Verdes vales sentimentais


Livro resgata história sentimental de Ceará-Mirim a partir dos escritos do intelectual Nilo Pereira

Imagens sentimentais foram recortadas do esquecimento memorialístico da província, enriquecida por tantos lançamentos literários, para retomarem as páginas de um novo livro pouco divulgado. Sãos quadros dos verdes canaviais do vale cearamirinense, pintados pelos sentimentos provincianos de Nilo Pereira e recontados pela historiadora Helicarla Morais. O título da obra retrata momentos diferentes da vida do intelectual que trocou Ceará-Mirim para cursar Direito na prestigiada faculdade de Recife, formar família e se iniciar na vida pública: Três Rios Dentro de Um Homem: Nilo Pereira em imagens do Ceará-Mirim, 1920-1960.

Nilo pereira viajou e levou consigo a saudade do Engenho Verde Nasce, da sociedade canavieira e da natureza ainda superior ao homem. De intelecto amadurecido, o filho ilustre de Ceará-Mirim e um dos mais destacados personagens da genealogia da família Barroca – tradicional no município – escreve e descreve a sua terra – uma verdadeira “história dos sentimentos”. Ceará-Mirim renasce pelo esforço memorialístico a partir de um afastamento espacial e temporal do autor. “O vale e a cidade, paradoxalmente, ganham vida quando a morte estende a sombra sobre o vale”, escreveu o historiador e professor da UFRN, Raimundo Arrais na apresentação do livro.

É o que Nilo Pereira chamou de “espírito de província”. Para detalhar esta riqueza sentimental e as motivações a partir das condições históricas e culturais da época, Helicarla Morais mergulhou na história de Nilo Pereira e viajou ao passado para entender a vida na Casa Grande, as provocações intelectuais do período e aquele ponto esverdeado do Nordeste açucareiro chamado Ceará-Mirim. O deslumbre inicial partiu do texto Mucuripe: mundo encantado do Ceará-Mirim (até pouco tempo, o único engenho em atividade no município), escrito pela autora. “A pesquisa para o texto me levou ao primeiro contato do livro Imagens do Ceará-Mirim, de Nilo Pereira”, disse.

O livro constrói uma história de Ceará-Mirim a partir da narrativa das memórias da infância e adolescência do autor. O período é compreendido entre 1910 a 1960. Nesse intervalo, a autora estudou o contexto da sociedade açucareira nordestina a partir do macro para chegar ao foco. Helicarla Morais chama atenção para a necessidade da “problematização da memória” ou da “memória social”. A autora enaltece a produção historiográfica, enfatizando o uso de relatos orais e de memórias como fontes históricas em detrimento à cultura “fast food”, de informações facilmente digeridas sem avaliação prévia ou posterior. “Essa cultura, que é a do imediatismo, é responsável pelo processo de produção artificial da memória”, escreveu Helicarla.

O trabalho está dividido em três capítulos – os três rios que habitam Nilo Pereira –: O Vale, o açúcar e a técnica (uma reconstituição da trajetória do açúcar no vale do Ceará-Mirim); Tradição, saudade e modernidade (as influências que atuaram sobre o intelectual que dão forma ao livro estudado); e O vale da memória (a autora busca compreender qual o lugar da natureza narrativa de Nilo Pereira e sua relação com a cidade). Como escreve a autora: Nilo Pereira é homem habitado por mundos diferentes: “Um homem que se diz atravessado por rios está dizendo que se divide entre várias realidades: a do mundo interior, o Vale, o rio das origens; e o do mundo exterior que despertou a memória, que moldou o espírito, o Recife”.

Museu Nilo Pereiro segue abandonado
Nilo de Oliveira Pereira é nascido na Casa Grande do Engenho Verde Nasce em 1909 e criado na mansão do Guaporé, hoje Museu Nilo Pereira – tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual (Portaria nº 522/88). O Museu foi pauta para várias matérias deste Diário de Natal pelo abandono e estado precário em que se encontra. Há décadas carece de reforma e uso. O mobiliário antigo, peças de arte e relíquias da sociedade açucareira foram saqueados. A única família moradora do local foi expulsa e hoje o local é abrigo para consumo de drogas, atos libidinosos, morcegos e traças. O matagal encobre parte da fachada imponente, ainda cercada por palmeiras imperiais.

Um impasse pela custódia do Museu entre prefeitura de Ceará-Mirim e Governo do Estado tem adiado a reforma do prédio. A pendenga dura anos. Em 20 de julho de 2006, o Diário Oficial de Justiça publicou termo de ajustamento de conduta pelo Ministério Público Estadual com a Fundação José Augusto, a Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim, a UFRN, e o município de Ceará-Mirim.

No Termo, a FJA estaria compromissada a no prazo máximo de 30 dias elaborar um inventário detalhado das peças restantes do Museu, e a iniciar trabalho de restauração do prédio e abrir para visitação pública do Museu com a exposição de pelo menos, 60% do seu acervo mobiliário até o fim daquele ano de 2006 e a restauração de todo o acervo mobiliário até 18 de março de 2007.

A Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim ficou responsável por ceder, em regime de comodato e por prazo indeterminado, a posse da Casa Engenho Guaporé à FJA. A UFRN ficou compromissada em disponibilizar alunos monitores de graduação em história para acompanhar a restauração do imóvel e do acervo do museu. Ao município foi designado a vigilância efetiva no local, limpeza do prédio e do terreno ao redor.

O descumprimento dos prazos e das obrigações constantes nas cláusulas do Termo implicaria multa no valor de R$ 300 por dia, a qual reverterá para o Fundo de que cuida o artigo 13 da Lei Federal nº 7.347/85, ou, ainda, outro Fundo Estadual ou Municipal criado para esse fim. O não pagamento das multas acima referidas autoriza sua cobrança pelo Ministério Público ou pela Fazenda Pública, com correção monetária, juros de 1% ao mês e multa de 10% sobre o montante devido.

Nada foi cumprido e nenhuma multa foi imposta. O Museu continua abandonado e entregue aos efeitos do tempo e do esquecimento memorialístico da província, longe da “história sentimental” de Nilo Pereira.

* Matéria publicada domingo no Diário de Natal

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