Vigésimo Quarto Capítulo do Romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Arte: Alberto Lacet

XXIV

GUABIRABA DEIXOU ALAGOA NOVA, PARTIU COM tanta pressa que esquecera o rosário e a faca. Levava uma patrulha escolhida desde a véspera dentre os homens da defesa, os mais valentes, os mais capazes. O desfalque não lhe daria dor-de-cabeça, nenhuma preocupação, pois há menos de uma semana empurraram toda a polícia de volta pro Piancó. Eles bateram em retirada depois de tantos mortos cozinhando nos serrotes, estendidos debaixo dos juazeiros.

O recuo se dera depois das seis. E os cujos sem futuro arribaram debaixo de tiro e faca. Depois dos aboios de Emiliano, foi que a noite caiu. Uma enorme pálpebra se fechara, sombra monstruosa trazendo consigo o silêncio só para embalar o sono dos homens. Deitados nas redes armadas ao relento, eles nem davam fé das almas penadas dos soldados zanzando pelas veredas, muito menos dos sonhos que as redes inutilmente capturavam no correr da noite.

Guabiraba partiu tão logo fora avisado do atrevimento deles lá nos Patos. Assim que soube do havido com as mulheres, deu-lhe na cabeça o ardor do endoidecimento. Guabiraba botava sentido mais em Nobelino, por conta dele querer meter dos pés e só com a ira se botar no meio do mundo, partir pro esfolamento de tudo que topasse pela frente lá nos Patos e retirar de entre os dentes dos canalhas a sua família. A notícia desabou como uma montanha sobre os homens.

O coronel só tomaria uma decisão depois que chegassem os seus amigos, depois de ouvir seus conselheiros. Já tinha vindo consolá-lo o padre, que se retirou com a chegada do doutor. O pároco tinha se ido sem esperar pelo café, anunciado ainda há pouco por Minervina que gritara do corredor. O doutor Nepomuceno apressara-se com um calmante aviado a pedido dela. Barbaciano precisava ficar calmo naquele instante.

Antes da notícia do havido lá nos Patos, o coronel já tinha tido um aborrecimento. Japonês lhe exibira o balancete, um horror de dinheiro no gasto com os mantimentos, remédios e munição, além do pagamento de parte da cabroeira. De uma nação de dois milheiros, só a metade brigava de graça, uns por conta do parentesco e outros por consideração, sem falar nos que entraram na briga por inclinação, feitiço de valentia, diversão, espírito de aventurança. Os demais, cabras do eito, que viviam de suas roças, careciam de receber gratificação, enquanto não viesse bom inverno, enquanto durasse a guerra.

Não foram poucos os que se alistaram por inveja. João Triângulo foi um deles. Babava quando via os caras entonados em suas fardas de campanha. As calças que as mães engomavam com tanto orgulho, sem falar nos coldres novos, nas armas bem azeitadas, as cartucheiras, os fuzis e os bornais. João Triângulo queria ser um libertador, para exibir a vestimenta bonita e os ferros gerais do trabuco, paus-de-fogo de se agir na guerra. Instrumentos nobres eram aqueles, que serviam para matar os inimigos, ampliar o senhorio, o mando, o mulherio, diferente dos ferros da roça, que eram de fazer vergonha, troços de maldição, inventados para o homem arrastar cobra pros pés e pagar os pecados de Adão.

Falando em roça, ano chovedor muito ruim tinha sido aquele. Logo em janeiro voou a rolha da boca do mundo, depois o vento veio e afolosou a temperatura. Então o céu não teve mais como acalmar o nevoeiro, administrar os elementos. E no correr de poucos dias foi tanta chuva que encheu açude, caldeirão, tanque, barreiro, cacimba, riacho e poço. E lá se foram as águas deixando o chão um enorme escalavrado. Quarenta dias de chuva noite e dia sem parar. Quando por fim veio o estio, o povo pôde sacudir do corpo o mofo de tantos dias de umidade, e finalmente sair de casa para o refazimento do desmantelo: retelhar as casas, desentupir cacimbas, refazer os muros, as estradas, as cercas, recapturar os animais, o diabo. Aí, quando vieram se lembrar de que tinham de plantar milho, feijão de corda, andu e mandioca, o que era batata-doce acabou-se. Estava seca a terra mais uma vez.

— Todo ano fechado, com zero no fim, é ano ruim! — sentenciou João Severino, dando uma de profeta e decifrador de sonhos, ciência cujos rudimentos aprendera lendo o Lunário Perpétuo, sem contar com o adjutório de Clementino do Livramento, sábio das ciências ocultas que melhor não havia em toda a redondeza, das nascentes do São Francisco, no sul, aos confins do norte; do fim do mundo, ao poente — onde existiam as montanhas geladas e habitavam os grandes pássaros — até o mar, na ilha dos reis gigantes, que era governada por um monarca cem vezes mais alto do que as maiores ondas que se arrebentavam nos penhascos.

— Há muito que venho advertindo — relembrou João Severino, com a panca de homem de experiência, sujeito de muitas eras, léguas e milhas. Ele sempre disse isso. E disse mais: eu digo e provo. Um ano que rima com cinta não merece confiança. Cinta é para apertar barriga. Ano de aperto era aquele, ano de gente muito da faladora, a língua açoitando o céu da boca para pronunciá-lo. E do céu de lá de cima, João Severino foi a única pessoa que mal dele andou falando. Trabalhava como um burro, o algodão morria na flor, mas não chovia na sua roça. De noite ele uivava para a lua, fazendo munganga para Deus pensar que ele estivesse endoidecendo.

Naquele dia ele riscou o chão com a ponta da faca e falou para toda a assistência:

— Dizendo, parece não, mas escrevendo é o que se vê; o número um é esguio como um retirante, judeu errante desde os tempos de Jesus! E seu companheiro de jornada é este corcunda aqui, que anda com um saco cheio de vento e está sempre a nos tanger para outras terras — acrescentou, escrevendo o nove.

Depois João Severino riscou o três e garantiu:

— Eis a metade do oito!

Era, não era. Podia, não podia. Foi aquela teimosia.

— Bote o oito em pé e com o machado lasque ele de cima a baixo. Aí você vai ver que a metade de oito é três e não quatro, muito menos alguém de quatro, embora se note uma parecença de bunda — disse.

Faltava o último número, pois, para João Severino zerar a conta, fechar o círculo de fogo de seu engrolado de adivinhação, explicar os segredos da numerância, os determinos do vir-a-ser, porque do sendo todo mundo já sabia.

Esse aí, explicou ele, fazendo uma roda no chão, o nome já diz tudo. Seu valor depende sempre do valor que os outros têm. Sozinho não vale nada. É como certas pessoas daqui de Princeza, que nasceram para viver à sombra dos outros, andar na contramão do certo e do aprumado. fazia do zero se encaixavam como uma bainha no tipo de gente que se tornara José Apolinário Neto, que de uma hora para outra resolveu ser traidor. Bem que podia ter guardado sua ruindade para quando depois de acabada a guerra! Não agora. Todo mundo sabia que Apolinário estivera em Piancó, em conversa com os salafrários da banda do presidente. Barbaciano de tudo fora informado, inclusive de que os tais incitaram Apolinário a fazer germinar nesse fim de mundo uma nação de oposição. E tão logo o coronel fosse esmagado, somente ele, José Apolinário, teria queixo para assumir o comando do lugar.

José Apolinário foi o único filho de João Sem-Medo que herdou do pai apenas a cor da pele. Nascer com um toco de rabo fora castigo por demais bem merecido. De um dia pro outro o homem virou dono de estabelecimento comercial na Rua Grande, comprador de milho, algodão e feijão, vendedor de todo tipo de mercadoria. Sobrevivera a um desastre de trem. Foi o único que escapou. Nesse dia só ia gente endinheirada, caixeiros, comerciantes ricos e baronesas do sertão que iam fazer compras no Recife. A cabine do trem ficou uma desgraça. Um negócio de ferro esmagou as duas pernas do maquinista que, dizem, ainda estava agonizante quando recebeu uma pedrada de misericórdia na cabeça. José Apolinário disse que pulou na hora em que o trem descarrilara na ponte. Sentiu só uma pancada na cabeça e quando acordou estava em cima de uma cama, o quengo todo enfaixado e cheio de curativos pelo corpo.

Naquele dia um avião sobrevoou o território e despejou uma chuva de papel sobre a cidade. No primeiro trovejo que ele deu no meio das nuvens, o povo todo correu para as calçadas e houve até quem fugisse da cidade, uns na carreira, outros a cavalo ou de carro. Houve casos de criaturas que na hora do aperreio se socaram debaixo das camas, crianças, mulheres, dizem que homens feitos também. O susto foi tão grande que morreram do coração uma moça, uma mulher gorda e um homem já de idade. O coronel deu ordens para a defesa apontar seus canos para o alto e ficar de prontidão. O vento estava muito forte, que era besteira jogar papel naquela altura, pois que a primeira leva se espalhou na ventania, indo cair por todo canto, até bem para lá de muito longe, pelos matos da Timbaúba, da Serra da Vaca Morta. Também era besteira deitar fora munição. E saíram Tonho do Baixio e Laurentino Cobra-Choca, os dois em toda carreira. Onde passavam eles alertavam a todo mundo. Que ninguém mais atirasse no avião. As folhas caíam e tinha que ver rasga-mortalhas descosturando o espaço que era pra má notícia inteirinha chegar no chão, pro recado avoante se aninhar por sobre as árvores, se estender por cima dos lajedos e no esburnido das estradas.

Até na Cabeça-do-Porco, onde ia Guabiraba com sua tropa, o vento chegou a jogar papel. O recado estava dado, a folharada repetia o desaforo, o despautério do secretário. Ele dizia que os homens de Princeza não tinham mais para onde ir, precisavam se render, entregar suas armas que suas vidas seriam garantidas. Guabiraba disparou numa gargalhada que pendeu com todo corpo para trás. Quem eram eles pra garantir a vida de um cristão? Esses cornos não eram Deus, eram lá nada! Podiam vir com o que desse na veneta da ruindade, que mandassem o bombardeio, consoante a ameaça, que daqui ninguém arredava. Tinham coragem e munição para enfrentá-los. E se um dia no céu alguma coisa zoasse e não fosse rasga-mortalha, carcará ou assombração, e se suas tripas de aço à bala não se cortasse, chamaria os vaqueiros de Princeza para derrubá-la a laço.

Guabiraba amassou o papel e com a marreta do seu braço meteu ele no fornido do serrote, na ignorância da laje:

— Estão vendo? Eu faria o mesmo com o presidente, ele e seus puxa-sacos. Pegava um a um pelo calcanhar e metia na laje só para ver as bostas saindo dos quengos deles, porque em cabeças de sujeitos dessa qualidade não pode ter outra coisa não. Queria ver os cacos dos óculos do secretário, a armação engembrada, um rachão na careca para a ruindade escorrer de lá de dentro, cuspir o carnegão, só assim nunca mais ele ia pensar em mandar desaforo para os homens de bem de Princeza. E se por acaso um dia mandasse, viesse ele mesmo, com os seus pés pelo chão, que é por onde andam as cobras e os guaxinins, peito a peito, cara a cara. E nunca assim pelos ares!

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezessete + um =

ao topo