Vigésimo Nono Capítulo do Romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Arte: Alberto Lacet

XXIX

ERA OUTRA A IMAGEM QUE SE TINHA DO presidente no tratante dos influídos com mulheres. Dizia-se até que o gajo, em matéria de desfrute dos sabores femininos, a única coisa de que gozava era o prazer de tirar umas férias, umas boas e não sei se merecidas férias, coisa que ele não se recorda de haver aproveitado um dia, por conta da rotina do acordar-cedo e do dormir-tarde, para se entregar ao ócio. Era o dia inteiro a rede só coré-coré, rangendo nos armadores, a mesmice em que se resumira a vida desde quando se mudou de mala e cuia para os aposentos palacianos. Apesar de rapaz velho, e de hábitos solitários, nunca prosperou boato algum dando conta de que fosse fresco, da mesma forma que nunca se ouvira falar de seu amancebo com uma pernambucana dona de cabaré. Naquele dia o presidente fora ao seu encontro, no cais de Santa Rita, sem avisar, e a surpreendeu na cama com um homem. Perplexo e contrariado, o presidente foi tomar satisfações e o homem arrastou uma peixeira e o atacou.

Os auxiliares diretos chegaram ao bordel primeiro que as autoridades e encontraram o presidente atolado dentro de uma poça de sangue, aos pés da cama, onde um penico fumegante estava virado sobre o seu rosto. Eles torceram a cara, colocaram o corpo dentro de um carro e se dirigiram até à Rua do Príncipe, onde ficava o Hotel Central, e bem na esquina do hotel eles o estenderam sobre a calçada, dando a entender que sofrera um atentado. A polícia encostou e dentro de poucos minutos um enxame humano tomava conta da rua e das calçadas. Disseram às autoridades e à imprensa que um homem com um revólver se aproximara do presidente e disparara três vezes no momento em que ele caminhava em direção ao hotel, onde alguns políticos do seu partido o aguardavam no saguão.

O cerimonial tratou de esconder tudo. Eles eram habilíssimos na arte de dissimular, montar as situações e depois convocar o povo e a imprensa. Ninguém falou sobre os ferimentos no corpo do presidente, porque eles maquiaram tudo. Procederam de tal forma que ninguém notou os estragos que a peixeira fizera-lhe no abdome, ferimentos que os médicos, a pedido, ignoraram na necropsia. E ainda foram além: os caras-de-pau chegaram ao desplante de confirmar no laudo dois orifícios no crânio por onde teriam entrado as balas jamais saídas do revólver daquele homem honrado, cujo único crime fora uma ameaça de morte feita no forno dos acontecimentos, depois que encontrara o seu escritório invadido e a sua intimidade devassada.

Quase uma semana depois foi que o coronel veio saber que aquele tinha sido o último telegrama do homem que durante vários anos abastecera-lhe de notícias em torno dos negócios da política e da política dos negócios. Barbaciano nunca que lhe declinara o nome, de início por conta de que os partidos estavam germinando e com certeza caminhariam para o banho de sangue que se estava assistindo. Precisava resguardá-lo. Havia outros nomes, mas por estes Barbaciano guardava nojo e rancor, jamais abrira a boca para pronunciá-los, nomes que seriam capazes de ficar ecoando no céu da boca, soltando veneno, até matar o dono da boca. O principal deles era o da pessoa do presidente, depois vinha o seu secretário, pois foi esse sujeito — o dos óculos de aros redondos — o responsável por tudo. Partiu dele a ordem para a invasão do escritório, cujo dono acabou preso no instante em que telegrafava para Princeza. E há quem diga, ainda, ter sido esse tal secretário o autor da farsa em torno do assassinato.

Os liberais tinham fechado o cerco e estavam perturbando a paz de todos, por essa razão o homem decidira ir para o Recife. Hospedara-se na casa da irmã e não voltaria tão cedo à Paraíba, não que estivesse com medo dos nojentos, pois não era homem de ter medo de ninguém, nem da morte, como mais tarde puderam constatar os seus algozes no momento em que invadiram a cela, amarraram suas mãos e seus pés e um dos tais pressionou o fio da navalha sobre sua garganta e ele não moveu um músculo, não disse uma palavra. O cabra que segurava a navalha ficou esperando, em vão, por um monossílabo, um gemido, que era para ter motivo de raiva e então mover com força o braço, pressionando para baixo e chamando a mão para a direita, como realmente o fez, quase meia hora depois, penetrando-lhe a lâmina profundamente. Pela manhã, a polícia entregou à família o corpo com todos os seus pertences: um relógio de algibeira, o retrato de uma mulher, duas cédulas de cinco contos, uma aliança, uma caderneta e um rascunho de carta na qual ele pedia ao coronel Barbaciano proteção para sua amada.

Os liberais vieram em grande multidão buscar o corpo do presidente, pois precisavam dele para a celebração dos propósitos do partido, fariam uma passeata com o mártir pelas ruas da capital, para que o povo tomasse conhecimento do quanto os conservadores eram frios e covardes, e depois o colocariam num mausoléu, um monumento gigantesco que seria construído pelos parai¬banos do partido deles, pois cada um daria a sua contribuição: uma pedra, um saco de areia, uma tora de madeira, um milheiro de tijolos, um dia de serviço, uma roupa usada, um par de botinas, dinheiro, uma vaca, um galo, um porco, qualquer recurso seria bem vindo, porque os cofres do estado estavam vazios por conta do prejuízo com a guerra de Princeza.

O mausoléu do presidente, diziam eles, seria erigido no lugar mais vistoso, como uma pirâmide, para a cidade se transformar em centro de peregrinação cívica, e seu corpo mumificado, tal qual um faraó. E os puxa-sacos proclamariam a glória deste homem até nos livros sagrados, reinventando um novo Deuteronômio, com capítulos e versículos a lhes tecerem loas, cânticos e salmos. E do lado dos decaídos, dos amaldiçoados, constaria um índex encabeçado pelos nomes de Barbaciano de Princeza, seguido do homem que ficaria para a história dos povos deles como o famigerado assassino do presidente, o homem cuja fama depressa se espalharia do litoral à desertânia. A esses dois nomes seguiriam os outros, um por um, o exército todo de Princeza, até a quantidade de dois mil: uns setecentos Josés e o dobro de Severinos, Genivaldos e Joaquins de se perder a conta, sem falar nas tantas Marias, todo mundo na lista do acusador para levar fumo no Tribunal.

Para onde levaram o corpo do presidente — e o que dele andaram fazendo — pouco ou quase nada era do interesse de quem estava sofrendo na carne as amarguras da guerra para defender um naco de terra chamado Princeza. Importava, sim, é o que fizeram com o homem que nada tinha a ver com essa história. É certo que ele tencionava matar o presidente — tinha peito para isso e oportunidade um dia encontraria — mas tinha ido ao Recife — dizia no telegrama — com a intenção de se refazer da humilhação e da afronta, deixar a poeira assentar, pois muito apreciava guardar rancor, armazenar raiva. “Vingança é um prato que se come frio”, disse ele à amada, com o trem já em movimento e ela correndo pela plataforma tentando lhe contar o sonho da noite passada, que podia ser interpretado como uma premonição. Sonhara dançando, vestida de baiana, com aquela arrumação de bananas na cabeça e um bando de saguis voadores e famintos a perseguiam em rasantes desesperados à procura de alimento.

Os planos do amigo de Barbaciano haviam sido estragados por conta de um cara que achou de ir ter com a tal mulher justo naquele dia em que o presidente driblara toda a segurança para ir ter com ela. Tudo por conta dos compromissos que seriam muitos naquela tarde, uma tarde que já chegou tarde, trazendo o tal homem da peixeira só para tirar da boca de um cristão o sabor azinhavrado da vingança. Logo ele que, desde a invasão do escritório, vinha reinando uma natureza ruim. Já tinha planejado tudo, faltava apenas escolher o dia, o lugar e a hora para apertar o gatilho e ver a carga toda despachar o presidente para o Inferno.

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