Verônica decide viver

“É difícil, a sociedade não entende, não quer entender. Não deixa eu ser o que eu quero ser”. “Eu vim pra rua por negar o que a sociedade queria impor”. “Toda vida que eu ouço meu nome biológico é como se eu tivesse levando um monte de facada”. “Eu roubava para não me prostituir”. “Fui queimada com álcool e querosene”.

São relatos chocantes. Realidades que nem sempre batem à porta do nosso apartamento de varanda. Estão presos ao noticiário de violência quase ficcional. Esses personagens do filme das esquinas suburbanas foram protagonistas da exposição fotográfica ‘Vi. Elas’, promovida pelo coletivo CôRis. A vernissage aconteceu quarta-feira no Bardallos Comida e Arte.

Exposição 'Vi. Elas', no Bardallos até 6 de abril  Foto: Wallace Yuri
Exposição ‘Vi. Elas’, no Bardallos até 6 de abril
Foto: Wallace Yuri
Cinco mulheres foram fotografadas. Todas frequentadoras do albergue mantido pela prefeitura. Relatos de suas vidas também estamparam as paredes do Bardallos. Verônica (foto reproduzida da exposição) era uma delas. Estava acompanhada do marido, Junior, 33, “um bom trabalhador” que ao contrário dos outros, não bate nela. Se conheceram no albergue há quatro meses.

Verônica é mãe de três meninas, mas nenhuma com Junior. A filha de 10 anos ela “deu”. As outras duas já são mães. Verônica é avó com 31 anos. E os acontecimentos precoces parecem sina dos moradores de rua. São mães muito jovens. Aprendem as misérias da vida na infância. E o lado mais sombrio do ser humano na adolescência, quando muito.

Foi assim com os ex-maridos. Todos “coroas”. Sentia que estava mais protegida com alguém de mais idade. Mas o ex até “me botava com todo tipo de homem” e “dava bofete quase todo dia”. Era viciado em droga. Verônica chegou a tomar injeção contra HIV, e recebeu a cura há quatro meses quando encontrou Júnior.

Junior e Verônica, durante a exposição Vi. Elas
Junior e Verônica, durante a exposição Vi. Elas
Conversei com os dois sentado à mesa, no Bardallos. Verônica, além de mais tímida, também tinha extraído dente e tinha dificuldade para falar. Júnior, mais desinibido, foi quem respondeu a maioria das perguntas. Ambos foram liberados pelo Albergue, assim como outros albergados presentes à exposição.

Junior é órfão. O pai morreu de cirrose, e a mãe, poucos anos depois, de acidente de carro. Tinha 19 anos. Foi quando largou Baixa Verde, depois de Taipu para conhecer Natal. Dormiu na Catedral, Ribeira e “do outro lado do Rio”. Conviveu com marginais de toda sorte. Nunca se envolveu, diz ele. Procurava emprego, mas só encontrava preconceito.

“Matamos um leão por dia. Tentamos vida melhor, mas quando pedimos serviço exigem até comprovante de residência. Quando falamos que moramos no albergue, pensam que é uma prisão para marginais. O povo tem essa visão que morador de rua é tudo vagabundo, sujo. Eles mesmos provocam a gente a ser, mas não desisto”.

Júnior ganha 20 reais ao dia como vendedor ambulante de jogos de cozinha e banheiro. Trabalha há dois meses, de segunda a sábado. Batalha para morar com Verônica, ter um lar. “Mas o aluguel mais barato que achei era 220 reais. Não dá. E o albergue oferece boas condições para quem cumpre as normas de lá. Pena alguns não zelarem pelo lugar”.

O ALBERGUE
A Unidade de Acolhimento, conhecida como Albergue Municipal acolhe hoje 58 moradores de rua. A desproporção de gênero chama atenção: são 50 homens e apenas 8 mulheres. Nem Verônica nem Junior souberam explicar o porquê. Não há notícias de assédio sexual. Apesar das normas e rigidez de disciplina, há furtos, algumas brigas e poucas fatalidades.

Junior assistiu duas mortes por lá em quatro meses. “Foram amigos nossos. Esse último foi de facadas na frente do albergue (sede na Princesa Isabel, Centro da Cidade). Até motivou um abaixo-assinado de moradores do bairro para tirar o serviço de lá. Dizem que só abriga gente ruim, mas não pode prejudicar quem não é”.

Atenção total durante sessão do projeto Cine Rua, promovido pelo Coletivo Côris no Albergue Municipal Foto: Wallace Yuri
Atenção total durante sessão do projeto Cine Rua, promovido pelo Coletivo Côris no Albergue Municipal
Foto: Wallace Yuri
O Albergue funciona neste endereço desde 2013. O único critério de abrigo é ter entre 18 e 60 anos e algum documento de identidade, além da vaga disponível. A vaga de Junior demorou um mês. Se o frequentador some por mais de dois dias seu nome é retirado da lista de frequência e o primeiro morador de rua da fila assume o lugar.

“Você vai lá todo dia atrás da vaga. Depois de três dias consecutivos, seu nome entra na lista de espera até um desistir ou sumir. Aí entramos, recebemos as orientações e normas da casa. A chamada acontece às 19h. Deixamos nossas coisas no guarda-volume, recebemos material de higiene, tomamos banho e esperamos a janta. Depois, se quiser, assiste TV até 22h no refeitório mesmo. Todo dia recebemos lençol, toalha limpa, cama fresquinha, tem ventilador. Tomamos café às 5h e vamos embora, retornando no mesmo horário às 19h. Tem onde beber água gelada, onde lavar roupa. Só não pode estender porque lá ninguém se responsabiliza pelo roubo (Junior dorme com seu celular na cueca porque, segundo ele, já roubaram três celulares nesses quatro meses)”.

O CENTRO POP
Se Junior passa o dia no “bico”, Verônica, ainda desempregada, frequenta o Centro Pop (Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua). O Centro promove ações para pessoas que vivem em situação de rua, nas áreas de educação, trabalho, saúde e resgate dos vínculos familiares.

Este último vem a calhar para Verônica. Seu pai sofre de problemas mentais e está desaparecido há três semanas. Junior tem pregado cartazes com o contato e foto do sogro pela cidade (este blogueiro se ressente pelo esquecimento de reproduzir a imagem no celular e postar aqui). A mãe mora em Mãe Luíza e sofre com problemas de alcoolismo.

Perguntada sobre o porquê ter aceitado ser fotografada para exposição, Verônica titubeia em falar e Junior toma a vez: “Pra que a história dela seja contada, vista. A gente vive invisível ou quando é notado é como coisa ruim”. E para reverter essa óptica, entra o Coletivo de Olho na Rua: Interagindo Saberes (CôRis).

O CÔRIS
Em determinado momento da conversa com Verônica e Junior, Bryan, do Coletivo, pergunta se ambos queriam algo mais. Tinham servido coca-cola e um prato de batatinhas fritas com molho rosê para eles. Pediram mais um. “Come aí, rapaz, vai ficar só olhando a gente comer?”, até falou Junior a este blogueiro – solidariedade que aprendeu nas ruas.

Bryan senta à mesa com a gente e pergunto sobre os motivos do Coletivo focar pessoas em situação de rua. Um trabalho com pouco mais de um ano e promoção de atividades sócioculturais particularmente junto aos albergados. O CôRis promove sessão de cinema mensal e rodas semanais de capoeira.

Pessoal do CôRis junto aos albergados presentes à Exposição
Pessoal do CôRis junto aos albergados presentes à Exposição
“Queremos dar visibilidade no intuito de gerar políticas públicas e sensibilidade da sociedade. O morador de rua se veste de muitos estereótipos: vagabundo, sujo, drogado (Junior completa: “ladrão”). Gente vista como lixo e na verdade tem vida. Queremos uma ressignificação do espaço da rua como espaço sociocultural”.

Bryan confessou que este ano o projeto desencantou de verdade. Ou seja: os resultados ficaram mais latentes. Mais participação dos albergados e evolução perceptível no comportamento social deles. “Alguns se engajaram mais na capoeira. Um deles até parou de cheirar cola. Lá fora, agora mesmo, o assunto é a capoeira!”.

Nas sessões do Cine Rua, com curtasmetragens locais ou nacionais, há também maior atenção. O CôRis costuma convidar o autor do curta ou algum profissional ligado à temática do filme para conversar com os albergados. “Certa vez nos chocamos com o silêncio até então inédito deles. Durou uns 13 segundos de atenção total, mas foi algo tão estrondoso para nós; realmente vimos ali uma mudança em curso. Foi um silêncio que nos disse muito”.

A exposição ‘Vi. Elas’ permanece até 6 de abril no Bardallos (Rua Vigário Bartolomeu, Centro Histórico)!

Fan Page do CôRis: AQUI

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP