Vento de agosto

Por Pablo Capistrano
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Primeiro foi um editorial de O Globo fazendo uma defesa da governabilidade. Depois veio a Folha e o The New York Times. Concomitante a isso surgiu uma Agenda Brasil, fruto de uma reunião que envolveu gente como Temer, Levy e Renan Calheiros. Agora, depois que as ruas de Agosto mostraram a que vieram (um resíduo inexpressivo se comprado as grandes manifestações de massa de 2013), a denuncia de Janot contra Eduardo Cunha tece um cenário que parece indicar uma coisa: “Não vai ter golpe, vai ter acordo”.

Quando os porta vozes dos mercados afirmam pelos seus canais oficiais de informação que é imperativo melhorar o “ambiente de negócios” apontam que não é interessante para o grande Capital que o país caia em uma zona de instabilidade política alongada que aprofunde a crise econômica (para petofilos uma invenção do PIG, para petófobos uma desgraça de proporções apocalípticas).

A questão que o vento de Agosto põe, e que nós, meros mortais transeuntes dessas ruas brasileiras, abertas longe demais de Brasília e da Avenida Paulista; não temos ainda como responder é: pra onde esse acordão nos levaria?

Das três saídas que se descortinam possíveis (manutenção do governo até o calendário eleitoral; renuncia ou Impeachemant) a terceira, sem sombra de dúvidas é a pior.

Já ouvi alguns cientistas políticos apontando para a inevitabilidade de um Impeachemant apelando para um argumento indutivo do tipo “sempre que ocorrem quatro condições (denuncia de corrupção, perda de controle do congresso, crise econômica e povo na rua) ocorre um Impeachemant, e o resultado é bom, então, deve ocorrer um Impeachemant agora porque o resultado vai ser bom”.

Uma falácia desse tipo, que parte de um argumento indutivo de causalidade e chega numa conclusão moral “Deve haver Impeachemant”, desconsidera alguns pontos fundamentais no cenário atual.

Apesar da decepção de muitas pessoas que votaram em Dilma no segundo turno (eu por exemplo) com a guinada monetarista do governo e com os rumos do ajuste fiscal petista (sim, não vamos nos esquecer, o PT ainda responde pela presidência da República) não parece ter havido um desmantelamento da polarização construída na última eleição. Ao contrário do aconteceu com Collor, um aventureiro sem partido construído pelas organizações Globo para barrar o avanço de Brizola no primeiro turno da eleição de 1989 (e o de Lula no segundo); Dilma, que até o momento que escrevo esse artigo não tem contra si nenhuma denuncia formal de improbidade, ainda tem um partido e uma militância apaixonada.

Tira-la através de um Ipeachemant não seria uma festa cívica de unificação nacional como querem pensar alguns. Não há consenso nem mesmo na oposição sobre a viabilidade de um Impeachemant (a julgar pela declaração de FHC em nome do tucanismo paulista na última semana apelando para renuncia).

Por isso que não acredito que o acordão de Agosto se desenhe na direção de uma medida desse tipo, a não ser que, quando entrar Setembro e a boa nova andar nos campos, um novo cenário se descortine e mude os cálculos estratégicos dos agentes políticos que jogam o jogo dos tronos nas alturas celestiais daquela ilha da fantasia; construída por Juscelino Kubitschek no planalto central brasileiro.

Talvez por isso a voz rouca das ruas de Agosto tenha sido tão rouca e tão sussurrante (a despeito do esforço das duas torcidas organizadas da política nacional em potencializar seus efeitos nas redes sociais). Uma parte substancial da população está desconfiada e cansada de uma dicotomia que se auto aliena em seus próprios projetos de poder e que nunca conseguiu traduzir a náusea difusa que as ruas expressaram em 2013. A janela de oportunidade de transformações sociais e políticas profundas, aberta em 2002 com a eleição de Lula; fechou-se em 2013 com bala de borracha; gás lacrimogênio e prisões políticas. O que esse nosso Agosto mostrou, por mais que a militância virtual tente vender a ideia contrária, é que essa janela não voltará a se abrir tão cedo.

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