrito. Buscam modelar o autor segundo interesses duvidosos de um país que, hoje, está  sem rumo e, até mesmo, em retrocesso.

Além dos programas distributivos, é necessário que os livros, em geral, sejam mais baratos para que se democratize o acesso a eles.  Tudo isso é preocupante, mas não podemos nos desanimar. É preciso que façamos sempre esse trabalho lento, de formiga, na direção de levar esse fardo pesado às costas. E temos ao nosso lado, felizmente, professores, professoras e mediadores e mediadoras de leitura que se desdobram no seu trabalho incansável de incentivar a leitura junto às crianças, desde a mais tenra idade. Isso nos alivia um pouco do desânimo e nos leva a perceber que nem tudo está  perdido.  O tempo nos ajudará a formar, mais e mais leitores.         

Brilho no olhar

A boa literatura sempre terá o seu lugar, pois obras de valor nunca serão esquecidas. Isso é o que buscamos. Escrever para o tempo de hoje com um olhar também no amanhã, pensando na construção de um legado literário para as gerações futuras. Assim, que sigamos avante, trazendo a nossa visão de mundo, a maneira como a nossa literatura consegue ler e/ou reinventar esse mundo.

Sinto-me gratificado ao chegar a uma escola e perceber o brilho no olhar de crianças, ainda pequenas, nos seus primeiros contatos com a literatura, a folhear um livro. Crianças que leem, não as letras, mas as imagens. E outras crianças que já leem e se divertem na reinvenção  de histórias e poemas. Encanto-me com o trabalho que professores, professoras, mediadores e mediadoras de leitura fazem em nossas escolas, país afora. Um trabalho de passar encantamento pela leitura literária. Formar leitores, talvez escritores e poetas. Refazer a ideia de que bibliotecas não são lugares de castigo, mas para o prazer da leitura, para a descoberta de livros, autores, histórias, poemas e para o brincar com as palavras.

Enfim, existe um mundo letrado que narra o mundo que nos cerca. Que nos faz perceber que a vida pode ser capturada num simples poema. Que uma historinha curta pode trazer lições de beleza e emoção que jamais serão esquecidas por uma criança. 

Da escola, lembro-me bem da hora da leitura oral. A nossa professora, dona Ester,  sempre escolhia algum texto que nos instigasse o interesse, sem preocupações com lições de moral. Era o momento de se passar a magia que a leitura significativa representa para uma criança. Nunca me esqueci de um texto do qual rimos bastante. A história do vaivém e seu clássico desfecho: “Se vaivém fosse e viesse, vaivém ia. Mas como vaivém vai e não vem, vaivém não vai.”  A história de um serrote que não foi emprestado.

Livro, uma caixa mágica de surpresa

Criança gosta de texto simples assim, inteligente, brincalhão, que fale às emoções dela, sejam de alegria ou de percepção de momentos tristes. Como a morte do “portuga”, em “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos. A cada texto, a sua própria emoção.

Como o poema do trem de ferro, de Manuel Bandeira. Feito as histórias divertidas de uma Sylvia Orthoff. O humor inteligente e refinado de José Paulo Paes, quando nos convida a brincar de poesia. O “maluquinho”  Ziraldo e o seu Pererê. Quintana e sua Lily aventureira. Cecília e sua poesia maravilhosa, que nos fala de olhares perdidos em espelhos,  ou isto ou aquilo.

A sensibilidade aguda de Bartolomeu Campos de Queirós que viu o mundo através de um olho de vidro do seu avô. Elias José, meu padrinho literário, ao abrir sua “caixa mágica de surpresas”. Manoel de Barros com suas memórias inventadas para crianças. Ângela Lago e o seu “abc doido”. O pai da nossa literatura infantil,  Lobato.

E contemporâneos vivos, feito Leo Cunha, Roseana Murray, Celso Sisto, André Neves, Roger Mello, uma Salizete Freire com seu jeito singular de ser, viver e escrever para  crianças, além de escritoras como Ana Cláudia Trigueiro, Araceli Sobreira, Tereza Custódio, Jania Souza, Drika Duarte e tantas outras e outros que nos fazem perceber a força, a graça e a beleza da boa literatura.

A força da literatura infantil brasileira

Felizmente, nosso país  tem uma das melhores literaturas do mundo destinada a crianças. Não é à toa que temos três homenageados com o Hans Christian Andersen, considerado um Nobel da literatura infantil: Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado e Roger Mello. E, nesse ano, Marina Colasanti e Nelson Cruz  foram indicados a esse prêmio. Que venham mais e mais autores e autoras com suas escritas maravilhosas, pois as crianças merecem o melhor que possamos lhes oferecer no mundo mágico dos livros. E os adultos também.

 Assim, apesar de todas as dificuldades e barreiras editoriais que ainda amargamos em nosso país, apesar de todas as desigualdades e injustiças, apesar da cegueira reinante, volvo os olhos com otimismo ao porvir. Há toda uma nação para se reconstruir. E a literatura tem um papel relevante diante disso. Então vislumbro, mais à frente, um país leitor. Trabalhemos para isso. Os frutos virão. Concorda, amiga  Lidiane Pacheco? Estou certo de que as suas “vassouras” ainda a levarão bem longe nesse voo mágico da literatura. E a sua contribuição não terá sido em vão.

Ilustração: Daniel Liévano

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. José de Castro 20 de dezembro de 2020 21:07

    Sempre uma alegria publicar aqui no Substantivo Plural… Viva a leitura literária… Viva o SP!!! Salve, amigo Conrado Carlos!

  2. Gilvânia Machado 20 de dezembro de 2020 21:06

    Excelente artigo. Apesar do retrocesso, devemos resistir!

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