Viagem a Praha

VI- Viajante Contumaz

Conhecer Praga (Praha), hoje República Checa , era uma obsessão. Por tudo que essa cidade significa para a história e cultura mundial. A placidez do rio Moldava (alemão Moldau, em checo Vltava) era ouvido muito antes na música de Rimsky Korsakov. Cidade medieval mantida quase intacta após as duas grandes guerras mundiais. A música está em toda parte e a cidade possui uma rica cultura. O Bairro Judeu e o Castelo onde Kafka escreveu parte de sua obra são visitas obrigatórias.

Na Áustria-Viena tive que pegar um “visto” de entrada na República Checa. Faria qualquer sacrifício para alcançar aquele objetivo longamente acalentado. Chegando em Praga, na estação ferroviária, não conhecia ninguém. Estava sozinho. Alguns guichês ofereciam hotéis. Escolhi o Kafka mas estava lotado. Outros eram muito caros para as minhas finanças já combalidas depois de mais de um mês na Alemanha e Áustria. Pessoas na estação ofereciam hospedagens em casas desocupadas. Com a vantagem do translado de ida e volta. Escolhi uma dessas opções e fui num carro grande dirigido por uma moça, responsável pela hospedagem naquele lugar de língua difícil e minha desconhecida; – a moça, a cidade e a língua. Os olhos atentos a cada movimento, rua ou monumento.

Ao chegar na casa onde haveria de ficar hospedado, sou guiado pela moça que abria as muitas portas com um molhe de chaves. Após abrir umas cinco portas ela me mostrou o quarto onde eu ia ficar. Tudo muito antigo, sombrio e sem mais ninguém. Eu ia ficar sozinho naquele casarão antigo. Nem sei se conseguiria acertar todas as chaves. A mocinha já contente com o dinheiro que ia receber para resolver as suas combalidas finanças de país que aprendeu a conviver com o duro regime comunista. E agora, o que fazer? Já havia ocupado a moça por um bom tempo. Ela foi gentil em mostrar parte da cidade, principalmente o bairro onde morou o escritor Franz Kafka. Pedi para voltar para a estação e tentar outra coisa menos sombria e solitária. Não lembro se a moça quis receber o dinheiro pela viagem, pois já faz algum tempo e resolvi lembrar nem sei o porquê.

Na estação ferroviária contrato um hotel que fica no centro da cidade. Uma espécie de pensão modesta do tamanho do meu orçamento. Não esperava tão pequeno. Ao chegar de táxi, entrei no recinto e fui preencher uma ficha de hóspede. A mulher-dona gerente era uma daquelas coroas rechonchudas com uns óculos de muito grau. Aproximava muito o papel para ler. Demorava demais para alguém que estava muito cansado e doido para se hospedar e tomar um banho. Ela me guiou até o quarto e não acreditei no que vi. Já tinha pagado e não podia voltar atrás. Não era possível entrar em pé naquele minúsculo vão. Ali só cabia um colchão e a mala ao lado. Não pude fazer nada e tive que me submeter àquele sacrifício. Sempre pensando em Kafka e nos absurdos que a vida nos prega. O banheiro comunitário ficava ao lado da célula-quarto que aluguei para ficar durante cinco dias em Praga. Ficar ali só para dormir. Tudo ali era estranho e diferente. Afinal, estava na terra de Kafka. A única vantagem era que o lugar ficava em pleno centro da cidade. Deixei as malas e fui explorar a cidade. Comi muita pizza posto que é comida universal e o nome é conhecido. A cerveja já sabia, era a Pilsner. Uma das melhores do mundo, fabricada numa cidade homônima dessa região. Os cristais da Bohemia também são famosos na região. A torre do relógio no centro da cidade velha é monumental. Maravilhosa a Catedral de São Vitor “ Katredrála s. v. Vita”

Durante a noite fui assistir um conserto numa sala de excelente acústica que ficava perto ao hotel. Não, aquilo não pode ser chamado de hotel. Da minha célula de só corpo. Dois só se fossem superpostos. Uma cidade acolhedora e de muitos músicos de ruas e nos muitos teatros. Próximo também tinha um belo sebo. Livros da idade média e outras raridades. Todo o dinheiro que tinha não dava para comprar um. Fiquei na saudade. Atravessar várias vezes as belas pontes era um dos meus passeios preferidos. Outro dia fui um pouco mais distante e voltei de metrô. Nunca tinha visto uma escada tão grande e o metro muito fundo. Ninguém recebe o ticket de passagem. Mas se você for pego sem ele paga uma multa vultosa. Os guardas abordam aqueles passageiros suspeitos. Eu fui um deles. Todos viam que eu não era dali. Por sorte, estava com o bilhete e me livrei desse infortúnio. Ao voltar para casa, não, para a célula, desci numa parada posterior. Uma parada que ficava depois do rio. E aí foi desespero. Ninguém sabia informar e eu mal sabia dizer onde estava hospedado. Um guia na mão e a fronte franzida num desespero Kafkiano. A noite ia chegando para o meu desespero. A haja andar. Um guarda me levou para o caminho errado. Depois de muito tempo, uma colegial vendo o meu desespero perguntou em Inglês se podia ajudar. Claro, que podia. E claro que ela ajudou. Precisava atravessar a ponte ou tomar um metro de volta. Não tinha mais ticket e vim a pés. Aquele foi meu anjo de Praga.

Num outro dia fiz um city-tour. Só eu não estava em grupo. Um japonês ficou meu amigo. Eu fazia sua foto e ele a minha. Simpático. Ao visitar o castelo onde Kafka escreveu o seu famoso Castelo, fiquei emocionado e me senti recompensado. No castelo, vários quartinhos e num desses, ele escrevia.

No teatro oficial da cidade, numa casa de ópera, fui assistir de paletó comprado em Viena, uma opera de um compositor local. Belo teatro e belíssima ópera que fica na “Národni Divadlo V Praze”. Um senhor ao meu lado conversava fluentemente em inglês e fiquei menos só. Ao saber que era apaixonado por Kafka, perguntou se eu era Judeu. E para gostar de Kafka precisa ser judeu? Não entendi. Ele tinha um pouco de trauma do escritor porque foi obrigado a ler na escola. Para comprar o ingresso de entrada quase fui logrado, por uma senhora gorda e pouco ética. Disse que tinha um ingresso num ótimo lugar e desejava vender por um bom preço. Quase comprei com medo de não encontrar ingresso. Resolvi procurar a bilheteria e comprei o ingresso por um preço menor e num lugar excelente.

Numa lojinha perto de onde estava o meu colchão, comprei duas belas camisas com o desenho de Kafka. Perguntei à mocinha que me vendeu se ela já havia lido algum livro do Kafka. Não havia lido nada e pouco sabia da vida do escritor praguense.

A volta não foi menos dramática. O trem para Berlim saia às três da manhã e fui logo cedo para estação. Não podia dormir para não perder o trem. Ao chegar na estação central não era o local do embarque. Tive que ir para uma outra estação carregando a mala pesada. Ao arrastar a mala fui agredido verbalmente por alguém que tentava dormir. Tive que esperar sozinho sem poder cochilar. Muitos trens chegavam e partiam. Na estação uma solidão que não tinha fim. Quando o trem chega precisa embarcar bem rápido pois o tempo parado é diminuto. Com o coração quase saltando pela boca embarco e tento dominar o sono que me amolece. Não suportando, cochilo um pouco e ao acordar estou na estação que devia desembarcar. Pergunto a alguém pelo local. O trem já ia partir quando desci sobressaltado. Descer em outra estação seria um caos. Distante do aeroporto onde devia pegar o avião de volta.

Para escrever viajei. Quem não sabe contar uma história é pobre, diz o escritor moçambicano Mia Couto. Sou pobre e pode acreditar, é tudo verdade.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

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