Vestidos evangélicos

Você compraria vestidos agnósticos?

E camisetas católicas?

Figurinos espíritas?

Uma saia umbandista seria do seu agrado?

De repente um lenço budista complementaria bem

aquele vestido evangélico monocromático.

Não importa a resposta,

desde que seja dada por você,

apenas por você.

Um link patrocinado com o nome Vestidos Evangélicos começou a surgir para mim no Instagram. A expressão me chamou atenção e passei a observar os modelos para tentar entender por que seriam nomeados assim. A maioria, se não todos, tem mangas longas e cumprimento abaixo do joelho. Alguns colam e definem o corpo como só os bons vestidos “agnósticos” sabem fazer; mas acredito que estes tenham recebido salvo conduto em nome de algo maior.

Empreendedores e publicitários são como linces à caça de suas presas. Talvez o lince seja mais sutil, porém, não tão bem-sucedido quantos os primeiros: vestidos evangélicos vendem como água. Em parte, porque atendem ao gosto das consumidoras: são tão bonitos quanto qualquer outro. Em parte, porque resumem uma identidade muito cara às suas compradoras.

Nasci em um lar protestante e por muito tempo ser evangélica me definiu. Eu cabia (ainda que, com dúvidas e discordâncias) no modelo. Hoje não mais. Continuo crendo, Deus é sagrado para mim, mas de um modo singular e íntimo. Não me permito acatar interferências de ideias alheias. Não há sacerdotes a me dizer quantas vezes por dia devo rezar. Ninguém para definir o que devo ou não escrever, em quem votar, como me relacionar com o marido, criar os filhos ou me vestir. Mostro o meu corpo ou não o exponho, de acordo com minha absoluta vontade.

E agora vou falar da Anitta. Eu a admiro! Gosto da atitude dela de se expor como quem diz: tenho o direito de me vestir como quero e cabe a você respeitar. Isso não me define e nem me obriga a nada!

É um recado muito representativo o da Anitta, sabem por quê? Mulheres brasileiras são cotidianamente julgadas, mal interpretadas e, pior, atacadas com a justificativa de que suas roupas são “provocantes”. Sim, porque muitos homens entendem roupas coladas, miniblusas, saias curtas e biquinis como convites ou passes-livres.

Ah, mas essa nudez é indecente! É mesmo? Por que mulheres que usam vestidos justos e curtos são censuráveis e homens podem desfilar sem camisa de boa? Acho que a resposta é a seguinte: expor o corpo pode provocar a libido, o que é muito natural; mas as mulheres sabem se comportar diante de um homem de sunga. Os homens não teriam tal competência diante de uma mulher de fio-dental? Claro que sim, falta-lhes apenas boa vontade. Estivéssemos em uma sociedade mais avançada e as pessoas teriam suas liberdades individuais respeitadas.

Não é a roupa que usamos e sim nossa identidade de gênero a verdadeira questão. Somos mulheres. Anittas ou recatadas, evangélicas ou ateias estamos do mesmo lado. Então, não serei eu a levantar a bandeira das roupas longas em detrimento das curtas. Minhas irmãs que andem do jeito que desejarem. E jamais estando em uma conversa que envolva o assunto “roupas provocantes” defenderei o abusador.

A vida de mulheres como Anita deve ser difícil. Imagine a quantidade de babacas que elas precisam colocar em seus devidos lugares. Mas a vida das convencionais não é mais fácil, pode acreditar. Em conversas com amigas escuto desabafos que podem dar uma ideia das angústias: “Gosto de sandália retrô, mas meus filhos sempre tiram onda quando uso…”, “amo todos os tons de rosa: do bebê ao bordô, você me acha infantil por isso?”. “Se eu tivesse um pouquinho mais de coragem usaria chapéus, mas sempre que tento, me sinto ridícula”. “Você acha que tô velha pra usar tênis?”. “Desisti do biquini. Imagina eu lá na praia com essa barriga flácida?”.

Não é um saco o quanto o medo de sermos julgadas nos reprime? Nem nos damos conta! Nos esforçamos para sermos aprovadas socialmente enquanto a verdade da vida nos machuca: “Não gosto de sutiã, é desconfortável. Só uso porque me sinto nua sem ele!”. “Não consigo mais usar salto, meus joelhos doem. Mesmo assim, eu uso porque lá no trabalho…”.

Quem desejar usar “vestidos evangélicos” que os use, mas não santifique esses trajes.  Eles são “sóbrios”, “comportados”, “discretos”? Ok, mas saiba que o contrário disso não é ruim. O contrário, pode até significar que a mulher é feliz. Que ninguém a limita, ninguém a diminui, ninguém a interdita… embora tentem.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. NOELMA RAFAEL 24 de maio de 2021 22:12

    Meu olhar vai mais próximo ao da narradora: o texto trata da relação entre a construção da identidade da mulher e a imposição cultural no seu modo de vestir. É mais do que falar sobre modismo, é falar sobre identidade, desigualdade de gênero, cultura da opressão, imposição, silenciamentos… Se todos os homens enxergassem este texto como uma mulher, essa cultura do culpismo ” foi estuprada por que andava quase nua”, ” se ofereceu, foi estuprada”, não existiria mais, mas ainda existe, e estamos em pleno século XXI, até quando vamos ser realmente enxergadas? Enxergadas pelos olhos da igualdade, pelo que somos em essência. Esse texto fala muito, fala bem, fala por todas!

  2. José de Castro 24 de maio de 2021 19:59

    Como sempre, um texto impecável da nossa querida escritora multigênero (literário, tá, gente? rsrs.). Uma análise bem equilibrada que serve para denunciar eventuais modismos. Afinal, a roupa fala de nós, é a nossa segunda pele. O que precisamos mesmo, é despirmo-nos de todos os cliches e preconceitos. Parabéns querida amiga, pelo seu dom da escrita… Quanto aos vestidos femininos, evangélicos ou pagãos, acabam sendo uma escolha da própria mulher… E devemos sempre respeitar as opçoes, sejam elas quais forem… Abraços, amiga..

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