Vigésimo Capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Arte: Alberto Lacet

XX

DO LEITO SECO DO RIACHO, BARBACIANO VIA A pedreira reverberando, os barreiros de argila, o poço, o sol e o acampamento dos homens. Emiliano mostrou-lhe as medições, toda a estrutura da barragem, e indicou até onde a água podia chegar, mas o coronel tinha sua atenção voltada para os caminhos de formigas que deixavam o leito do riacho em direção às terras altas. As colunas avançavam guiadas por uma estranha orientação, talvez um prenúncio da natureza. Não era uma expedição em busca de alimento, era um êxodo, porque levavam às costas seus bens mais preciosos — os filhos dentro de enormes ovos brancos. Emiliano não parava de falar e Barbaciano, incrédulo, espiava a quiçaça, o espinheiro, as pedras erodidas do boqueirão, a caatinga impenetrável. Nesses lugares, cantavam e choravam os bichos sobreviventes, o grilo, a cigarra e o sibito e também as criaturas imortais, aquelas que ninguém via, como os avozinhos e a caipora. Todos assobiavam, porque o calor afinava seus instrumentos, seus martelos e chocalhos, pinguelos de tantas gargantas. Apitavam os bichos de bico, até os de focinho, beiço, tromba e fuça.

O coronel bebia café no acampamento, quando viu a ponta de uma nuvem de capelo no nascente, então percebeu que o tempo estava mudando, despediu-se do pessoal e seguiu viagem de volta para casa. À medida que se aproximava de Princesa, o nevoeiro ia ficando bonito, se arrumando pra chover. Encontrou a filha no mirante do casarão, o rosto voltado para os lados do nascente, observando as duas enormes torres que naquela hora passavam rapando a serra do Livramento e eram as torres de um castelo, sendo que ao fundo, num campo azul, pastavam vacas brancas, enquanto um gigante de machado em punho perseguia dois meninos. Caluzinha temeu pela sorte dos pequenos vaqueiros, mas o vento fez um rebuliço lá por cima e derrubou as torres que esmagaram o gigante e os garotos se salvaram, e ainda tiveram tempo de tanger o gado celestial para o sumidouro da grande nuvem.

Caluzinha chamou o pai e apontou:

— Eu não falei que ia chover?

— Já era tempo!

Trazida pelo vento, a nuvem foi ficando cor de chumbo, apagando o sol da tarde, crescendo e zoando. E quando o povo na rua começou a apressar o passo e correr para dentro de suas casas, assoprou um vento tão medonho que destelhou várias casas e galpões e esbandalhou quase todos os oitizeiros da Rua Grande que serviam de sombra para homens e de berçários para as andorinhas. Um deles caiu no instante em que Apolinário engatilhava um ás de ouro dentro da casa de jogo de Aderbal, depois de ter perdido para Chico Florêncio cinco bois no carteado. Ele sacudiu a carta decisiva, mas não teve tempo, um galho centenário tombou sobre a casa e partiu a mesa ao meio, descendo junto com telhas, caibros, tijolos e caliça, interrompendo a partida, e por milagre não interrompendo a vida dos jogadores.

O vento açoitou de um lado e açoitou de outro e ergueu a nuvem como um balão, indo embora as esperanças de chover. Caluzinha depressa pegou uma garrafa d’água benta no oratório e correu para o quintal. Depois de se benzer, aspergiu três cálices daquela água no chão, ergueu as mãos para o céu e rezou para o vento ficar quieto. Ela fez uma promessa com São Pedro que, em assuntos de água, é o mandachuva do Céu. Se São Pedro fizesse romper as fontes do grande abismo e abrisse as cataratas do céu, pelo menos seria poupada a capela da vila onde polícias estavam cercados. E aconteceu da nuvem não ter forças para transpor o paredão da serra e arriar sobre Princeza, caindo de barriga no desvão do vale.

Então uma rede de raios, teia de fagulhas, começou a alumiar a sua base. Foi como se pipocassem focos de incêndio por todos os lugares no céu. Dir-se-ia Deus em sua oficina, em seu alto forno, um Deus-ferreiro, modelando corpos, corpos celestes que ele passava no esmeril só pelo prazer de contemplar a chuva de faíscas, de meteoros e trovões: trovão de estalo, trovão de repetição, trovão gordo, trovão surdo, trovão fofo e trovão seco, a mais estupenda pirotecnia. Parecia Deus brincando de eletricidade, fazendo arte com as coisas grandes dos domínios do fogo, do campo do céu, lá pelos azuis, pras bandas de onde nascem os coriscos e as águas. Talvez por lá estivessem as mãos invisíveis e poderosas que delineiam o arco-íris e escondem os mortos, todos encantados, vivendo o morrer para os lados do além, de Belém, de Belelém, do Beleléu.

Soberbo. Grandioso. Assustador. Havia alguma coisa de menino naquilo tudo, naquele desperdício de músculo e som, atitudes misteriosas que levam o homem ao medo e ao desvario. Não, não se tratava de malfeito, coisa feita, despacho do céu. Era um malfeito, sim, mas no bom sentido, matéria de som, luz e figura — os três elementos a um só tempo. Caluzinha tinha noção de tudo isso, porque quando era criança apreciava banhos de chuva no enorme quintal de sua casa, onde havia pomar, estrebaria, pocilga, horta e curral. Fim de tarde, ou mesmo pelos começos da noite, quando as rajadas de chuva metralhavam o telhado, a menina abria a porta e se danava para o quintal, pulando e gritando, feliz por desfrutar da liberdade de poder tomar banho de chuva. O pai a advertia dos perigos, mas ela teimava e voava o vestido fora, as sapatilhas e a calcinha, enquanto os relâmpagos garatujavam letras estranhas no céu e ela só fazia abrir os braços, sentindo a terra úmida nos pés e expondo o corpo às navalhadas de luz. Estava um dia nessa brincadeira, quando veio um trovão, uma estrovenga assim do outro mundo, que falhou, como se tivesse dado um curto, uma picotada na espoleta. O trovão, que escorregara pelos desfiladeiros da nuvem, achou de cair em cima de uma mangueira. Curiosa, a menina pegou uma vara e inventou de derrubar o troço lá da árvore. Quando o trovão caiu, ouviu-se de imediato um zumbido de mil motores. Caluzinha se afastou. Sorte dela, pois foi como se detonassem todas as dinamites do céu. O calor consumiu a mangueira em um segundo e Caluzinha foi lançada vários metros lá para adiante, contra a cerca da pocilga. Durante trinta dias e trinta noites, a pequena dormiu sobre folhas de bananeira, o corpo besuntado de goma de mandioca e de uma dezena de unguentos aviados na farmácia.

Mal bateram a última camada de argila e pedra no paredão da barragem, a chuva despencou. O aguaceiro desceu mundo abaixo esfolando tudo o que era de grota, córrego e riacho. Foram-se árvores, barrancos, algumas vacas dos baixios e porcos que dormiam nos areais. No boqueirão, garganta mais estreita do riacho — e onde as águas turbilhonavam em corredeiras no inverno — eram agora águas paradas, prisioneiras. E não adiantava ir procurar uma rachadura, uma fenda no alicerce. Se um dia tivesse de ir embora, que se infiltrasse pelos intestinos do chão, ou então se evaporasse, e acaso chovesse, que fosse além, à jusante, bem depois do paredão.

Uma multidão correu para Tavares, a vila estava em completa destruição. Os curiosos apontavam e descreviam as cenas do dilúvio. Na última das sete noites, a cada relâmpago se avistava a tora d’água, os trovões dinamitando as serras e as casas se desmanchando. A torre da igreja ficara com as águas quase tocando o campanário. Água, água, água. E os corpos de sessenta e tantos polícias amanheceram boiando na barragem.

— As cobras morreram afogadas! — suspirou Caluzinha.

Comentários

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  1. Lívio Oliveira 26 de novembro de 2011 10:09

    Em terra de poucos acontecimentos realmente importantes, há de se celebrar essa reedição meticulosamente cuidada por Aldo. Certamente, uma das melhores notícias neste ano árido da cultura. Uma clareira. Um oásis.

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