Velho Chico

Por Napoleão de Paiva Sousa

Não sei se vocês viram algum capítulo ou se estão acompanhando a saga do ‘Velho Chico’.
Pois ela me pegou desde as primeiras cenas.
O universo ali retratado carrego dentro de mim, nada sobra, nada me é estranho. Antes, traz uma intimidade tão vivaque não é possível não sentiro seu calor ou, em alguma ou outra tomada, sentir nas mãos um fio de meada que sinceramente nem mais suspeitava conhecer, e muito menos, ter vivido. Uma roda de memória e sentimentos movendo-se.
Os personagens, suas histórias, sua cultura e do que é capaz, suas permissões – algumas absurdas -, e a linguagem rica e saborosa.

E essa infeliz, o que está fazendo aqui? Grita de um canto da sala a enfezada Dona Encarnação, com a soberba da ‘casa grande’, o mando desmedido, incontestável, a humilhar quem não lhe preenche o gosto, a expectativa.
De repente me vem ‘ô infeliz das costas oca’, ouvida por toda a infância. Ou a reprimenda tão comum:Seu infeliz!

Afrânio chegando para o enterro do pai, o Coronel Jacinto Sá Ribeiro, vindo da capital, dos seus estudos e boemias, cabelo grande, o Karman Guia conversível, as pessoas cobrando-lhe a sucessão, a sustentação da bandeira, o patriarcado,o poder tem que continuar, e ele naquele ninho – mexendo-se – como o mais desapontado dos estranhos.
Estive num cenário bem parecido, uma quase reprise, quando do falecimento de meu pai, a ouvir repetidospedidos econvocações de amigos (e nem tanto…) para prosseguir a sua luta política de mais de meio séculoininterrupto.

O Velho Chico traz o sertão do bacamarte, da emboscada, das soluções vindas do poder do mais forte, à margem da lei. Se hoje ainda engatinhamos nesse capítulo, no que pese o cipoal de leis, de tribunais e instâncias jurídicas, é de se imaginar o Brasil dos grotões e dos pés de serra nos anos 30/40/50.
Talvez sob essa perspectiva o diretor locou algumas cenas no ‘Raso da Catarina’, a bela e estranha paisagem do interior baiano onde Virgulino Ferreira o Lampião por lá viveu e por ali se escondeu – longe do rugido dotigre de papel da justiça.
Trouxe-nos o local de fuga e descanso do bandoleiro, e a inspiração que até hoje exerce sobre a cultura da região e do País. Quem sabe, para que cada um tente separar o que é passado do que é presente, ou que, apesar de mudados armas e métodos, constate que no fundo muita coisa continua abraçada na mesma móia.

E as águas do velho Chico, que deslumbramento! Que paisagens! Seus barcos e carrancas para afastar o mau olhado, o povo ribeirinho, suas crenças, danças, suas rodas de São Gonçalo– a partir da ótica de sonhos do genial diretor Luiz Fernando Carvalho.
Diante de tanta beleza não há como não se perguntar: essas águas um dia chegarão aqui? Servirão para mudar tanta coisa nesse semiárido sem remédio? Ou continuarão apenas a alimentar cascatas de mentiras, incensar engodo de demagogos, distribuir propinas da sem-vergonhiceentre malversadores?

As cenas que tanto se repetem e que mais me doem são as dos campos de algodão. Que nostalgia.
Olha, eles ainda existem! Como são lindos e imensos. Que brancura. Olha os seus capuchos voando. Fui criado num mundo onde o algodão era o centro de tudo. O centro do mundo, nosso mundo.Quanto pesou sua safra, compadre? A Usina de Tertuliano Fernandes e a de Alfredo Fernandes estão pagando quanto a arroba?Qual o melhor preço? Não havia outro assunto.
Hoje não temos algodão que dê pra tapar o ouvido de um menino com dor de ouvido, ou as narinas do sertanejo que acabou de morrer.
O algodão está só na novela. Vem-me como um sonho de novela.
Conversando com um e outro descubro,surpreso,que os lindos campos que me deslumbram estão ali no município de Baraúnas, pertinho de Mossoró. Iniciativa isolada de alguém ou de alguma empresa.
A principal atividade econômica do sertão de dentro foi totalmente esquecida pelo poder publico. Por que não foi retomada? A praga seria controlada em 20 anos. Lá se vão 33. E nada.
Nenhum deputado ou senador ou governador ou prefeito.
Correram todos da responsabilidade. Incapazes crônicos.Correram com medo do bicudo? Ou de quem?
O Velho Chico me traz de volta a paisagem que não tinha mais esperança de ver de novo, ou que às vezes nem mesmo me lembrava de ter visto um dia.
As águas do Velho Chico felizmente chegaram.

Médico, poeta, contista e compositor. [ Ver todos os artigos ]

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