Vigésimo 2º Capítulo do Romance O Dia dos Cachorros, de Aldo Lopes de Araújo

Arte: Alberto Lacet

— A SENHORA É QUE É DONA CALUZINHA? — indagou o oficial comandante da tropa.

— Sim, sou eu.

— Pois a senhora está presa.

— Presa?!

— Continue andando. Vamos para a casa do seu sogro. Vai ter de ficar lá, junto com as outras.

Caluzinha pensou em perguntar quem eram as outras. Achou melhor não. Aqueles sujeitos, maliciosos e atrevidos, iam imaginar que ela poderia estar se humilhando, alimentando intimidades ou rendendo homenagem a eles.

— Mamãe, diz que a senhora é do Partido Liberal!

— Está bem, filho – sussurrou, fingindo naturalidade.

— Diz, mamãe! – insistiu o menino.

— José Rafael!

O menino botou o braço na frente dos olhos por conta do sol forte e espiou para a mãe. A estrada inteira pelos lados e à retaguarda era uma soldadaria só e aquele solzão de forno cozinhando a terra. Caluzinha ia olhando a relva da beira da estrada. De um lado e de outro a cerca de avelós aparada rente a uma altura de metro e meio, deixando ver a alvura dos campos de algodão de se perder de vista. No chão reinavam beldroegas, cravos-de-defunto, espinhos-de-cigano, além de centenas de ervas daninhas. O menino tentava acertar os pássaros que voavam agitados, fazendo pouco caso das árvores, dos fios do telégrafo, do chão repleto de sementes, besouros e vermes. Foi então que ele desistiu, botou a baladeira no pescoço e guardou no bolso as balas de argila cozida. Estava vestido de marinheiro e em nenhum momento chorou.

Ainda há pouco, quando ouvira a primeira explosão, Caluzinha imaginou que eles estivessem derrubando os Patos. E não eram bombas dessas bombinhas safadas dos fogueteiros daqui, era negócio para arregaçar. Quando as bombas silenciaram, ela retomou a marcha. Amanhecera com a veneta de sair mais cedo. Ia para a casa do sogro Abraão Rosas, como fazia todas as manhãs, sempre que o marido se encontrava ausente. Dali se via a casa-grande da usina e o armazém de algodão. Caluzinha espiava o mundo e imaginava que Deus, no instante da criação, gastara muitas caixas de lápis-de-cor espalhando azul no céu infinito, muito verde pelo chão. E sendo preto o fundo (no princípio eram as trevas, a luz viera depois) um trabalhão teria tido o criador para o serviço de pintar lajedo por lajedo, nuvem por nuvem, os serrotes embranquecidos de musgos ressecados, com suas reluzentes pedras albinas. O prata revelara-se logo na lâmina d’água dos riachos e das lagoas, onde pairavam abençoadas garças, garças de Deus.

Pela obra dos homens, ali, só a cal das construções, dos bueiros dos engenhos, das fachadas das casas, do vapor de algodão e do alambique. A estrada era aquele grande risco marrom por onde andavam os cavalos, por onde corria o Ford e os carros de boi do Senhor dos Patos de Princeza. Depois dali, o baixio e o riacho, e depois do riacho vinha a serra.

Os polícias do presidente tinham vindo se esgueirando pelas divisas da Paraíba, com medo do governo de Pernambuco que em nenhum momento franqueara seu território para servir de base ou de passagem para tropas hostis ao coronel Barbaciano. Depois de vários dias de marcha, eles desceram a serra ao clarear do dia e invadiram pela manhã os Patos de Princeza. Sabiam de antemão que não encontrariam resistência de espécie alguma, pois lá só havia mulheres, velhos e crianças. Os homens sãos estavam nas frentes de batalha. Quando a força chegou à casa grande, lá já se encontravam os demais com as mulheres de João Triângulo e Guabiraba. O superior deles danou-se a gritar e dar ordens aos soldados que iam se posicionando em todos os cômodos da casa, detrás dos muros e das cercas de pedras, em buracos, até em cima das árvores. A casa não era alpendrada, era dessas de arrasto, de fachada simples, com azulejos. Na cumeeira havia um anjo de latão tocando numa corneta, em meio a várias esculturas em porcelana portuguesa. Uma escada de madeira levava ao andar superior, com várias janelas e seteiras. Um daqueles quartos foi o escolhido para servir de prisão para as mulheres.

Nunca uma força policial tão numerosa havia entrado nos Patos. Aliás, força alguma em tempo nenhum chegou a botar o focinho e as patas nos domínios de Abraão Rosas. Nem quando o juiz de Triunfo foi assassinado. O crime ocorreu no clube da cidade, numa noite de Natal. O magistrado se aproximou de Nobelino e, se referindo a este, disse para um amigo.

— Isto aqui está uma esculhambação, entra até cangaceiro de gravata!

Nobelino, que estava sentado ao lado de seu chofer e mais um homem de confiança, calmamente se levantou, tirou o chapéu, ensaiando um ligeiro cumprimento com a cabeça, e em seguida desabotoou o fraque, arrastou o revólver da cintura e despejou a carga toda no meio da titela do juiz. A polícia também atirou, mas atirou tarde.

Pela manhã, Barbaciano despachou uma tropa para ir tirar o sobrinho e futuro genro da cadeia. Os polícias do destacamento de lá, que após a prisão telegrafaram pedindo reforço, tiveram que abrir o xadrez e libertar o preso. Eles sabiam que o reforço não viria a tempo, talvez não viesse nunca, por conta da distância e da dificuldade. Não viria de forma nenhuma, essa é que era a verdade. Telegrafaram apenas por força do ofício, formalidade, desencargo de consciência.

Quando o superior lá deles deixou a sala do telégrafo, João Triângulo e Guabiraba já estavam dentro do prédio. Mas antes de mandar abrir as grades da cela, o macaco graduado tirou o quepe várias vezes para coçar a cabeça e mordeu o lábio inferior, a ponto de sair sangue. Ainda chegou a pensar na possibilidade de uma reação, mas correu a vista na tropa de apenas doze homens, examinou do alto a baixo o seu pequeno destacamento e abaixou a cabeça, desolado. Lá fora os homens, acocorados no meio da rua e armados, aguardavam a saída de Nobelino.

Na saída de Triunfo, já na estrada, deram de cara com o bando de Lampião que reconheceu Guabiraba e João Triângulo e foi logo querendo saber onde estava Nobelino. Os companheiros apontaram para uma das redes, mas advertiram de que não convinha incomodá-lo, pois estava cansado e ferido. Nas outra rede ia o corpo do chofer.

— Eu só queria dar uma olhadinha, não irei incomodá-lo! – garantiu Lampião, se aproximando da rede, sorrateiro.

— É Virgulino que tá aí? — indagou Nobelino, do fundo da rede.

— Sim, meu patrão, sou eu — apressou-se Lampião em responder. — Vim tirá-lo da cadeia, mas pelo visto cheguei tarde. O patrão deseja mais alguma coisa?

— Dormir! — respondeu Nobelino, sem abrir os olhos. E não falou mais nada.

Guabiraba então gesticulou, indicando que seguissem viagem. Lampião ficou no meio da estrada como um palerma, de braços cruzados, ele e seu bando, todos acompanhando a rede com o olhar, vendo Nobelino ser levado pelos homens do coronel Barbaciano, o Rei de Princeza, que um dia os expulsou das terras de seu domínio político. E da forma mais vergonhosa para um homem: debaixo de chumbo, cacete e faca.

Quando Caluzinha entrou em casa com os soldados, Abraão e Dona Maria Augusta já estavam dominados. Eles foram levados para o andar superior junto com Caluzinha e o filho, além das outras duas mulheres, ficando todos trancados no quarto forte, que era o lugar onde o velho Abraão guardava as armas, o cofre e os objetos de mais valor, como a coroa de Nossa Senhora das Dores toda em ouro e cravejada de diamantes, que seus antepassados trouxeram de Portugal. Os cangaceiros do outro tempo já haviam atacado os Patos de Princeza. Mas na hora em que o chefe do bando se atrepara no altar, tentando arrancar a coroa da santa, Abraão — que nesse tempo tinha catorze anos e estava ajoelhado, com um olho em Deus e outro no canto mais mortal de um ser humano — puxou o gatilho do bacamarte, mandando o cara pro beleléu. A partir desse dia, a família decidiu guardar a coroa verdadeira e encomendou uma réplica, em bronze. A original só ia para a cabeça da santa durante as festas da padroeira.

A tarde caiu como todas as outras tardes dos Patos. No correr da noite com certeza eles não seriam atacados, porque não teriam tido tempo os Libertadores de Princeza para organizar uma resistência. Resistindo ou não, teriam que primeiro negociar. A polícia tinha os reféns e estes somente seriam liberados mediante a rendição do coronel e de todo o seu estado maior. O coronel ia ter de entregar as armas, capitular. Sentariam para discutir os termos dessa capitulação. O comandante dos praças se alojou no escritório do senhor dos Patos e lá escreveu um bilhete, um recado para as “autoridades constituídas” de Princeza.

Depois ele deu ordens para que fechassem toda a casa, mas se providenciasse reforço na vigilância da cozinha, que era por onde iam entrar as provisões de alimentos, por onde se daria o movimento das cozinheiras e dos outros serviçais do casarão. Com certeza ninguém deixaria acabar a lenha, o carvão, faltar o fogo para o preparo do arroz, do feijão, da carne de jabá e do bacalhau, as frutas, o vinho de Abraão, o arroz vermelho sem sal com carne de cabrito, que era a dieta de dona Maria Augusta, os chás de Caluzinha, o lambedor de rapa de juá com mel de abelha e limão e alho para os cansaços do menino Rafael.

O polícia velho tirou o quepe de debaixo do braço e o enfiou na cabeça e passou a língua no envelope e o lacrou e depois trouxe o velho Abraão até a calçada para ficarem pastorando alguém passar na estrada. Vinha um menino num cavalo e o polícia mandou o velho Abraão gritar por ele e ele veio até a calçada. O velho Abraão pediu ao menino um especial favor e o menino disse sim e se prontificou e ficou logo com o cavalo engatilhado.

— Entregue isso nas mãos de Barbaciano!

— Pode deixar.

E o menino enfiou as esporas no vazio do cavalo e deu uma lapada de um lado e deu de outro e derreou o corpo franzino rente às crinas e explodiu numa disparada pela estrada no rumo de Princeza.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Lívio Oliveira 4 de dezembro de 2011 11:13

    Se Aldo for descoberto de verdade pelo Brasil, será um novo Ronaldo Correia de Brito. Alguém duvida disso?

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