Viagem ao Inferno

Ganhei no final do ano passado dois livros, um de ficção, “O Compromisso”, da Nobel de Literatura de 2009 Herta Müller, e um de não ficção, “Viagem ao Crepúsculo”, de Samarone Lima. Li o primeiro ainda no ano passado e o segundo acabei há poucos dias. Coincidentemente, ambos tratam da vida sob ditaduras. No primeiro, a ditadura de Ceausescu, na Romênia. No segundo, a Cuba de Fidel e Raul. A primeira constatação: como são parecidas as ditaduras! Opressão, delação, medo, autoritarismo, mercado negro, culto à personalidade, privilégios para a casta do poder…

O livro de Samarone foi editado pela editora Casa das Musas, dos poetas Gustavo de Castro e Florence Dravet. Samarone é jornalista, mora em Recife, é amigo de Gustavo e de esquerda. Faço essas observações porque um desavisado poderá pensar que trata-se de mais um panegírico de direita contra Cuba. Samarone passou um mês em Cuba, morou e conviveu com pessoas comuns, o povão. Vivenciou de perto as agruras cotidianas das pessoas sob à ditadura.

Eu sabia que a situação na ilha não era das melhoress. A ficção de Pedro Juan Gutierrez já tinha me adiantado alguma coisa do que se passa na ilha. Mas não chega nem perto do relato de Samarone, que é chocante do começo ao fim.

A escassez de tudo em Cuba obriga as pessoas a todo tipo de suborno e golpes para sobreviver. O mercado negro começa nos escalões intermediários do governo e se espalha por toda a sociedade. Máfias e miséria por toda parte.

O descontentamento com o regime é geral. Mas poucos ousam reagir. Os onipresentes Comitês de Defesa da La Revolución – máquina de delação e repressão – tratam de manter todos amofinados.

A luta diária não é por liberdade, um luxo que a maioria dos cubanos não conhece. Mas por pão, leite, carne, gêneros de primeira necessidade. O sistema de saúde, que a propaganda do governo cubano propaga, está falido. Perto dele, o nosso SUS é padrão suíço.

“Aqui em Cuba, há muitos delatores, que ficam nas filas, fingindo que vão buscar o pão, a ração. Há também umas Brigadas de Resposta Rápida, que agem se acontecer qualquer ameaça de tumulto, mobilização do povo. Na verdade, são policiais vestidos de civis. Você não pode falar de jeito nenhum, em voz alta, nem citar que o sistema está mal, que aqui vivemos uma vida miserável, que rapidinho te pegam, prende, e é pior”. É uma vida de cão, Samá, a revolução serve para os que estão perto de Fidel”, relata um cubano.

Samarone custa a acreditar no que vê. E nós, no que lemos. Hoje, quem quiser saber como está Cuba tem de ler “Viagem ao Crespúsculo”.

Falei tanto do livro de Samarone e quase nada do de Herta Muller. É que “O Compromisso” não me empolgou, achei um livro fraco para alguém que ganhou o Nobel (meu parâmetro de comparação aqui são escritores do porte de Coetzee e Pamuk, para citar dois mais recentes). Tomara que os outros livros dela sejam melhores.

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