Vigésimo Sexto (Antepenúltimo) Capítulo do Romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

Arte: Alberto Lacet

XXVI

A NOITE SE ESPRAIOU PESADA E TENSA, TANTO QUE se tinha e impressão de alguma desgraça em processo de preparação. Tirante as crianças e as moças, o resto era uma tristeza só, especialmente os velhos, sempre em silêncio, trazendo nas mãos os terços e o reumatismo do frio de maio. O que estaria acontecendo na casa do senhor dos Patos? Por que o velho e a velha não deram o ar da graça justo no dia em que eram noitários? E quando se anunciou que todos deviam se pôr em filas para acompanhar a santa, os turíbulos agitados pelas mãos nervosas dos coroinhas logo formaram grandes nuvens de fumaça, tanta fumaça que Guabiraba jurou ter visto Nossa Senhora descer sozinha do altar e caminhar com suas próprias pernas até o andor onde seria transportada.

Estava escuro e cada um devia carregar a sua lanterna como quem carrega a própria sina. O que eles chamavam de lanterna era uma vela comprida com um funil de papel encarnado para proteger do vento a chama. Na saída da capela, Guabiraba se meteu entre as senhoras da Irmandade, incomodado com o corpete lhe apertando por dentro do hábito escuro e longo, além daquela touca infame, quase a lhe cobrir os olhos. O vento soprava a vela e ele se lembrava de quando era menino. “Confie em Deus e bote a mão no umbigo”, diziam os mais velhos, que era para o candeeiro não se apagar. A mão no umbigo talvez fosse o modo de dizer, não tendo significado algum que não inteirar a frase, encorpá-la, pois bem que podia se botar a mão em outro lugar. O que importava mesmo era a confiança em Deus, azougue que mantinha todas as chamas acesas, inclusive a do inferno, para torrar nos tachos de chumbo derretido os homens de pouca fé, os bodes, os mandriões.

Todos cantavam com a cara da tristeza de saber que não tinham mais ali ao lado os pais, irmãos, tios e primos que os acompanhavam todos os anos, os machos fortes agora nas frentes de combate. E o canto triste partia de lá da frente, de quem ia conduzindo o andor, que eram as incansáveis senhoras da Irmandade, as boas e velhas rezadeiras que vieram em peso naquela noite, metidas em seus hábitos, com aqueles estranhos chapéus, verdadeiros capuzes a lhes ocultar os rostos, todo o séquito, interminável cobra-de-fogo que se arrastava no rumo da casa do senhor dos Patos de Princeza.

Pela primeira vez na vida, o velho Abraão e sua mulher se ausentavam das celebrações e dos ofícios da novena, especialmente na noite por eles apadrinhada, que sempre foi a mais animada do mês de maio. Todos os anos, multidões enchiam as estradas, seguindo os passos de Nossa Senhora. Quando o mestre de cerimônia botava a mão no cancelão do pátio da casa grande para dar passagem à santa, o velho estalava os dedos e os homens davam início ao foguetório. Com seus fogos, os homens tentavam atingir os balões e as crianças corriam no meio do tempo, juntando as flechas dos foguetões que o céu devolvia. Depois vinham as rodas-de-fogo e as girândolas, mas o melhor mesmo eram os bacamarteiros. Eles saíam de dentro de um galpão, todos em fila indiana, e apontavam um a um o cano para o chão e iam apertando o gatilho de seus artefatos. Depois, todos disparavam em uníssono que as serras aluíam. Assustadas, as crianças olhavam para o céu e faziam figa, achando que o universo podia cair por cima deles.

Naquele noite, Guabiraba espiava para a casa-grande e via só o escurão. Diferente dos anos anteriores, quando o pátio ficava todo iluminado. Dona Maria Augusta todos os anos se desdobrava no capricho e na arte de enfeitar a capela para receber Nossa Senhora. A santa vinha e ficava por uma hora dentro da capela que era contígua à casa, e de lá emanava o fedor de bosta de morcego misturado com o incenso das celebrações e dos ofícios. O altar pequeno, porém majestoso, tinha a forma de arco, um magnífico arco em pedra que encerrava esmerado trabalho de cantaria.

De lá de longe os polícias já deviam de estar apreensivos. E nem dava pra se imaginar o que os cachorros estavam dizendo um para o outro ou indagando do velho Abraão ou de Caluzinha – morta de cansada, com o filho dormindo no colo – o que diabo era aquilo e para onde eles iam assim cantando e com aqueles luzeiros parecendo vaga-lumes. E se alguém tivesse de dar alguma resposta, com certeza diria que a santa ia entrar na capela por alguns minutos, só o tempo de se puxar um rosário, e depois do rosário, tinha as outras casas a visitar.

O maioral lá deles ainda pensou em alertar seu pessoal que cuidava da segurança da casa, para não deixar ninguém cruzar o pátio. Mas ali só vinham mulheres e crianças. E assim, todo mundo entrou sem ser importunado. Demorariam só o tempo do rosário. Havia outras casas a visitar. Quando enfim todos se puseram em marcha pela estrada, o oficial, que durante todo o tempo se mantivera à janela lá do sótão, espiou para fora e achou bastante reduzido o número de lanterninhas.

— É que o vento foi não foi apaga um bocado delas! – comentou Abraão.

— É — disse ele, bocejando, parecendo concordar. E nem fechou a boca, ouviu um baque na madeira do piso e um homem – vestido meio beato, meio padre – saltar como um gato e encostar o punhal em sua garganta e o revólver à altura do umbigo.

— Se mexer, morre!

O soldado ficou duro como um santo de pau, ele e seus três companheiros que estavam ali dando guarda aos prisioneiros. Em seguida, se livraram das roupas femininas.

— Guabiraba! — exclamou Abraão.

— Fiquem onde estão – disse Guabiraba — pedindo silêncio.

Guabiraba escolhera vinte homens para o assalto. Trajados assim de beatas, ficaram tão faceiros que acabaram confundidos de fato com senhoras. E, enquanto os cânticos ecoavam na capela, eles entraram por um túnel através de uma sepultura falsa que havia na parede da sacristia e esse túnel ia dar dentro da casa grande. E foi lá onde agarraram um polícia pelo gogó e encostaram a ponta da faca nas goelas dele. Ele jurou, ajoelhado, que os levaria até o local da casa onde estavam os prisioneiros. E levou.

Donos do pavimento superior da casa, e com os quatro polícias dominados, a partir de então a ordem era não deixar ninguém subir e cuidar de fechar bem o alçapão. Pois lá em cima só tinha gente da família do coronel, sem contar com as mulheres de Guabiraba e João Triângulo. Ao amanhecer, a casa estava cercada por Nobelino e seus homens. Eles gritavam para os soldados se entregarem e estes respondiam atirando, uns de dentro de casa, outros das trincheiras ao redor. De lá de cima, com o pessoal todo a salvo, Guabiraba aguardava um enfraquecimento da parte deles que resistiam ao cerco de Nobelino. Estavam preparados para a qualquer momento descer e enfrentá-los corpo a corpo. Mas os soldados, os poucos que sobreviveram, desapareceram no mato, enfraquecidos e sem munição, nos rumos do Piancó.

Guabiraba agora tinha uma notícia boa para dar ao coronel. Bastava avistar de longe a figura esguia e mínima de Japonês, para o coronel ficar vexado, imaginando outra desgraça. A última e, pois, a melhor delas, foi a que chegara pelo rádio confirmando a morte do presidente. O amigo telegrafara do Recife para dizer que estava tomado de um grande contentamento. Japonês correu para onde estava o coronel.

— Mataram o presidente!

Barbaciano ficou pasmo.

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