A vida por um tuíte

Por Jon Ronson
NA PIAUÍ

Como uma frase infeliz pode destruir uma pessoa

Justine Sacco, de 30 anos, diretora sênior de comunicações corporativas na IAC/InterActiveCorp, foi visitar a família na África do Sul, em 2013, nas festas de fim de ano. Durante a longa viagem – o avião saía de Nova York –, começou a enviar tuítes com comentários ferinos. Um deles falava de um de seus companheiros no voo: “‘Alemão Bizarro: Primeira Classe. Ano: 2014. Por que não usar desodorante?’ Monólogo interior aspirando cê-cê. Bendita indústria farmacêutica.”

Houve uma escala em Londres: “Muito frio – sanduíches de pepino – dentes horríveis. De volta a Londres!” E no dia 20 de dezembro, antes do trecho final de sua viagem até a Cidade do Cabo: “Partindo para a África. Espero não pegar Aids. Brincadeirinha. Sou branca!”

Disparou esse último tuíte e riu sozinha ao clicar “enviar”. Depois passou meia hora vagando pelo terminal internacional de Heathrow, conferindo esporadicamente o celular. Nenhuma resposta, mas isso não a surpreendeu. Tinha meros 170 seguidores no Twitter.

Embarcou. O voo levaria onze horas, e ela dormiu. Quando o avião pousou na Cidade do Cabo e já taxiava na pista, ela ligou o celular. Recebeu imediatamente uma mensagem de texto de alguém que não via desde os tempos de colégio: “Estou passada com isso que está acontecendo.” Atônita, ficou olhando para a mensagem.

E então mais uma: “Ligue para mim agora mesmo.” Era sua melhor amiga, Hannah. E então de seu telefone jorraram torpedos e alertas. E depois ele tocou. Era Hannah. “Você virou o maior trending topic mundial do Twitter”, ela disse.

A linha do tempo do Twitter de Justine Sacco parecia um filme de terror. “Como @JustineSacco conseguiu um emprego em RP?! Seu racismo e ignorância só se comparam ao nível da Fox News. #AidsAfetaTodoMundo!” e “Sou funcionário da IAC e não quero que @JustineSacco cuide mais das nossas comunicações. Nunca mais.” E então um tuíte da empresa onde ela trabalhava, a IAC, controladora de The Daily Beast, OkCupide a Vimeo, entre outros sites: “Comentário ofensivo e inaceitável. Funcionária em questão fora de alcance em voo internacional.” E a raiva dos tuiteiros logo se transformou numa espécie de euforia: “O presente de Natal que eu queria era ver a cara de @JustineSacco quando o avião pousar e ela começar a checar os e-mails e as mensagens” e “Já posso ver @JustineSacco quando o avião pousar, tendo o momento mais desagradável de checagem de telefone de toda a história” e “Daqui a pouco vamos ver essa vaca @JustineSacco ser demitida. Em TEMPO REAL. E nem vai estar SABENDO que perdeu o emprego.”

O furor em torno do tuíte de Justine Sacco não era mais uma simples cruzada ideológica contra seu suposto racismo, mas convertera-se numa forma de entretenimento para desocupados em geral. O fato de, por onze longas horas, ela ignorar completamente as agruras em que se metera imprimia ao episódio uma ironia dramática. Enquanto seu voo percorria a África de norte a sul, uma nova hashtag se espalhava pelo planeta: #HasJustineLandedYet (#SeráQueJustineJáPousou). “Na verdade eu quero ir pra casa, mas todo mundo no bar está ligado em #SeráQueJustineJáPousou. Não dá pra sair agora” e “Ninguém na Cidade do Cabo vai até o aeroporto para tuitar assim que ela desembarcar? Queremos fotos! #SeráQueJustineJáPousou.”

E um usuário do Twitter se deu ao trabalho de ir até o aeroporto acompanhar o pouso do avião. Tirou uma foto de Justine e postou. “Pronto”, escrevia ele, “@JustineSacco JÁ POUSOU no aeroporto da Cidade do Cabo. E desembarcou de óculos escuros para disfarçar.”

No momento em que o avião de Justine aterrissava, dezenas de milhares de tuítes enfurecidos já haviam sido escritos em resposta a seu gracejo. Hannah, enquanto isso, numa atividade frenética, deletou o tuíte original da amiga e a conta dela – Justine nem quis olhar –, mas já era tarde demais. “Foi mal @JustineSacco”, escreveu um usuário, “agora o seu tuíte vai viver para sempre.”

Nos primórdios do Twitter, eu era um patrulheiro feroz. Toda vez que algum colunista de jornal fazia um comentário racista ou homofóbico, eu estava na linha de frente da artilharia. Às vezes era o primeirão. A. A. Gill certa vez escreveu uma coluna em que relatava um safári na Tanzânia, durante o qual havia atirado num babuíno: “Disseram que eles são difíceis de acertar. Sobem nas árvores, fazem o possível para salvar a vida. São duros de matar, os babuínos. Mas esse não. Uma bala .357 de ponta redonda estourou seus pulmões.” Gill justificou a caça: matou o animal porque “queria experimentar a sensação de matar alguém, um desconhecido”.

Fui um dos primeiros a me manifestar nas redes sociais. (Gill sempre falava mal dos meus documentários para a tevê, e por isso eu estava sempre ligado, à procura de alguma coisa que pudesse usar contra ele.) Em poucos minutos, espalhei para tudo que é lado o que ele havia escrito. Em meio às centenas de mensagens congratulatórias que recebi, uma me chamou a atenção: “Na escola, você perseguia os mais fracos?”

Ainda assim, naqueles primeiros dias do Twitter, essa fúria coletiva parecia justa, poderosa e eficaz. Era como se as hierarquias estivessem sendo desmontadas, como se a justiça se tornasse democrática. Com o tempo, entretanto, essas campanhas se multiplicaram e passaram a visar não só instituições e figuras públicas mais poderosas, mas qualquer um que desse a impressão de ter feito alguma coisa ofensiva. Comecei também a refletir sobre o desequilíbrio entre a gravidade do crime e a inclemência do castigo. Parecia que, àquela altura, o patrulhamento tinha adquirido uma dinâmica própria, como se seguisse um roteiro à parte.

Mais tarde comecei a pensar nas vítimas do patrulhamento, nos seres humanos reais que eram os alvos dessas campanhas. Foi assim que, nos últimos dois anos, entrevistei pessoas como Justine Sacco: indivíduos comuns submetidos a um linchamento brutal, quase sempre por terem irrefletidamente postado nas redes sociais alguma piada infeliz. Sempre que possível eu os entrevistava pessoalmente, para poder avaliar melhor o estrago emocional que se produzia do outro lado das nossas telas. E as pessoas que encontrei estavam em sua maioria desempregadas – haviam sido demitidas devido a suas transgressões, e pareciam de algum modo destroçadas, profundamente confusas e traumatizadas.

Umas das pessoas com quem estive foi Lindsey Stone, de 32 anos, do Massachusetts, que fez uma foto escrachada no Túmulo do Soldado Desconhecido, no cemitério de Arlington, na Virgínia. Lindsey posou ao lado de um aviso que pedia “Silêncio e Respeito”, fingindo que gritava e mostrando o dedo do meio, num gesto obsceno. Ela e Jamie, sua colega de trabalho, que postou a foto no Facebook, costumavam fazer graça com a desobediência a cartazes e letreiros – fumavam diante de avisos de “Proibido Fumar”, por exemplo – e documentavam esses gestos em fotos. Fora desse contexto, porém, a foto parecia fazer piada não com o cartaz, mas com os mortos na guerra. Pior: Jamie não tinha percebido que as imagens que mandava para o Facebook eram visíveis para qualquer um (os chamados mobile uploads, ou “carregamentos móveis”, na versão brasileira do programa).

Quatro semanas mais tarde, as duas amigas estavam comemorando o aniversário de Jamie quando os telefones de ambas começaram a vibrar e não pararam mais. Alguém havia localizado a foto e avisara as hordas anônimas que frequentam as mesmas redes. Em pouco tempo, alguém criou a página “Abaixo Lindsey Stone” no Facebook. No dia seguinte, equipes de tevê amanheceram na porta de sua casa. Quando chegou ao trabalho, uma entidade de apoio ao desenvolvimento de adultos deficientes, pediram que devolvesse as chaves. (“E depois que ela for demitida, talvez precise se inscrever como cliente”, dizia uma das milhares de mensagens do Facebook que a atacavam. “Mulher precisando de ajuda.”) Lindsey mal saiu de casa durante todo o ano seguinte, devastada por distúrbios de estresse pós-traumático, depressão e insônia. “Não queria encontrar ninguém”, ela me disse em março do ano passado, em sua casa em Plymouth, Massachusetts. “Não queria ninguém olhando para mim.”

Enquanto isso, passava o dia inteiro conectada à internet, acompanhando armadilhas semelhantes que pegavam pessoas como ela. Ficou especialmente condoída com “a garota que se fantasiou de vítima da Maratona de Boston no Halloween”. Estava falando de Alicia Ann Lynch, que postou no Twitter uma foto sua fantasiada para o Halloween. Vestia roupa de corrida e havia lambuzado rosto, braços e pernas com sangue falso. Primeiro Alicia recebeu o tuíte de uma das vítimas reais do atentado – “Você não tem vergonha? Minha mãe perdeu as duas pernas e eu quase morri” –, depois alguém desencavou informações pessoais sobre ela e começou a enviar mensagens de ameaça para ela e seus amigos. Ao que parece, Alicia foi igualmente dispensada do emprego.

Estive também com um homem que, no começo de 2013, participava de uma conferência de informática em Santa Clara, na Califórnia, quando lhe ocorreu uma piadinha idiota. Era sobre os acessórios que podem ser conectados a computadores e smartphones e são normalmente conhecidos como dongles (penduricalhos). Contou a tal piada em voz baixa para o amigo sentado a seu lado. “Mas era tão ruim que nem lembro exatamente o que dizia”, disse ele. “Tinha a ver com um certo equipamento fictício que tinha um penduricalho imenso, um penduricalho gigantesco… E eu nem estava falando num tom de voz normal.”

Instantes mais tarde, ele teve uma quase intuição quando uma mulher da fila da frente se levantou, virou-se e fotografou a ele e ao amigo. Primeiro, achou que ela estava fotografando a plateia, e continuou olhando fixo para o palco, tentando evitar estragar a foto dela. E olhar para essa foto hoje chega a ser incômodo quando pensamos no que aconteceu depois.

A mulher tinha escutado a piada. E considerou que era um gracejo exemplar sobre a profunda desigualdade entre os sexos que assola a indústria tecnológica, da qual decorre a dominação machista da cultura corporativa. Ela postou a foto para seus 9 209 seguidores do Twitter com a seguinte legenda: “Muito desagradável. Piadas sobre ‘penduricalhos imensos’ bem atrás de mim.” Dez minutos depois, meu entrevistado e seu amigo tinham sido conduzidos a uma sala vazia ao lado do salão de conferências, onde lhes pediram explicações. Dois dias depois, seu chefe o chamou e ele foi demitido.

“Guardei minhas coisas numa caixa”, ele me disse. Assim como ocorrera com Lindsey Stone e Justine Sacco, meu interlocutor nunca havia declarado nada sobre o que lhe havia acontecido. E só concordou em falar comigo se eu respeitasse seu anonimato, para evitar novos prejuízos a sua vida profissional. “Depois saí para ligar para a minha mulher. Não sou de chorar, mas” – fez uma pausa – “quando entrei no carro com ela, eu… Tenho três filhos. Perder meu emprego foi um pavor.”

A autora da fotografia, Adria Richards, logo sentiria na pele a cólera da turba.
O autor da gracinha sobre o penduricalho postou que fora despedido no Hacker News –um foro da internet muito frequentado por programadores. E isso provocou uma reação imediata na extremidade oposta do espectro político. Autodesignados defensores dos direitos masculinos, além de vários trolls anônimos, bombardearam Adria Richards tanto no Twitter quanto no Facebook, com ameaças de morte. Alguém tuitou seu endereço pessoal, anexando a foto de uma mulher decapitada com a boca tapada por fita isolante. Temendo por sua vida, ela foi morar de favor em casas de amigos e só voltou a seu apartamento no final do ano.

Em seguida, o site do empregador de Adria saiu do ar, vitimado por um ataque DDoS – Distributed Denial of Service, ou Ataque de Negação de Serviço –, que consiste em bombardear o hospedeiro de um site com pedidos simultâneos, orquestrados por diferentes computadores. Sobrecarregado, o sistema entra em colapso. Informaram à SendGrid, empresa para a qual ela trabalhava, que os ataques cessariam no momento em que Adria Richards não trabalhasse mais lá. Ela foi despedida imediatamente.

“Chorei pra caramba, comecei um diário, e como válvula de escape fiquei vendo um filme atrás do outro”, ela me contou por e-mail. “A SendGrid preferiu se livrar de mim e me entregou às feras. Eu me senti traída, abandonada, envergonhada, rejeitada, sozinha.”

Num fim de tarde do início do ano passado, encontrei Justine Sacco em Nova York, num restaurante do Chelsea. Vestindo roupas formais de muito bom gosto, Justine pediu uma taça de vinho branco. Haviam transcorrido apenas três semanas desde a malfadada viagem à África, e ela ainda estava na mira de vários meios de comunicação. Um fotógrafo do New York Post a seguia toda vez que ela saía de casa para a academia. Muitos sites da internet haviam vasculhado sua história no Twitter em busca de novos horrores. Desencavaram num artigo do BuzzFeed – “Dezesseis tuítes de que Justine Sacco se arrepende” – o seguinte: “Tive um sonho erótico com um menino autista ontem à noite.”

“Só uma louca poderia pensar que os brancos não pegam Aids”, ela disse. Foram mais ou menos essas as primeiras palavras que pronunciou assim que nos sentamos.

Justine já estava voando havia três horas quando os primeiros retuítes da sua piada começaram a brotar na minha linha do tempo, um atrás do outro. E entendi na mesma hora por que tanta gente achou sua frase ofensiva. Lida literalmente, ela dizia que os brancos não pegam Aids, mas parece que não foi essa a interpretação que a maioria das pessoas deu a suas palavras. O mais provável é que as pessoas tenham ficado irritadas com o tom alegre que ela empregava para se gabar do privilégio.

Depois de passar mais alguns segundos pensando sobre o tuíte, porém, comecei a suspeitar de que não era uma frase racista, mas uma autocrítica ao privilégio dos brancos – a nossa tendência de nos imaginar imunes aos horrores da vida. Justine Sacco, como Lindsey Stone, tinha sido violentamente apartada do contexto de seu círculo social imediato.

“Para mim, o comentário era tão maluco”, ela disse, “que achei impossível alguém pensar que fosse literal.” Mais tarde, ela me enviaria um e-mail em que falaria um pouco mais sobre essa questão. “Infelizmente, não sou comediante e nem um dos personagens de South Park, e por isso não tinha nada que me meter a usar um tom tão politicamente incorreto para falar de uma doença epidêmica numa plataforma pública”, escreveu. “Simplificando: minha intenção não era despertar a consciência sobre a Aids, enfurecer as pessoas, nem arruinar a minha vida. Quem mora nos Estados Unidos vive numa espécie de bolha em relação às coisas que acontecem no Terceiro Mundo. Foi dessa bolha que eu tentei caçoar.”

Eu era a primeira pessoa a quem ela dava declarações abertas sobre o que lhe havia acontecido. Tinha sido uma coisa dilacerante – e “na condição de relações-públicas”, totalmente inadequada –, mas ela julgava necessário mostrar como toda a situação era “louca”, como seu castigo era desproporcional ao crime.

“Eu me acabei de chorar nas primeiras 24 horas”, contou. “Foi muito traumático. Você perde o sono. Acorda no meio da noite e não sabe onde está.” Ela divulgou uma nota em que se desculpava e interrompeu as férias. Os funcionários dos hotéis em que havia feito reserva ameaçavam entrar em greve se ela tentasse se hospedar neles. Disseram-lhe que não podiam garantir sua segurança.

Seus parentes da África do Sul eram todos partidários do Congresso Nacional Africano – o partido de Nelson Mandela. Militavam desde sempre pela causa da igualdade racial. Quando Justine chegou do aeroporto, uma das primeiras coisas que sua tia lhe disse foi: “Não é essa a nossa posição. E agora, por associação, você quase manchou o nome de toda a família.”

Quando se lembrou dessa conversa, Justine Sacco começou a chorar. Fiquei sentado algum tempo olhando para ela. Então tentei contribuir para melhorar a atmosfera. E disse que, às vezes, as coisas precisam atingir o ápice da brutalidade antes de as pessoas começarem a agir de maneira sensata.

“Caramba”, ela disse. E enxugou os olhos. “De todas as coisas que eu poderia representar na consciência coletiva, nunca me ocorreu que eu acabasse sendo o ápice da brutalidade.”

Justine olhou para o relógio. Eram quase seis da tarde. Ela havia combinado de encontrar comigo naquele restaurante – e por isso estava vestida com roupa de trabalho – porque seu escritório ficava a poucas quadras dali. Às seis, estava sendo esperada para limpar sua mesa.

“De repente, você não sabe o que deve fazer”, ela disse. “Se eu não tomar providências para recuperar minha identidade e lembrar quem eu sou, um dia depois do outro, posso acabar me perdendo.”

A gerente do restaurante se aproximou da nossa mesa. Sentou-se ao lado de Justine, lançou-lhe um olhar prolongado e lhe disse alguma coisa tão baixinho que não consegui ouvir. Mas a resposta de Justine foi: “Ah, e você acha que eu devo lhe agradecer por isso?”

Marcamos um novo encontro para dali a vários meses. Ela estava decidida a provar que era capaz de recolocar a vida nos trilhos. “Não posso ficar sentada em casa vendo filmes o dia todo, chorando, morrendo de pena de mim mesma”, disse. “Eu vou voltar.”

Mais tarde ela me contaria que, depois de sair do restaurante, só conseguiu se manter serena até chegar ao saguão do prédio do escritório, quando então voltou a cair em prantos.

É possível que o destino de Justine Sacco tivesse sido diferente caso uma dica anônima não tivesse feito seu tuíte ofensivo chegar aos olhos de um escritor chamado Sam Biddle. Na época, Biddle era editor do Valleywag, o blog da Gawker Media sobre a indústria da informática. Ele retuitou a frase de Sacco para seus então 15 mil seguidores, e mais adiante acabou por repostar o tuíte dela em seu blog, anunciado pela seguinte legenda: “E agora, uma ótima piada das férias da chefe de RP da IAC.”

Em janeiro de 2014, recebi um e-mail de Biddle em que explicava o que o levou a agir como agiu. “O fato de ela ser chefe de relações públicas tornava o caso todo muito saboroso”, escreveu ele. “É muito bom poder dizer: ‘Bem, dessa vez vamos dar o devido destaque ao tuíte racista de uma alta funcionária da IAC.’ Foi isso que aconteceu. E eu faria tudo de novo.”

Biddle, entretanto, se declarava surpreso ante a rapidez com que a vida dela virou de pernas para o ar. “Não é que eu levante da cama com a ideia de fazer alguém perder o emprego – e nunca quis estragar completamente a vida de ninguém.” Ainda assim, seu e-mail se encerrava dizendo que ele tinha a impressão de que tudo “vai acabar bem, se é que já não deu certo”. E acrescentava: “As pessoas dedicam um tempo muito curto de atenção ao que acontece. Hoje já deve ter ocorrido alguma outra coisa que deixou todo mundo enfurecido.”

Quatro meses depois do nosso primeiro encontro, Justine Sacco cumpriu sua promessa. Fomos almoçar num bistrô francês na parte sul de Manhattan. Contei-lhe o que Biddle me dissera – imaginando que ela já estaria bem àquela altura. E tenho certeza de que ele não fora movido por uma crueldade especial, mas apenas, como todos os participantes dos linchamentos virtuais, pelo absoluto desinteresse em saber que eles produzem consequências muito concretas.

“Pois eu ainda não estou bem”, disse-me Justine. “Minha carreira ia bem, meu trabalho era ótimo e eu perdi o emprego, e muita gente se regozijou com isso. Todo mundo adorou me ver na lama.”

Depois de passar algum tempo empurrando a comida no prato, ela acabou por me revelar um dos efeitos menos óbvios da sua experiência. “Eu sou solteira – então simplesmente não posso mais sair com alguém, porque todo mundo dá um Google na pessoa com quem pensa em sair”, ela disse. “E isso eu também perdi.” Ela estava abatida, mas percebi uma mudança positiva em seu comportamento. Em nosso primeiro encontro, ela falava muito da vergonha que tinha causado à família. Mas isso tinha ficado para trás. Agora ela só se ressentia da humilhação pessoal.

E Biddle quase acertou numa coisa: Justine teve uma nova oferta de trabalho logo depois do episódio. Mas foi uma proposta estranha, do dono de uma fábrica de iates da Flórida. “Ele me disse que tinha visto o que aconteceu comigo, e que estava 100% do meu lado”, contou. Mas como não entendia nada de iates, ela ficou em dúvida quanto às motivações dele: “Seria um louco que achava que os brancos não pegam Aids?” E acabou recusando sua oferta.

Depois disso, Justine se afastou de Nova York para o mais longe que pôde: Adis Abeba, na Etiópia. Viajou sozinha, e conseguiu um trabalho voluntário como relações-públicas de uma ONG dedicada a reduzir o número de mortes associadas à maternidade. “Foi ótimo”, contou. Estava sozinha, e trabalhando. Se fosse para sofrer por causa de uma piada, melhor tirar algum proveito da situação. “De outro modo eu jamais teria passado um mês inteiro morando em Adis Abeba”, ela comentou. E ficou impressionada como lá a vida era tão diferente. Nas áreas rurais, o fornecimento de eletricidade era intermitente e não havia água corrente nem internet. Mesmo na capital, havia poucas ruas com nome.

Adis Abeba foi uma experiência ótima por um mês, mas ao viajar ela sabia que sua estada não duraria muito tempo. Justine é uma nova-iorquina típica, mulher decidida e cheia de energia, e muito afável. E por isso voltou e começou a trabalhar para o Hot or Not, um site que já fora popular e que agora tentava se reinventar como aplicativo de encontros.

No entanto, apesar de sua quase invisibilidade nas redes sociais, Justine ainda era ridicularizada e demonizada na internet. Biddle postou no Valleywag, depois que ela voltou a trabalhar: “Justine Sacco, que parece ter passado o último mês refugiada na Etiópia depois de deixar toda a espécie humana enfurecida com uma piada cretina sobre a Aids, acaba de se tornar diretora de ‘marketing e promoção’ no Hot or Not.”

“É perfeito!”, escreveu ele. “Dois fracassados que ficaram para trás, tentando ver se juntos conseguem chegar lá.”

Justine decidiu que as coisas não poderiam continuar assim, e passadas seis semanas do nosso almoço convidou Biddle para jantar e tomar uns drinques. Depois me mandou um e-mail. “Acho que ele se sente meio culpado pela história”, escreveu. “Não que por isso tenha retirado alguma coisa.”

Meses mais tarde, Biddle se viu no lado oposto de um linchamento virtual, por uma piada que tuitou:

“Pela volta do bullying.”[1] Quando o episódio de Justine Sacco completou um ano, ele divulgou no Gawker um pedido público de desculpas dirigido a ela.

Há pouco escrevi para Justine Sacco dizendo que ia contar sua história no New York Times, e propus um último encontro para ela me pôr a par de como andava sua vida. Sua resposta não demorou. “Nem pensar.” Explicou que tinha um emprego novo na área de comunicação, mas se recusou a contar em qual empresa. E acrescentou: “Qualquer movimento que lançar alguma luz em cima de mim vai ter um efeito negativo.”

Foi uma reviravolta profunda para ela. Quando a entrevistei pela primeira vez, ela ansiava por dizer às dezenas de milhares de pessoas que a tinham trucidado que elas lhe haviam feito muito mal e precisava reparar o que restava de sua figura pública. Mas pode ser que agora ela tenha conseguido entender que, na verdade, a execração a que foi submetida não teve nada a ver com ela. As redes sociais foram projetadas para manipular nosso desejo de aceitação, e foi isso que causou a calamidade que a atingiu.

Seus carrascos virtuais eram exaltados enquanto a despedaçavam pouco a pouco, e por isso eles persistiam. E a motivação de cada um deles – o desejo de atrair a atenção de estranhos – era praticamente a mesma que animou a própria Justine enquanto batia perna no aeroporto de Heathrow, na esperança de agradar pessoas que nunca tinha visto na vida.

[1]Em 16 de outubro do ano passado, Sam Biddle enviou dois tuítes seguidos de conteúdo ofensivo à comunidade nerd. O primeiro foi: “Ultimamente #GamerGate vem reafirmando o que sabemos ser verdade há décadas: os nerds deveriam ser constantemente achincalhados e humilhados.” Em seguida, conclamou o retorno do bullying. Biddle não só continuou no emprego, como foi promovido um mês depois.

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