Vida de repórter

Quem imagina repórter como o futuro Willian Bonner, lembre de Belchior quando cantou que “viver é melhor que sonhar”. Cobri a inauguração da Ponte Newton Navarro ontem e posso contar algo dos bastidores a partir do meu trabalho.

Eu e a repórter Gabriela Freire chegamos por volta das 17h30. Fiquei incumbido dos depoimentos das autoridades e da movimentação popular entorno da festa. Gabi cobriria o descerramento da placa e o corte da faixa.

As autoridades chegaram por volta das 18h. Até lá, muito vento na cara. Os cabelos até então comportados, pareciam uma vassoura de piaçava. Gabi temeu ser confundida com Elba Ramalho, atração musical da festa.

Conversar com o presidente Câmara Municipal foi fácil. Com dom Matias, dividi espaço com mais três repórteres. Nada demais. Quando o prefeito Carlos Eduardo chegou, tumulto. Fiz exercício de audição para pescar algumas palavras. Quando da vez da governadora Wilma, já por volta das 18h30, cotoveladas, empurrões e exercício de tradução oral.

“Tudo bem. Me recupero”, pensei. Subi correndo para o palanque onde seria cortada a faixa para pegar bom lugar. Fiquei embaixo da governadora. Assisti tudo de “camarote”. Ao meu lado, populares, cheiro de leite de rosa vencido e um bêbado perturbando toda hora por um pedaço de papel e caneta.

Se para chegar foi fácil, para sair… Descemos uns 200 metros da ponte, na altura do primeiro pilar (lado do Forte) e contornamos a ponte até o palco oficial, na Praia do Forte. Ficamos em uma espécie de camarote para imprensa. Enfim, uma cadeira.

Comigo, Gabi, meu bloquinho, a caneta, a fome e a sede. Repórteres das TVs com lanchinhos da Pittsburg. Nós, nem a pão e água. “Ops, lembrei que fui incumbido de cobrir a participação popular”. Lá fui eu pro “meião”. Procurei logo os da faixa do município de Taipu (vizinho a Ceará-Mirim). Personagens interessantes, pensei. “A governadora é maravilhosa, é guerreira, é…”. Não teve jeito. Só saía isso da boca do rapaz taipuense.

Um outro, líder comunitário de Lagoa Seca, disse que o povo de Natal era de interior, que não podia ver inauguração de obra e se “ajuntava junto”. A obra em questão é a maior da história do estado e… o que diabos ele estava fazendo ali também? Fato é que se “ajuntou” tanta gente no palco que ele cedeu. Lá no “meião” ninguém sabia o porquê do barulho.

Voltei ao camarote da imprensa. Com alguns minutos, chegou a água; faltou o pão. Nem o que o diabo amassou. 20h e começou o depoimento das autoridades, no palanque oficial. Naquele mesmo tom das passeatas eleitorais. A palavra mais ouvida era “povo”: “meu povo”, “a ponte é do povo”, “temos que servir ao povo”.

O discurso do prefeito de Extremoz pareceu piada. Disse que se a governadora tivesse caído no piso que cedeu cairia nos braços do povo. Aposto que se o prefeito resolver visitar a praia de Santa Rita (da sua Extremoz), o povo come ele vivo.

O esperado depoimento da governadora começou umas 20h30. Seria a hora para voltarmos ou estarmos no jornal para escrever a matéria. Após os aplausos… onde estão os fotógrafos? Onde está o carro? Pareciam questionamentos existencialistas na hora. E agora? O que faremos. Quem somos nós?

Sair do camarote, contornar a obra embaixo da ponte, procurar o carro. Tudo em meio a multidão. Para resumir: fomos andando até o viaduto da ponte, distante uns… bocados de chão, o suficiente para minha perna começar a doer. Ao chegar no lar da redação, umas 22h, enfim, a pior parte: escrever com fome, cansado e apressado. É isso. Um dia apresento o Jornal Nacional.

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