Vida e verdade nas páginas de “Tirza”

Talvez a função principal da literatura, em nossos dias, seja a de nos retirar por alguns minutos ou horas das preocupações do cotidiano, não obstante o peso e a intensidade que elas possam ter. Em outras palavras, trocar o tempo real no qual transcorre nossas existências por um tempo outro, fruto das maquinações geradas pelas palavras condutoras da fantasia junto à nossa imaginação.

Qualquer outra conjectura recai sobre questões discursivas, acadêmicas, capazes de encher centenas de livros sem conseguir deslindar os inúmeros novelos que complicam tais discussões, a despeito das teses desenvolvidas por um Antonio Candido, um Roland Barthes, um Tzvetan Todorov e tantos outros.

Sob esse ponto de vista, quanto mais vida e verdade contiver o texto ficcional, maior a chance de arrebatar a atenção e o entusiasmo do leitor. “Tirza”, do holandês Arnon Grunberg (tradução de Mariângela Guimarães, Rádio Londres, 2015), chega ao Brasil sob os auspícios do Nederlands Letterenfonds Dutch Foundation for Literature, o que de certo modo atesta a qualidade desse romance nada convencional e que reúne vida e verdade numa combinação rara.

“Tirza” trata da vida de uma adolescente nascida na Amsterdã contemporânea, com seus canais, museus, tráfego intenso de bicicletas, seu Red Light Quarter, porém o que transita com mais presença nas páginas de Grunberg é a vida doméstica da família Hofmeester, formada pelo casal Jörgen e a esposa, além das filhas Ibi e Tirza.

Mas o leitor esteja de sobreaviso, porque a família Hofmeester apenas aparenta ser convencional, e trata-se de uma conveniência descuidada, que sucumbe à leitura de algumas quantas páginas, revelando-se em toda a sua pouca conveniência. E aí reside o cerne da arte de magnetizar o leitor manejada por Grunberg. A atmosfera de sombras – dominante – sobre a escassez de luz que se debate inutilmente, é o segredo desse romance holandês.

Trata-se de um romance moderno na medida em que fez uma opção radical: iluminar o oculto, dar nome ao inominado, não deixar nada às escondidas, desambiguizar mesmo as coisas mais triviais, porque nunca se sabe o que podem revelar… Nesse caso, “Tirza” é uma leitura indispensável.

Um ótimo teste para medir o ritmo e a tensão que fluem das páginas de “Tirza” poderia ser lê-lo concomitantemente com a leitura de um thriller de Stephen King ou outro cultivador desse gênero. Se o leitor terminasse por desistir da segunda leitura, não seria surpresa.

Os preparativos da festa de aniversário de quinze anos de Tirza dão o mote para o que está por vir: conflitos domésticos que envolvem a relação marido/mulher, pai/filhas, mãe/filhas e demais combinações sociais que extrapolem o âmbito familiar.

As relações de trabalho, especialmente a de Hofmeester – alto executivo responsável pela área de literatura estrangeira de uma grande editora – pouco revelam da vida real desse típico representante do homem medíocre que aprendeu a amar Tolstói, mas que não sabe que sentido dar a esse saber em sua própria vida.

Dado o protagonismo de Jörgen desde as primeiras páginas do romance, seu título poderia ser, portanto, “Hofmeester”, um homem sem qualidades, da estirpe de Musil, ou sem caráter, se preferirmos Mario. As nuances entre qualidades (morais) e falta de caráter se confundem de tal modo na personalidade desse funcionário de uma grande editora que só lhe sobram os gestos mecânicos do jardineiro que ele poderia ter sido quase que exclusivamente.

Ou um atilado cozinheiro, se atentarmos para sua dedicação à cozinha. Um outro destino, porém, o espera numa casa de campo, na companhia da filha adorada Tirza e seu namorado de cor. Cor é destino? Amor é destino? Sexo é destino? Três questões que a urdidura desse romance longínquo e, no entanto, tão próximo de nós, não deixará de responder. Romance assombroso, aliás. Ou melhor, um romance para o nosso tempo.

 

 

 

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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