Vigésimo Primeiro Capítulo do Romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Arte: Alberto Lacet

XXI

CONVIDADOS IMPORTANTES ESTIVERAM NAS BODAS dos Patos. O Sumo Pontífice não veio, mas mandou o núncio apostólico do Brasil representá-lo. Envolto numa nuvem de incenso, o cardeal desceu do carro engalanado em suas vestes de cerimônia. Ele estava tão deslumbrante, que o padre Floro Diniz, ao tentar beijar-lhe o santo anel, abrochou os lábios, mas a única coisa que conseguiu foi babar a mão de Sua Eminência Reverendíssima. A noiva, trêmula, tropeçou na barra do próprio vestido e caiu desmaiada, enquanto as Filhas de Maria, trajando os hábitos da irmandade, ficaram mudas quando viram diante de si, em carne e osso, a maior autoridade da Igreja depois do papa. Cansado e sempre se desculpando pelo atraso, o cardeal ergueu a mão com um estalo nos dedos e um padre magricela e ágil — que devia ser seu secretário — correu com um envelope trazendo o sinete do Vaticano. Era uma carta endereçada ao coronel de Princeza, na qual o santo padre agradecia o convite, justificando que sua saúde não mais lhe permitia compromissos que demandassem viagens longas e penosas.

O Jornal de Princeza registrou o casamento de Caluzinha e Nobelino como a maior festa que já se ouviu falar em todo o sertão nos últimos cem anos. Os preparativos duraram um mês inteiro. Abraão, o senhor dos Patos, mandou matar não sei quantos bois, várias cabeças de criação, porcos, aves de se perder a conta, sem falar nas provisões de caças como tatus, codornas, veados, jacus, juritis e aves de arribação. Havia uma quantidade incalculável de garrafas de uísque escocês, champanhe e aguardente, sem falar nos vinhos finos da Borgonha, esquecidos há anos nas adegas subterrâneas do major. Para as danças, o major Abraão contratou oito sanfoneiros, uma jazz band do Recife e cinco de duplas de violeiros e emboladores de coco que se revezaram durante os oito dias e as oito noites da grande festa.

O pátio do casarão ficou entulhado de automóveis, cabriolés, charretes e cavalos de raça dos convidados, gente do baronato do café, os senhores dos engenhos de Santa Cruz, sem falar nos padres, políticos e coronéis do Cariri do Ceará e da ribeira do Pajeú. Estavam ali também os carros-de-boi, burros e jumentos, que eram a condução dos pobres e trabalhadores das casas de farinha e dos engenhos rapadureiros do Bandeira, Sozinho, Tataíra, João Mouco e Saco dos Caçulas. As estradas ficaram entupidas de gente, bêbados dormindo pelos aceiros das estradas, uns vomitando e outros falando sozinhos e até mesmo bufando valentias. Enquanto isso, emboladores diziam suas loas, repentistas, com suas violas tinindo mundo afora, elogiavam o coronel Barbaciano e o seu primo Abraão, enquanto cordões de peregrinos rezavam no meio do tempo para abençoar os nubentes. Políticos e chefes de clãs, por cima dos serrotes, faziam discursos e exortavam seus filhos e filhas a seguirem o exemplo dos recém-casados.

O sol subia e Caluzinha se sentia aquecida com o sangue lhe dando cipoadas pelo corpo. Ela sentia as mesmas emoções, um farnezim medonho pelos interiores do peito, como quando há alguns dias, no decorrer dos instantes furtivos em que se deitava com Nobelino. O frio entrava pelas frinchas da janela do quarto, sempre aberta para facilitar a entrada do filho do senhor dos Patos. De tempos em tempos, Nobelino aparecia como que vindo do oco do mundo, trazendo o sangue quente das refregas. O frio escorregava das serras ao derredor e adiava o café-da-manhã dos amantes, prolongando o gozo deles no fundo da caverna dos cobertores. Era dura a vida assim, separados um do outro. O tempo se espichava lento e lhe dava fadiga, doíam-lhe as feridas do corpo, mas o maior sofrimento partia daquela chaga aberta em seu coração: a saudade. Nobelino chegava das frentes e perdia muito tempo pelas calçadas, com o povo em cima querendo saber de tudo. Enquanto isso, Caluzinha o aguardava em casa, louca para vê-lo entrar por aquela porta, a roupa podre, empapada de suor e poeira, o corpo esguio e forte com os penduricalhos, os bornais, as armas, o chapéu, as alpercatas gastas, as feridas pelo corpo, uma miséria. E ela ia correr depressa e amornar água para dar-lhe um banho, limpar-lhe as feridas e depois mergulhar junto com ele na cama. Por vezes lhe faltava a paciência e mandava o povo ir embora.

— Não tão vendo que ele está morto? — gritava Caluzinha, arrastando-o para dentro de casa.

Em pouco tempo já estavam no quarto. As molas da cama metiam o pau a ringir. Nobelino também. Ele rangia os dentes. Tinha pouco tempo para ficar ali.

— Cadê o menino?

— Está dormindo.

— Ele nem vai me ver.

Vez em quando Caluzinha se lembrava dos apelos de Barbaciano. Ele queria a filha em casa, ela e o neto, ao menos por esses tempos de dureza, os tempos do enfrentamento, dos medonhos desesperos da guerra. Mas Caluzinha não lhe dera ouvidos, antecipando o casamento. Não suportava mais aquela reclusão, sem um homem com quem pudesse dividir a cama, os cômodos da casa, exercitar plenamente os seus desígnios de fêmea, ter mais filhos e amar muito todos os dias. Ela sabia que para tudo havia o seu tempo, inclusive o tempo de cansar de ouvir o pai recitar o Eclesiastes. Morar ali nos Patos de Princesa — para onde se mudara depois das núpcias — era um aperreio de vida. A casa tinha o aspecto austero e sombrio de um convento. A ventania assobiava nas cornijas e, quando vinha com mais força, dava assopros de toneladas nas paredes revestidas de musgos e hera. O cheiro de flores vinha da fileira de latas e xaxins dispostos ao longo das paredes de tijolos nus, onde lagartixas antediluvianas assentiam com a cabeça e devoravam abelhas e mariposas.

Durante os primeiros dias, Caluzinha foi sacudida por terríveis pesadelos. O pior deles foi quando acordou um dia com o corpo moído, como se tivesse levado uma surra de vara. Abriu os olhos e percebeu que o lastro da cama estava ao nível do chão e havia roupas espalhadas por todos os cômodos da casa. Primeiro acalentou o menino, depois de encontrá-lo no chão, aos berros. Ela o tomou em seus braços e ficou perplexa quando chegou à sala de jantar e encontrou a cristaleira totalmente vazia, como se alguém a tivesse aberto e apanhado as peças uma a uma e as atirado contra a parede. Na noite seguinte, antes de dormir, muniu-se de uma corda e se amarrou. Ao despertar, percebeu que tinha marcas da corda pelo corpo, os pulsos em carne viva de tanto fazer força, mas as cordas resistiram.

Bicho bruto era quem dormia amarrado. Caluzinha ponderou que não passaria mais por semelhante situação. Então correu para a casa grande e relatou todo o ocorrido. Depois de escutar a nora atentamente, dona Maria Augusta mandou chamar imediatamente o sobrinho Floro, padre em Triunfo da Baixa-Verde, para benzer a casa. Padre Floro Diniz veio correndo, pois um chamado da matriarca dos Patos, sua tia-avó, era mais do que uma ordem. Aproveitaria a viagem para celebrar uma missa na capela da família e, de quebra, ia trazer um barril da boa aguardente do alambique do tio-avô. Mas a água de sua atenção, tão logo entrou na casa de Caluzinha, passou a ser outra, a benta, que ele aspergiu no quarto. E deu-se que a água depressa foi chupada pelas lajotas marrons do piso. Ele fez isso repetidas vezes e considerou, por fim, que o Raivoso não estava por ali.

— Como sabe?

— O Diabo não bebe água benta – disse o padre.

— O que o primo acha que é isso?

— Falta de homem, prima.

Caluzinha desconsiderou o teor ofensivo da afirmação, levando em conta a intimidade do laço familiar.

Conviver com esses desassossegos não era pior do que a falta que lhe fazia Nobelino. Essa guerra nojenta de há muito que lhe tirara a alegria de viver, pois era duro saber que seu marido estava sofrendo naquelas brenhas, dormindo em ocos de pau, locas de pedra e cavernas, no meio de cobras, caranguejeiras e escorpiões. Caluzinha não sentia mais vontade de comer, então aproveitava para se entregar a jejuns prolongados. Emagrecia a olhos vistos. Temia cair nas mãos dos inimigos. Afinal, tinha um filho, uma família para botar sentido e zelar. Visitava sempre os sogros, onde passava mais tempo do que em seu próprio lar. A casa grande do major Abraão ficava a um grito e meio de distância do arruado. Caluzinha quase sempre passava o dia todo e às vezes dormia por lá, roendo de saudade de Nobelino. Na verdade, ela não dormia, ficava a noite inteira em claro, ouvindo passos no soalho de madeira do pavimento superior da casa. Raras vezes em que não chegara a ouvir o tilintar de talheres, taças e chávenas escorregando pelas mesas, cadeiras arrastadas, gritos de crianças, rumor de muita gente. Tudo levava a crer que os mortos habitavam aquele ponto da casa, que os avoengos do major e de dona Maria Augusta todas as noites vinham ali para os saraus, para as rodas de conversa. Uma noite dessas, enquanto ouvia crianças entoarem cantigas de roda, percebeu que o filho não estava na cama. Então caluzinha deslizou pelo corredor e, e ao passar diante do vão da escada que levava ao sótão, ouviu passos.

— Filho, volte aqui!

— Vou brincar com eles — respondeu o menino no meio da escada.

— Venha, mamãe precisa lhe falar umas coisas!

O menino obedeceu e voltou, mas ficou aguardando o que a mãe tinha para lhe dizer. O sono chegou primeiro. Ele deve ter esquecido. Melhor assim, ponderou Caluzinha. As crianças continuaram a cantar, até que suas vozes foram abafadas pela orquestra dos galos-de-campina, golinhas, pintassilgos, sabiás e azulões que todos os dias tomavam conta do quebrar da barra.

Desse dia em diante Caluzinha evitou pernoitar na casa grande dos Patos. Fazia o possível para não sair à noite. Mas era muito triste quando escurecia. Não havia um divertimento. Não recebia visitas, do mesmo modo que não visitava ninguém. Não podia contar com a vizinhança para nada desse mundo. Podia gritar de morrer que ninguém acudia. A vizinha da direita era uma velha senhora que passava boa parte da noite arrastando os pés pelo meio da casa, sempre cantando numa voz insuportável uns fados antigos certamente que aprendera com os avós portugueses. Quando não estava cantando, a velha cuidava das crianças. Os pais tinham ido para as frentes de batalha. O único homem da casa era paralítico e vivia em cima de uma cama. Mais adiante morava Águeda Cordeiro com seus netos. Na rua da frente, quase todas as casas estavam fechadas, um deserto medonho era Patos de Princeza sem seus homens. Na cozinha de dona Águeda, entre um gole de café e outro, os netos ouviam histórias de assombração.

— Vovó, mais café! — pediam os pequenos, para não terem de ir para a cama mais cedo e ficarem à mercê das mulas-sem-cabeça e dos lobisomens. Na imaginação das crianças vadiavam histórias de cadáveres dependurados em árvores como aquele que o padre mandou arrancar à meia-noite do cemitério de Princeza para depois abandoná-lo numa serra. E ainda tinham as vítimas das volantes do governo da Paraíba, soldados que não obedeciam à lei alguma. Alguns desses canalhas viviam roubando as criaturas pelas estradas, saqueando sítios e fazendas, ao modo dos cangaceiros, que também matavam e roubavam, mas levavam vantagem sobre os desviados da lei, porque ofereciam seus serviços aos ricos, bajulavam-nos em troca do coito tranquilo das fazendas.

Foi aquela romaria depois que correu a notícia do tal corpo incorrupto e santo, desenterrado por ordem do padre e levado para a mata. Dia e noite, gente carregando pedras na cabeça, arrastando cruzes, andando de joelhos, sofrendo o diabo. Em menos de uma semana estava lá o arruado, umas trinta casas de taipa ao redor da capela, para onde levaram o santo. O arruado crescia da mesma forma que cresciam as conversas, um trancoso danado em função desse defunto. As histórias iam se espalhando, mas acabaram em poucas e mal traçadas linhas garranchadas pelo auxiliar de escrivão da subdelegacia do distrito de Jericó, onde um almocreve perneta de Vila Bela denunciava o assassinato de seu irmão, enforcado por um tenente da volante que estava com o rabo cheio de cachaça.

Dona Águeda teve dezenove filhos. Três morreram de disenteria, dois de emboscada, um de queda de cavalo, dois afogados, dois foram pro Amazonas, um ela não soube precisar exatamente que fim levara, e dos oito que partiram para a guerra, apenas cinco retornaram. Dona Águeda lembra como se fosse hoje o dia em que viu sair um atrás do outro, Zé, Severino, Antônio, Joaquim, Pedro, João, Anacleto e Raimundo. Raimundinho ou simplesmente Mundinho, Mundico, o mais novo, era o mais enfronhado de todos. No dia da partida, ele raspou o bigode, as penugens falhadas acima do lábio superior. Tinha quatorze anos. Naquele meado de fevereiro, lá pelas sete horas da manhã, Águeda sentiu um aperto no coração quando viu seus filhos partindo para a guerra, todos entonados em seus uniformes de campanha.

— Se nós não voltar, crie os bichinhos — foi o que mais lhe pediram os filhos, antes de serem mandados para o reforço de Alagoa Nova.

Mundico não voltou. Nem Pedro. Severino também não. Quantos como eles não ficaram estirados no meio dos mandacarus. Eram cinco horas da tarde, Dona Águeda estava deitada numa rede no alpendre, quando sentiu um estalo dentro da cabeça e um desespero de angústia espetando-lhe o coração. Ela espiou depressa para a parede e lá estava, igualzinho ao seu, o registro da Mater Dolorosa trespassada de dor. E num sobressalto, cravou os olhos no horizonte, entre a estrada e o céu, foi quando um beija-flor vindo das touceiras de jasmins deu três voltas em torno de sua cabeça e sumiu. Nesse instante ela sentiu uma lufada de vento ruim trazendo o cheiro das flores com que enfeitaria, no dia seguinte, os caixões dos filhos Pedro, Severino e Mundico, mortos no combate de Alagoa Nova. Dona Águeda, ela que os pariu e criou, também tinha coragem para sepultá-los. E o faria com a mesma determinação como quando enterrara os umbigos deles no curral, com a mesma devoção como quando dera a ordem para que jogassem os dentes de leite e dissessem três vezes: “Mourão, mourão, pega teu dente podre e me dá o meu são!”.

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