Vigésimo terceiro capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

XXIII

Arte: Alberto Lacet

QUANDO JAPONÊS ACABOU DE LER O telegrama, o coronel Barbaciano teve o pressentimento de que aquele seria o último. Talvez tenha ficado com essa impressão pelo fato do amigo começar dizendo que existiam duas mortes: a morte moral e a morte mesmo. A morte moral era mais cruel porque pegava o sujeito ainda “vivo” e o massacrava. Era assim que ele disse estar se sentindo: massacrado, carregando o peso das aspas. Toda essa prostração por conta de terem uns caras-de-pau arrombado o seu escritório naquela madrugada. Eles reviraram tudo, meteram as mãos em gavetas e arrombaram armários e o cofre.

Mas de tudo o que lhe fora surrupiado — notas promissórias, joias, cheques e algum dinheiro — nada lhe causou mais prejuízo do que o sumiço de duas coisas bem pessoais e preciosas: um álbum de fotografias e um diário. O álbum não era um álbum qualquer, porque nos retratos o casal aparecia em trajes menores e por vezes sem as folhas de parreiras que lhes cobrissem as vergonhas. Assim, nessas condições, ele e ela foram vistos pelos corredores do palácio presidencial.

Da mesma forma que o álbum, o diário também não era um diário qualquer. Suas folhas revelavam a intimidade do casal. As noites na praia de Cabedelo. Ela escrevia versos na areia. Escrevia para ele, com o bico de pena da sombrinha. Estivera tanto tempo por ali, que se impregnara de maresia. E a partir de então, passou a sofrer de lua, foi quando lhe viera o fluxo, as marés, a arrebentação. E no atracadouro de Cabedelo, em terra firme, marinheiros empunhavam seus mastros, enquanto as mulheres levantavam as velas do leito, mesmo sabendo do risco de fazer água e naufragar com os porões cheios de mágoa.

O presidente — dizia ele no telegrama — a tudo acompanhava do palácio. Nos últimos dias era grande a euforia dos liberais. Os escrotos ainda traziam na face o fulgor das chamas que lamberam as propriedades dos conservadores, as labaredas que fizeram arder casas comerciais e armazéns dos supostos inimigos do presidente. O coronel deu um murro na mesa quando soube que as duas fazendas do amigo haviam sido incendiadas. Os infames acharam pouco e ainda espingardearam os animais que toparam pela frente. Por todas essas insanidades o presidente teria que ser responsabilizado, sobretudo pela invasão do escritório, a mando do seu secretário, o dos óculos de aros redondos, sujeito por quem o coronel remoía um ódio mortal e jamais chegou a lhe pronunciar o nome.

O tal secretário conhecia, e bem, os bofes do dono do escritório, da mesma forma que sabia que ele iria à forra, começando pelo mais graúdo, que era o presidente. Essa antevisão dos fatos de há muito que ruminava no seu cérebro, um cérebro cujo diâmetro tinha as mesmas medidas da coroa do poder com a qual vivia sonhando. Era assim que o secretário via a si próprio, enxergava o mundo através das lentes excessivamente grossas dos seus óculos.

O amigo do coronel com certeza se vingaria da desmoralização, porque era homem de caráter e de nome, como Guabiraba, Nobelino e João Triângulo, todos do mesmo calibre, prumo e linha do coronel Barbaciano, nome duro, porém doce como uma rapadura, familiar em todos os falares e linguajares, da terra e dos ares, do redemunho e da aragem, um nome semeado ao vento para todas as tempestades.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. aldo lopes de araujo 23 de dezembro de 2011 14:44

    Caro Johnny
    Publiquei quatro livros e contos, tenho participaçao em duas antologias editadas pela paulistana Geração Editorial: “Contos Cruéis” e “Capitu Mandou Flores”, comemorando os cem anos da morte do bruxo do Cosme Velho. Além do romance “O dia dos Cachorros”, editado pela Bagaço, de Recife, em 2005. Esta edição folhetinesca, trazida a lume a custa da obra e graça do insuvaculatífero SP, é uma reescritura ousada que inventei de fazer do romance, para uma segunda edição.

  2. Johnny Cavia 20 de dezembro de 2011 11:16

    O citadino escreve bem demais!
    Tem livro publicado?

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