Viagem à Cidade-Luz

V- Diário de Bordo de um Viajante Contumaz

O dia acordava e saíamos em direção à cidade de Fortaleza/CE. No carro um turbilhão de conversas e lembranças. Metade de Natal foi lembrada. Também pudera, a tripulação era formada por Homero, Abimael, Dom Inácio e DaMata. O caminho era o dos livros na VIII Bienal de Fortaleza

Cidade leste/oeste e Lusitana. Cidade Luz. A influencia religiosa é grande e se reflete até no nome das ruas. A avenida monsenhor Tabosa é uma das suas principais artérias. A praia de Iracema onde ficamos hospedados é boa para passear e tomar umas e outras. A Iracema da praia é insinuante e faz gestos ondulantes. A cerveja quando possível é Brahma para agradar ao amigo Abimael. Até mesmo o Dom Inácio e Homero tomaram um copo. A conversa é animada e o mote é a literatura, a música e o cinema. O centro cultural Dragão do Mar é lindo e por trás fica a biblioteca pública Governador Menezes Pimentel e seus muitos tesouros raros. Saudação ao professor Amorim Sobreira e o legado precioso que deixou para a biblioteca. E pensar na penúria que é a biblioteca pública de Natal. Dá um aperto no peito e vontade de chorar.

Quase sempre estamos lembrando do Ednardo e Belchior. Eles cantaram como ninguém essa bela cidade nossa irmã. De Ednardo é o belo poema ao Ceará:

Eu venho das dunas brancas
Onde eu queria ficar
Deitando os olhos cansados
Por onde a vida alcançar

Meu céu é pleno de paz
Sem chaminés ou fumaça
No peito enganos mil
Na Terra é pleno abril

Eu tenho a mão que aperreia, eu tenho o sol e areia
Eu sou da América, sul da América, South America
Eu sou a nata do lixo, eu sou o luxo da aldeia, eu sou do Ceará

Aldeia, Aldeota, estou batendo na porta prá lhe aperriá
Prá lhe aperriá, prá lhe aperriá
Eu sou a nata do lixo, eu sou o luxo da aldeia, eu sou do Ceará
A Praia do Futuro, o farol velho e o novo são os olhos do mar
São os olhos do mar, são os olhos do mar
O velho que apagado, o novo que espantado, vento a vida espalhou
Luzindo na madrugada, braços, corpos suados, na praia falando amor.

Cidade de Farias Brito e Gustavo Barroso. De Edgar de Alencar, Rachel de Queiroz e tantos outros escritores queridos. Abimael lembra do bom poeta Francisco Carvalho. Olhando da varanda do hotel parece que estamos lendo:
“ O céu infinito e o infinito mar / a música das dunas / o perfil dos navios varando a tarde que recende/ a flores desbotadas / a espuma das ondas odoríferas como o vinho dos deuses / a solidão crescendo/ a noite veloz arrastando a túnica em chamas / sobre as escadarias do mar/…”

No domingo vamos à praia do Cumbuco. Bela praia para passear, andar a cavalo, de barco e outros meios de transportes motorizados ou não. Hora também de pegar um caranguejo. Não falta mais nada para o amigo Abimael. O bispo recebe uma pata de caranguejo. Só mesmo um grande amigo para receber tamanha oferenda. Muitos vendedores. Um poeta popular passa oferecendo o seu último rebento cordelizado. Já escreveu mais de trinta livros e é analfabeto. Outro faz uma graça. Afinal estamos na terra de grandes humoristas e rir é o melhor negocio. Depois de almoçados voltamos à bienal

A Bienal

A bienal agradou a todos. Muita gente e muitos setores vendendo livros de toda espécie. O carro vai pesado com tantos saber. No estande do senado compro a História da Literatura do Carpeaux. O Inácio me indica uma bela edição das obras completas do Bocage da Lello. No estande da Biblioteca Nacional compramos as Revistas Poesia Sempre e as do Livro. Fico chateado depois de separar alguns e saber que não estão à venda.

Imagina, entre esses livros tinha uma bela edição do Quixote ilustrado para crianças. Só faltei ter um ataque por não poder trazer esse livro. Não adiantou dizer que era um estudioso e colecionador do Quixote. Inácio é um especialista em Cangaço e compra mais alguns livros que estão sendo lançados sobre o tema. E mais, muitos mais. Alisamos todos, mas estamos felizes e muito cansados de tanto andar por um mar de livros. Compro ainda vários livros sobre o Quixote nos estandes internacionais. Livros em promoções. Livros para todos os gostos. Homero está cansado de tanto carregar livros sobre literatura e política. Compramos um belo livro sobre Ramalho Ortigão. Livros sobre a História da Aviação e do Cinema no Ceará. Sobre o Padre Cícero. O medievo Beowfulf e muito mais. Compro ainda uma bela edição facsimilar do Vicente Huidobro. A bienal é mesmo maravilhosa. Encontramos Carlança e sua companheira, belos amigos. É hora de voltar. Estamos todos felizes com essa belíssima viagem entre amigos e por causa do livro, nossos eternos amiguinhos. E haja conversa. Vocês não sentiram as orelhas quentes?

Um grande abraço para Homero, Abimael e Dom Inácio. Belas companhias e amigos eternos.

Até a próxima,

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