Velho comuna

Eu sou um velho comunista perdido e encontrado no sossego dessas grotas, cuja distância é mais o azul do que a lonjura. Até porque o azul é mais distância do que cor. Eu sou um falso poeta, cujos versos expõem a fraqueza do talento. Sou também um prosador precário, que não consegue morder nem ingressar nos ouvidos disponíveis. Eu consigo mentir em literatura, onde gasto todas as mentiras, sem deixar estoque para mentir na vida. A verdade na vida não é bondade, é esperteza. Pois na vida, ser verdadeiro é a melhor malandragem. Não brigo com a natureza nem remo contra os desejos. Convivi com todas as tentações e não as enfrentei. Satisfi-las. E elas foram dominadoras dos meus pecados. Dos quais não peço perdão a ninguém. A nenhum Deus. E se Deus há, eu terei a desculpa de não acredit ar nele. E na hora do julgamento direi cinicamente: ”Mas eu nem sabia que o senhor existia”! E como todos os covardes, negarei que o negaria. Sou o quê? Nada! Mesmo assim navego de vela panda no riacho de mim.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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