Vigésimo Quinto Capítulo do Romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo



Arte: Alberto Lacet

XXV

O POLÍCIA VELHO DEU UM PULO DA CADEIRA COM O estampido do primeiro foguetão.

— O que foi isso?

— Vai começar a novena — disse Abraão, olhando para a esposa que rezava desde quando a fizeram subir praquele sótão. Quase uma dúzia de fogos foi para o céu avisando da novena nos lugares aonde o sino não chegava, o mesmo sino de dobre sereno e compassado que a vida inteira tocara para Maria Augusta tocar a vida. Desde que a guerra começou, antes disso, bem nos primórdios, nos rumores do princípio, que ela sempre estivera com seus terços e rosários pedindo a Deus a relíquia de fazer sarar a alma do afilhado Barbaciano. Devia ele dar um basta nessa guerra desumana e sem sentido. Subjugada, Maria Augusta ouvia o sino tocar e ia imaginando a luta das colegas da Irmandade. Naquele instante, deviam de estar muito nervosas, envolvidas nos preparativos dos ofícios, umas às voltas com os noitários e outras correndo a sacola entre os fieis recém-chegados.

Maria Augusta só pensava nas colegas de irmandade, todas sempre muito atarefadas lá por dentro da capela, umas aguando as jardineiras, lavando as toalhas do altar e outras trocando a roupa de Nossa Senhora, que era tão pouca, só a túnica azul-turquesa, meu Deus, e o véu branco sobre os ombros — e sem nada por debaixo. Todas as mulheres, até as freiras, precisavam de roupas íntimas, menos Nossa Senhora, porque tudo dela era esculpido na madeira, madeira de lei, sem nenhuma rachadura. E só um escultor idiota cometeria o sacrilégio de trabalhar no entalhe dos realmentes.

A velha cochilava de rosário entre os dedos. A boca não parava um só instante com a moagem, a saliva azeitava as rezas sabidas todas de cor. O movimento pendular de sua cabeça pontuava entre as orações “vosso ventre, Jesus” e “nossa morte, amém” de cada ave-maria. Ela ouvia o repicar do sino e imaginava que naquele instante estaria a puxar a corda uma daquelas incansáveis companheiras, alguém que certamente sobrara de algum dos afazeres da morada do Senhor, ou de propósito dera cabo de obrigação do seu encargo só pelo prazer de poder tocar o sino.

O polícia velho chefe do batalhão também cochilava enquanto aguardava a volta do rapaz que levara o bilhete ao coronel Barbaciano. Carecia de saber ele que haviam armas apontadas para pessoas de sua família. Pouca vergonha lançar mão de modos tão sebosos como aqueles – e ainda por cima em nome do governo –, mas numa situação dessas não se podia exigir vergonha de ninguém. O presidente não dispunha de meios para uma invasão, com sucesso, ao reduto de Princeza, por isso que as coisas tinham de ser feitas na manha, na covardia.

O lugar do encontro estava indicado no bilhete: Cajueiro. Ali eles deveriam negociar. Noite Grande não era de se preocupar com o ir-sozinho, garantira-lhe o chefe dos polícias. Até podia – disse ele – se quisesse, ir desarmado, pois naquele escrito destinado ao coronel os homens do governo tinham sido despachados além da conta. Amanhecesse e Noite Grande não voltasse, criatura viva nenhuma eles deixariam dentro daquela casa. Com resposta ou sem resposta, pouco importava, contanto que o negro retornasse.

Noite Grande andava nuns passos miúdos e ágeis como um chouto de cachorro, exibia o ouro de seus dentes com grande gosto, ria-se por qualquer coisa, com aquela carona preta e gorda e os olhos redondos muito vermelhos. A roupa lembrava a farda da polícia-volante, assim meio da cor dos pés-de-pau do mato, da cor dos serrotes e da terra, que era para ficar camaleão, sem falar no chapéu com adereços de espelhos e a fartura de anéis. Era homem resistente como burro em rota de veredas pedregosas, daí dizer-se que Noite era filho de duas espécies do sertão: o cangaceiro-jegue e a polícia volante-égua, pois o homem servia aos dois com incrível fidelidade. Dependendo das circunstâncias, comia dos dois lados a um só tempo, falava a língua deles e quase sempre com ambos se confundia.

Enquanto aguardava o retorno de Noite Grande, o chefe do batalhão nem sonhava que naquele exato momento Nobelino quebrava as unhas no escuro por cima da serra do Pau-Ferrado, já bem perto deles. Não podia imaginar, também, o velho oficial, que naquele instante Noite Grande já estava do inferno para dentro e suas orelhas nada ouviam, chacoalhando no bornal de Guabiraba.

Guabiraba — que viera em busca de mais homens — encontrou Barbaciano em profunda prostração. Ele sabia do perigo que corria sua família. Mas em breve tudo estaria resolvido. As palavras de Guabiraba soaram como um consolo. Nobelino avançava, mas ficou acertado que qualquer iniciativa de enfrentamento somente seria tomada depois que Guabiraba desse o sinal. E para distrair o coronel, ele meteu a mão no bornal e puxou as duas orelhas de Noite Grande dentro de uma trouxinha feita com um lenço. Um fedor de insosso logo se espalhou dentro de casa.

— Que diabo é isso?

— Orelhas.

— De gente?

— Sim, senhor.

— Por que não enterrou essa carniça? — indagou o coronel.

— Se eu disser quem era o dono da cabeça de onde elas foram cortadas, o senhor vai mudar de opinião — brincou Guabiraba.

— Pois diga logo!

— Noite Grande.

— Noite Grande?! – exclamou o coronel um pouco reconfortado.

— Os macacos mandaram ele se encontrar com o nosso pessoal em São José.

— Ora, mas então o homem foi mandado para negociar e vocês o mataram? Não deviam ter feito isso. Sabe Deus o que os desgraçados são capazes de fazer com aqueles inocentes lá nos Patos.

— O sujeito estava lá, a mando dos polícias, fazendo aquele arrodeio nojento de conversa sem futuro, sabe como é que é. O pessoal trancado lá nos Patos, e os polícias com as armas apontadas para eles. Quando dei por mim, já era tarde. Não consegui segurar Nobelino, muito menos a faca que num raio foi logo encontrando os couros e as carnes e os ossos de Noite Grande pela frente. Quando vi que não havia mais nada a fazer, liberei o pessoal e todo mundo se vingou. Cada um deu a sua facada. Eu, de minha parte, fiz isto que o senhor já viu, disse,guardando as orelhas no bornal.

— Um leva-e-traz da pior categoria — comentou o coronel.

Depois que fora expulso do bando de Virgulino, há alguns anos, Noite ficou sem saber o que fazer, cansado daquela vidinha sem trabalho e sem diversão. Era homem para viver em bando, se divertir demais nos cabarés, afanar os trancelins caros das baronesas, beber vinho francês e dançar e escutar viola tinir em noite de lua. Noite Grande se cansou de esperar convite para algum bando aí qualquer, então decidiu arrumar uma ocupação, uns servicinhos de encomenda pra ir levando a vida, até enquanto formaria o seu próprio bando, para ser o capitão, o chefe, o rei, o maioral, pois de viver sendo mandado já bastou o tempo que passou com Virgulino. Noite Grande nunca se acostumou com outro homem mandando nele. Um dia ele resolveu se indispor com o chefe Virgulino. A briga deu-se no dia em que o coronel mandou seu pessoal botar Virgulino Ferreira para fora dos Patos. Noite queria ficar e enfrentar as cobras do coronel Barbaciano, mas Virgulino não concordou. E assim, tiveram de correr “debaixo de chumbo, cacete e faca”, como gostava de dizer o coronel.

Um dia Noite Grande criou coragem e foi em Princeza oferecer seus serviços a Barbaciano.

— Mas o que você sabe fazer?

— Tanger gado e matar gente.

— Então já vi que não preciso de seus serviços. Gado eu não tenho mais; e quanto a matar gente, isso nunca foi ocupação — disse o coronel, irritado — e ponha-se já para fora de minha casa!

Depois disso, Noite Grande nunca mais botou os pés dentro de Princeza. O “fora” do coronel não estava adstrito apenas ao espaço físico de sua casa, se estendia a toda a extensão do território. Noite Grande se socou em Vila Bela, mas ficou o tempo inteiro mandando recados desaforados para Barbaciano. Bastava ver alguém subindo pela estrada de Santa Cruz, que Noite se chegava e lá vinha com a mesma conversa de sempre. Diga a ele que o meu bando já está quase formado e assim que eu tiver condições irei fazer-lhe uma “visita”. Os recados de Noite eram assim, curtos e reticentes, bem ao estilo do ex-chefe Virgulino, que passou toda a sua vida de cangaço mandando recados para Barbaciano e o que ganhou foi uma carreira, o coronel mandou arribar com ele dos Patos e das cercanias e nunca mais o cujo atrevido e fanfarrão pendeu por essas bandas, da mesma forma que nunca teve peito pra ir até a cidade “visitar” o coronel, o Rei de Princeza.

Guabiraba já estava com tudo pronto para zarpar, tinha até se despedido, mas ainda estava no meio da rua arrumando a cabroeira, quando chegou a notícia da fuga dos prisioneiros. O guarda quando veio desconfiar já era tarde e lá estava o rombo na grade da janela de ventilação. De cinquenta presos que tinha lá, apenas cinco haviam escapado. Horas depois, ao tentar se explicar ao Conselho de Guerra, o guarda admitiu que deixara entrar uma mulher que trazia um par de alpercatas para um sargento de nome Napoleão. Os dois pedaços de serra não podiam estar dentro do solado das alpercatas? O que o senhor tem pra nos dizer? O homem deve ter dado uma desculpa qualquer para a comissão. A comissão por sua vez deve ter dado outra desculpa para o coronel. Não é para isso que servem as comissões? O coronel deve ter dito deixa pra lá que isso não interessa mais caralho nenhum. Homem despachado, talvez ele nem tenha dito nada, pelo fato de ninguém ter aparecido para comunicar-lhe da ocorrência. Comunicando ou não, o certo é que ele sempre tinha uma resposta, uma resposta não necessariamente nesses termos — no caso de haver se referido às conclusões da comissão — pois que palavras como caralho e outras do gênero nunca foi do seu feitio pronunciar.

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