Viagem à Brasília

Ao amigo Gustavo

VIII – Viajante Contumaz

É seca… é feia….é gorda… é corrupta…é o Brasil…eu gosto

Em Brasília senti o maior frio e a maior sensação de secura da vida. Em 1976 fiz minha primeira e aventurosa viagem ao planalto central do Brasil. Fui participar de uma reunião anual da SBPC junto com mais três amigos Uma verdadeira saga por estradas de barros, noite na estrada e carro quebrado. Depois participar de um Congresso de Esperanto. Sozinho fui muitas vezes assistir os concertos no Teatro Nacional. Pela primeira vez ouvi o grande pianista Nelson Freire.

No Congresso de Esperanto encontro meu querido e saudoso amigo Zé Meira que me convida a passear no Rio de Janeiro. No ônibus, muito frio. Nunca esquecerei daquele frio que passei em Brasília e na viagem ao Rio. Aluguei um casacão em Natal numa casa de abrigo aos necessitados e mesmo assim o frio era insuportável. Fico no seu quartinho pequeno cuja proprietária era uma ceguinha, Ela não gostou daquele intruso nos seus aposentos. Nessa mesma viagem conheci o Chiquinho, amigo cego que me levou a conhecer o Instituto Benjamin Constant. Experiência rica e inesquecível. Ele escreveu meu nome em Braile e me levou para assistir um concerto na Sala Cecília Meireles.

Voltando a Brasília, um ano após, já morando em São Paulo, faço muitas vezes o trajeto Sampa /Brasília. Viagens prazeirosas para encontrar uma namorada/ amiga muito querida que fazia residência médica em Taguatinga. Eu ia, ela vinha e amenizava a solidão da cidade grande. Quando não de corpo presente recebia cartas. Nesse tempo morava em São Paulo minha querida amiga Darcy Girassol e o grande Glauco. Certa vez, em Brasília, fomos visitar o zoológico e ficamos trancados quando a noite chegou. Esquecemos as horas em enlevo e os portões fecharam. Abraçávamos-nos ouvindo o ronco das serpentes e os pios das cobras e passarinhos. Depois de muito procurar e namorar eis que aparece um muro alto. Pulamos, e por sorte passou um táxi que nos levou a um aposento menos ruidoso. A rua de domingo era deserta. Dormimos o sono dos justos e foi uma noite que desejamos nunca chegasse o dia. Líamos com todo fervor o poeta Bertold Brecht. Adorávamos Lorca, Neruda e ela – quando me fazia raiva – colocava uma poesia na minha agenda. Tudo voltava ao normal.

Um dia em São Paulo ela chorou nua nos meus braços. Tinha acabado o namoro, mas mão o encanto que ainda guardo feito uma flor de maracujá do cerrado que ela me ensinou a amar. Brasília nunca mais foi a mesma.
Muito tempo depois volto para trabalhar na Sismologia da UNB. Do minhocão para casa. Ao meio dia alguns concertos e o almoço razoável no restaurante universitário. A livraria maravilhosa aplacava toda a dor. Depois, um congresso científico na mesma área. Foi ai que senti a maior sequidão da vida. Toalha molhada, balde d´agua para dormir.

Em tempos mais recentes voltei para participar de reuniões do Sindicato de Professores. Fiz passeatas, protestos no congresso e participei de inúmeras reuniões junto a outros sindicatos. Alguns sonhavam uma greve conjunta.
No Pátio Brasil, encontrei uma escultura do Quixote na livraria. Por sorte tinha o telefone do artesão. Liguei e ficamos amigos. Ele me fez muitas peças utilizando parafusos, peças e carcaças de carros em desuso. Armadura e uma escultura em tamanho natural que embalada parecia uma múmia. Todos riam com aquela arrumação. Não era todo táxi que podia e desejava transportar meu Quixote.

Brasília tem a minha idade e as lembranças daquela noite e daqueles dias voam como as asas norte e sul de uma cidade que aprendi a gostar. Descobri os belos sebos, o chorinho e os livros do Ezio Bazzo. Escrevi a ele dizendo da minha admiração de um viajante contumaz e de como aprendi a cuspir.

Ate a Volta
Evoé Brasília.
Parabéns 50

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

3 × 2 =

ao topo