A velhice é para os heróis

Por Demétrio Diniz

Uma noite, no meio de uma conversa, o pai de súbito lhe pergunta:
– Está com quantos anos.
– Cinquenta – respondeu.
– Já viveu muito, concluiu o pai.

Estranhou no momento aquela conclusão. Sentia-se ainda jovem e distante muitos anos ainda de vir a perceber que o tempo passou, e que nenhum dia vivido retorna. A vida de Martim Ângelo, por essa época, se estendia num lençol de culpas. Lamentava-se pelo desperdício do prazer a que em várias ocasiões se esquivou. Voltava-se em círculos para o passado e neste se via a borrar com frequência o branco imaculado da vida, incapaz de se perdoar, mesmo sabendo que não existem vidas sem a sua quota-parte de porcaria.*

Era assim que se sentia ao retornar à sua cidade, dezessete anos depois de ter queimado na despedida os seus navios, como gostava de dizer. Patrícia, escritora e sua namorada, o traíra, e mais que isso, o mandara embora. Ângelo não suportou a dor de vê-la nos braços de um sargento de polícia, gordo e bigodudo como o sargento Garcia da lenda do Zorro, desmoronada sobre o militar como ele, Martim, nunca concebera possível. Não compreendia direito o destino das pessoas. A mulher que viajava com ele para cidades pequenas a fim de se inspirarem os dois com a estética e a inocência dos enterros de anjinhos, era a mesma que despudoradamente aplaudia aos gritos, de braços estendidos para o alto, o militar que passava marchando no desfile da Independência. Vá compreender as mulheres, martirizava-se.

Na manhã do regresso esperava ansioso encontrar o amigo e poeta Lizardo Florêncio. Na praça do centro da cidade, ele e Lizardo antigamente conversavam todas as manhãs. Martim sentou-se no banco em que costumavam se encontrar e esperou pelo amigo. Lembrou-se de Mocidade e Caixa D’Água. Gazeava as aulas da faculdade para ouvir Mocidade. Ao término do discurso, dirigia-se ao orador e se queixava:
— Nenhuma vez você me viu, Mocidade, eu aqui em pé, emocionado com suas palavras.
—Não pude, meu filho, a multidão era enorme.

Somente ele e Mocidade ocupavam a praça. Martim simpatizava com aquele personagem insano e o respeitava, porque sabia que muitos reis e tiranos, ao caírem, falavam solitariamente como Mocidade. Essa preferência por personagens enlouquecidos era parte de Martim Ângelo, e vez ou outra ele se questionava sobre o momento em que a pessoa se socorria da imaginação para, de pulo em pulo, saltar de vez da realidade.

Tinha também apreço por Caixa D’Agua, um libertário fantasioso. Andando com uma maleta à mão, Caixa vociferava contra os poderosos e cotidianamente anunciava uma insurreição popular. Gostava também de frequentar os cabarés e ali discursava em cima das mesas. As raparigas não entendiam nada do que dizia, mas o ovacionavam por brindá-las com discursos e também pelos arroubos vocais do orador. Caixa alteava a voz até o máximo (dizia-se que o eco de sua voz fazia as telhas vibrarem), para logo em seguida reduzi-la ao mínimo, fazendo a peroração em sussurros. Na hora dos discursos, sempre ao meio-dia, até que ele descesse da mesa nenhuma das mulheres aceitava cliente. Caixa D’Água recebia uma pequena pensão do governo e jurava que a ele não fariam como fizeram ao poeta Augusto dos Anjos, a quem negaram pão e água. Achando-se injustiçado, ameaçava incendiar o palácio do governo se não lhe aumentassem os parcos rendimentos. Uma noite reuniu um exército imaginário de insurretos, e o povo ouviu altear-se no palácio, entre as chamas, o grito feroz de morra lá dentro o tirano. Martim já soubera da morte dos dois amigos, e que Caixa D’Água se imortalizara em estátua, embora um braço descesse desconforme do outro, porque alguém, por brincadeira ou excentricidade, lhe roubou a maleta. Caixa tocava a posteridade troncho como em vida.
Já o sol ia forte e Martim esperava que o velho amigo, para quem anteriormente lia sua literatura mal arrumada, aparecesse para o reencontro. Sabia da poesia criptográfica de Lizardo, e que apesar da amizade íntima dos dois jamais entendeu qualquer um de seus versos. Cidade Fechada, o único livro de Florêncio, era como a paliçada de um forte que não permitia ver sequer a sentinela. Pessoalmente, Lizardo era afável, sorridente, mas sua poesia revelava dele cavernas impenetráveis. Enquanto remoía tais lembranças, Martim percebeu a poucos metros de distância uma estátua da cor de cobre e pressentiu que algum dia conhecera aquele homem. Chorou em seguida ao ter a certeza de que o monumento era uma homenagem póstuma ao poeta Lizardo Florêncio. O tempo impingira a ele, Martim, uma de suas faces mais cruéis, qual a de passar entre névoas, despercebido. Naquele instante viu que andara muito e, no entanto, era como se não tivesse saído do lugar. Somente então compreendeu que o tempo caminha em linhas curvas, como afirmou Einstein. Recitou para si os versos de Adélia Prado, escritos ao descobrir a poeta, diante do espelho, a perda da juventude: e chorei, chorei, chorei.
Martim Ângelo não se recordava se fora um sonho, ou se fora efeito do álcool, ou se de fato o encontro aconteceu. Uma dúvida que persistiu sem solução pelo resto da vida. Estava num bairro à beira do porto, com muitos pássaros e barcos, um deles inclusive hasteava a bandeira negra dos piratas. Havia uma roda-gigante iluminada, muitos bares, e de tempo em tempo ouvia-se o bramido dos navios. Ele havia bebido e retornava para o hotel. À meia-noite, numa das ruas solitárias do bairro, apareceu-lhe do nada uma mulher vestida de branco, aparentando uns quarenta anos e com um brilho especial no olhar. Pôs-se à sua frente e disse:

—Sou uma vidente, adivinho as tragédias e alegrias que hão de acontecer entre o nascimento e a morte. Que queres saber?
— O que me resta — respondeu Martim.
— Ficarás livre de ti, afinal.

Martim a princípio não entendeu a resposta nem se impactou com o aparecimento repentino daquela mulher de uma beleza extraordinária, com uma luz brilhante a irradiar dos olhos, que só os loucos ou profetas possuem.

Desorientado mais pela bebida que pela anunciação, viu-se perdido. Estava sem dinheiro e resolveu dormir no banco de um parque florestal, que localizou a poucos passos. Na manhã seguinte acordou entre pombos, esquilos e alguns corvos que crocitavam catando sementes entre as folhas coloridas do outono. Dizia-se destes últimos que eram aves de mau augúrio e simbolizavam a solidão e a morte. Contudo, nos vários sítios por onde passou viu que eram eles que davam vida e complementavam a beleza dos milharais.

Veio-lhe à mente o vaticínio feito pela mulher na noite anterior. Ficarás livre de ti, afinal — repetiu a frase. A vida inteira lhe impuseram obrigações, cobranças, reprimendas e castigos. O pai insistia na expectativa de querer vê-lo juiz, empurrando-o para uma sobriedade e sisudez que certamente lhe teriam trazido uma morte precoce. Martim recordou as vezes em que se punia por não ter correspondido à expectativa do pai. E também de momentos de sua vida em que precisou elaborar sonhos que no fim das contas o levaram mais ao sofrimento que à felicidade, porque achou que eram sonhos o que não passava de fugas de um cotidiano desinfeliz.

Entendeu àquela altura de sua vida que lhe chegara a última oportunidade de ser livre. À puta que pariu fosse o mundo com suas argolas de ferro. Toda argola que prende, seja de que metal for, possui uma chave para abri-la, isso ele soube a partir do momento em que viu num museu da escravidão as argolas e as chaves correspondentes. Encontraria decerto a sua chave. Prometeu a si mesmo despedir-se dos velhos padrões, como quem atira no lixo a maleta surrada que teve de carregar, levando desnecessários e muitas vezes atordoantes pesos. Dali por diante não haveria mais nada de importante a seguir. Nem ideologias ou sonhos que findavam ambos escorrendo pelos dedos como água. Tampouco viveria de justificativas e satisfações. Nem corresponderia a qualquer expectativa.

Martim Ângelo tinha setenta anos quando se dirigiu a uma árvore, cortou um galho, lavrou-o com um canivete — deixando-o em listras —, e imaginariamente pôs-lhe arreios. Como fazia quando criança, naquele amanhecer de Suceava, lá longe na Bucovina, de novo montou num cavalo de faz de conta.

Sabia que poderia terminar como Mocidade ou Caixa D’Água. Ou como um personagem que fixara desde a infância. Apresentava-se como professor de Geografia, munido de mapas e instrumentos de medição, requerendo nas cidades, de escola em escola, um horário vago para falar sobre os acidentes geográficos do país. As salas, lotadas pela curiosidade dos alunos, logo se esvaziavam ao ouvirem aquele homem estranho pronunciar frases tão incompreensíveis que só poderia ter vindo de terras estrangeiras. A vida implica em riscos, Martim Ângelo estava claro quanto a isso. Chamou por Relâmpago, como era o antigo nome do seu corcel, e saiu a galopar em volta da praça, dando início à sua cavalgada em direção à leveza.

 

*Rosa Montero, A ridícula ideia de não voltar a ver-te.

Contista e poeta. Autor, entre outros, dos livros de poesia “Haveres”, “Ferrovia”, “Beleza Distante”, e de contos “Sob o Céu de Natal”, “Idas e Vindas de São Serapião”, “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”. [ Ver todos os artigos ]

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP