O Vatenor da Cidade da Criança, dos cajus e da enxada

Cinco anos atrás escrevi matéria sobre Vatenor que dizia assim: “Vatenor é autenticidade pintada; é identidade paisagística própria, de um mundo criado e vivenciado. Se a arte imita a vida o inverso também vale. A Natal de cajus cromáticos, dunas e pomares à beira-mar é a vida da cidade e o inconsciente artístico do artista. É a representação máxima da obra de Vatenor em 35 anos de pincel e vida dedicada às aventuras plásticas visuais. Essa trajetória estará decodificada em exposição sob o título quase sinestésico de Luz – Cor – Cajus. São telas iniciadas em 1974, quando o fuzileiro naval carioca trocou o chumbo cinzento das pólvoras e armas pelas cores efervescentes do verão.”

Acostumado ao Vatenor dos pincéis, ontem o encontrei com enxada na não. Nosso artista dos cajus hoje comanda a Cidade da Criança. Ainda sem recursos humanos suficientes, Vatenor acumula serviços os mais simples, desde a jardinagem aos serviços elétricos e hidráulicos mais básicos. E ontem ele estava mesmo com enxada na mão. Ajudava jardineiros a cuidar de um pequeno gramado logo na entrada. Se confundia fácil com eles, até pelos trajes. É que a Cidade da Criança carece hoje de mais de 40 funcionários, para diversas funções. Talvez 90% dos equipamentos lindamente construídos, ainda estão fechados. Há licitações em curso para ocupar esses espaços. Eu mesmo vejo quase diariamente no Diário Oficial.

Por hora, funcionam ali o passeio de pedalinhos (também será licitado), a biblioteca Myrian Coeli (pela manhã), um parque com poucas opções de brinquedo, a Casa da Vovozinha (um espaço lúdico infantil) e um anfiteatro onde já houve boas apresentações. Ainda assim há sempre gente por lá, sobretudo para caminhadas e corridas. Tenho ido semanalmente e está muito bem cuidada. E sempre vejo Vatenor com a mão na massa. Se ele for exonerado pelo novo governo a Cidade da Criança sofrerá grande atraso. Vatenor já fala até em buscar recursos federais para manter o equipamento. Assim já é feito no Parque das Dunas e no Parque da Cidade. Vatenor tem visão sensível do artista e o empreendedorismo necessário para fomentar o espaço. E gosta de trabalhar!

Admiro o trabalho artístico e administrativo de Vatenor. Foi assim na Pinacoteca e no Museu Djalma Maranhão. Sem falar, claro, em telas construídas durante quatro décadas. Nessa trajetória, Vatenor enfrentou cruzadas de além-mar, passeou pelos cafés parisienses, cheirou o aroma da modernidade nova iorquina, viajou ao baixo Leblon carioca, sugou cenas, sentimentos e impressões artísticas das gerações de 70 e 80 até desaguar de vez no leito do Potengi em 1996. Desde então pintou cajus – nosso emblema maior. E vejam: já estamos no início da estação veraneio e os cajus já se assanham em vermelhos flamejantes nas dunas de cor marfim. E lá está Vatenor, de enxada na mão. É o seu trabalho de hoje. E é com essas cores que ele pinta o agora.

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