Vida a serviço da ficção

Por Maria Eugênia de Menezes

Foi em 1994 que Caio Fernando Abreu recebeu sua sentença de morte. Ao menos foi assim que, naquela época, o autor interpretou a notícia de que era portador do vírus HIV. Na coluna semanal que assinava no Estado, ele revelou o fato em 21 de agosto daquele ano. Na série de três artigos, intitulados Cartas para Além dos Muros, o autor repartiu, sem muito pudor, a sua agonia.

Em sua obra, Caio Fernando Abreu esteve sempre devassado. Expôs os dilemas ingênuos da juventude em livros como Limite Branco, que escreveu aos 18 anos. Trouxe à tona todo o seu lado escuro e sombrio, o temor da solidão e da morte, em obras como Morangos Mofados e Os Dragões Não Conhecem o Paraíso – por muitos considerado seu melhor livro. Sempre que não pôde sobreviver apenas de sua ficção, o autor incursionou pelo jornalismo. Nascido em Santiago, Rio Grande do Sul, em 1948, mudou-se para São Paulo nos 1960. Aqui, escreveu em revistas como Veja e Manchete. Em 1973, partiu para a Europa, onde lavou pratos, trabalhou como modelo fotográfico e faxineiro. Por lá, conta que viveu seu maior dilema: “Ou parto para Índia ou me torno escritor”. Por sorte, sabemos, ficou com a segunda opção.

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Uma carta para o lado de lá
Paula Dip

Caio querido, escrevo para te contar que desde que escrevi o nosso livro, aquele, que combinamos em 83, só me aconteceram coisas boas. Reli nossas cartas, chorei potes, respirei fundo, botei uma rosa na frente do seu retrato e mãos à obra. Entrevistei amigos, inimigos, editores, escritores e todos contaram histórias ótimas de você. Emoções fortes: estive na casa do Menino Deus, e sua irmã Claudia me mostrou tanta coisa que dava para fazer três livros! Amei a aquarela que você pintou na Praia do Rosa pouco antes de partir… já faz 15 anos! Mas quero que você saiba que para teus livros, o tempo não passou. A moçada te lê com devoção. E quando alguém descobre que fui tua amiga, nossa, é umas enxurrada de perguntas, carinhos, uma delícia, como diria o Bivar.

Na noite de autógrafos do Rio, conheci o Candé Salles, lembra dele? Aquele ator de olhos verdes da peça À Beira do Mar Aberto, que ele encenou em 95, com a Natália Lage. Imagine só, hoje ele é diretor de cinema da Conspiração Filmes e estamos fazendo um documentário sobre você, baseado livremente no meu livro. Bem livremente mesmo, pois tudo que o Candé e eu fazemos é superlivremente, do jeito que você gosta. Temos até imagens de você em branco e preto vivendo em Londres, 1974, pode? Com tudo isso, você continua vivo no nosso coração. O Cande é um Caio F. do século 21. Acho que o filme fica pronto no ano que vem! Te aviso! Beijos, da sempre sua Paula Deep.

PAULA DIP É JORNALISTA, AUTORA DA BIOGRAFIA PARA SEMPRE TEU, CAIO F. E PREPARA PARA 2012, ALÉM DE UM DOCUMENTÁRIO, VOLUME QUE REÚNE CARTAS TROCADAS PELO ESCRITOR COM HILDA HILST

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