Da força da grana: um verso grafitado na parede

Idos da virada das décadas de 70 para 80 do século passado (céus, que coisa vetusta!), com certa frequência eu visitava amigos em São Paulo, acorrendo da minha provinciana Porto Alegre de então, onde nasci e ainda morava, para a desenfreada Paulicéia Desvairada.

Às vezes, andava com o pescoço torcido olhando para cima, como certa feita, quando quase fui colhido por um carro ao atravessar distraidamente uma transversal da Av. Paulista, espantado com a altura de um prédio.

Ainda sob certos ares de receio do tempo das nuvens de chumbo, já havia na seara cultural certo afrouxamento dos atos censórios, e assim, muitas peças de teatro eclodiam nas inúmeras salas que a metrópole abrigava. E ia eu atrás de atualização.

E eu tentava sorver cultura, multiplicidade, um bocado de birita, também, além de rolos e rolos de fumaça. A de óleo diesel dos milhares de escapamentos ruidosos e a que eu mesmo era capaz de produzir.

Leia artigo “Kendo Deuxglik e a arte do grafite francês em Natal”

Recordo de uma vez em que cheguei a São Paulo vindo pela BR 116, depois de ter ido ao litoral norte acampar com amigos e, lá pelas tantas, uma primeira imagem mais ampla da cidade se delineava no horizonte.

E, como se desenhada por alguma criança desleixada, uma forte faixa escura acima dos prédios em um dia sem nuvens. Poluição, explicou-me o amigo que dirigia o fusquinha vermelho, lotado das traquitanas do acampamento.

– Bem vindo a São Paulo! – Disse e sorriu com ironia.

Gostava de bater pernas pela cidade. Sabia como voltar para casa vindo do metrô, novidade na época. Portanto, bastava, em qualquer lugar onde eu pudesse ter chegado, descobrir como chegar a uma estação.

Depois, escolher a direção Santana (o “outro lado” era Jabaquara) e retornar. Não havia linhas. Era o metrô e pronto.

Alguma coisa aconteceu no meu coração

Com essa tática em mente, descia em alguma estação e andava a lo largo, dando asas à minha curiosidade. Meus ainda jovens olhos se fartavam das tantas coisas diferentes do que via no meu mundinho. Algumas ainda mais provincianas do que eu achava que eram no meu cercadinho às margens do Guaíba. Outras, diversas e surpreendentes.

Gostava de deixar-me ficar em algum banco público, principalmente na área mais central da cidade, para ver a pressa dos circunspectos paulistanos. Espantava-me o hábito de comer andando apressadamente pelas ruas. Experimentei, mas não gostei. E, sendo honesto, nem precisava.

Achava bom ficar em algum ponto alto observando o maciço trânsito e vendo o movimento de formigueiro de uma cidade daquele tamanho enquanto eu ainda podia me dar ao luxo de não correr atrás da máquina (como preciso hoje).

Trazia nos ouvidos a canção de Caetano que tão bem definia São Paulo para mim: Sampa.

A música, em si, tem muita coisa em background, a exemplo da melodia inicial que encaixa com o verso “Cenas de sangue num bar da avenida são João”, da música “Ronda”, de Paulo Vanzolini, que fez grande sucesso na voz de Maria Betânia, mana de Caetano.

Consta que João Gilberto, quando tocava “Sampa”, sempre a iniciava com a última frase de “Ronda”. E então vinha “Alguma coisa acontece no meu coração / Que só quando cruzo a Ipiranga e a avenida São João…”.

Dá para imaginar o encontro das imagens e das músicas.

Verso grafitado nas esquinas

Maior painel da América Latina, homenagem à Elza Soares fica na Rua da Consolação, em São Paulo; com 870 metros quadrado, foi criado por Francio de Holanda e virou um marco em uma das cidades mais importantes do grafite mundial.

Obviamente, eu precisava beber naquelas cercanias, cantarolando os versos da música e criando os meus, no caderno que sempre me acompanhava. Bem, confesso que à época eu “precisava” beber em qualquer lugar. A música era só mais uma desculpa.

Também há, na música, a referência a uma frase de Vinicius, que dizia a amigos, de forma galhofeira, que São Paulo era o túmulo do samba.

Em outra estrofe, Caetano fala “da dura poesia concreta de tuas esquinas”, naquilo que é uma evidente alusão aos poetas concretistas Augusto e Haroldo de Campos.

Pois bem, existem boas análises da letra de Sampa que merecem leitura. Nenhuma frase da letra é solta, todas elas têm alguma referência como pano de fundo.

Mas, para mim, existe um verso que é de uma felicidade poética imensa. Já o vi sendo referenciado por inúmeras vezes em várias situações, sempre como um argumento irrefutável.

Porém, a mim, ela deu uma prova concreta (já que havíamos falado em poesia concreta) de como a poesia, em certos momentos, suplanta, com algumas poucas palavras, o significado de longos discursos ou mesmo libelos complexos.

Talvez nem mesmo o autor, ao escrever sua música, possa ter imaginado um fotograma tão claro e evidente para ilustrar a imagem que criou.

Em uma das minhas caminhadas, gastava as pedras da Avenida Paulista com meu passo meio arrastado. Em dado momento, deparo com a visão de um enorme casarão, um daqueles belíssimos símbolos de arquitetura de época que ali havia e dos quais hoje restam muito poucos. A fachada havia sido completamente destruída, deixando uma imagem de desamparo e incredulidade a quem passava.

 A descaracterização, segundo me foi dito depois, tinha o objetivo de impedir o tombamento histórico, o que impossibilitaria a venda e derrubada da edificação.

Fechando os olhos, ainda consigo ver com clareza a imagem que tanto me marcou.

Mudança na paisagem: Cerca de 25% da São Paulo que vemos hoje foi construída nos anos 1970, década do primeiro boom imobiliário da cidade

No piso superior da casa, um banheiro sem uma das paredes, aquela que se voltava para a famosa avenida, tinha expostas as suas intimidades.

A imagem era composta de uma banheira, a pia, sobre ela um espelho empoeirado que parcamente refletia os prédios às minhas costas e a porta, além, evidentemente, das cicatrizes empoeiradas da derrubada da fachada da casa.

Ali, um alerta extraído da canção. Um verso grafitado na parede de azulejos brancos, perfeitamente visível da calçada:

“Da força da grana que ergue e destrói coisas belas”

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