Vem!

Por Ednar Andrade

“Os namorados”, de Cristina Kolikoviski

Vem viver comigo um grande amor… Um destes que vira papo nos botecos, Na boca dos desocupados… Dos invejosos, Dos mal-amados, vem vamos causar libido A quem já não tem, aguçar a malícia mundo afora. Vem, vem logo, sem demora.

Meu sangue, carne, corpo, tudo… Implora. Vem beijar minha boca agora! Vem tocar meu corpo como se fosse teu violino, Vem tirar dele notas que escuto sorrindo E não te importes e não me importarei, Com o que dirão de nós ou do nosso amor… Vem amado, vamos viver Um amor tão grande e conturbado Que deixa o mundo abalado E desperte a morte dos que vivem sem ser amados. Vem, vem criar falácias, zombarias, Conversas para os que não têm inspiração de amar, Para os que, covardes, não têm coragem de amar, Vem, deitemos, rolemos, deliremos, Partamos velozes nas asas do desejo, Vem, vamos apagar ardendo em fogo Esta saudade que nos une. Vem, vamos, vamos a algum lugar, Vamos fugir de tudo e de todos, Vamos acordar no nosso sonho, Vamos despertar à luz do Sol, Cansados da ânsia que nos consome, Vem, não me deixe aflita, Escuta este sentimento que grita E te chama, vamos viver um amor… Um amor imenso que não caiba Em nenhum lugar, além de nós. Um amor sem medida, sem hora, Sem virtudes, errante, errado, Não importa em que adjetivo for classificado. Vem, e numa praia bem distante, deitemo-nos Num lençol de areia morna que nos espera, Onde ali, rolaremos nus… Até o mar… Para, num mergulho, banhar a alma e salgar o sexo, Temperado com gosto de mar, Vamos sorver com delícia O sabor deste prazer tão raro. Vem, que esta vida é uma quimera. Vem, vamos escandalizar a carne, os olhos De quem nos vir passar, Vamos sair de mãos dadas, livres… Parando nas calçadas, dizendo versos, cantando, Brincando com as palavras, como crianças Comendo os doces carinhos que saem de nossas mãos. Vem, por que nesta tarde, meu coração espera Que a noite caia mansa derramando esta canção. Vem, por favor, vamos olhar na face da verdade, Dizer para qualquer um que passar por nós Que este amor existe, com tanta verdade Que, dentro de nós, já não cabe.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Danclads Lins de Andrade 16 de Maio de 2010 19:11

    Belíssimo texto da poetisa Ednar Andrade que, mais uma vez, capta como ninguém e com a sutileza que lhe é peculiar, os melindres, as teias do amor, demonstrando que é urgente amar. Afinal, como ela própria citou: “Não importa em que adjetivo for classificado” é imprescindível viver um grande amor.

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