Visita a Berlim sob luz de primavera

Se o turismo costuma ser uma experiência de surpresas e admirações, pelo inusitado da paisagem e das particularidades culturais e físicas de uma determinada cidade ou região, essa experiência resulta em dobro quando alimentamos expectativas bem fundamentadas sobre o que ela nos reserva. Deu-se algo assim comigo, numa viagem recente de dez dias pelo Leste europeu, começando por Berlim.

Essa cidade era para mim, até então, uma página retirada de um conto de Nabokov do seu exílio alemão. Meados dos anos 1920. Refiro-me a “A Guide to Berlin”, onde se lê, em forma elíptica, uma declaração de amor à capital alemã: “Every large city has its own, man-made Eden on earth” (“toda cidade grande tem seu Éden terreno construído pelo homem”). Mas não era às igrejas nem aos museus nem aos teatros que ele aludia, e sim aos zoológicos, “que nos recordam do solene e terno começo do Velho Testamento”.

O eco da prosa sedutora do autor de “Lolita” ainda repercutia nos desvãos das minhas lembranças de leituras de outrora, com seu encanto tão particular, capaz de tornar uma viagem noturna de bonde pela cosmopolita Avenida Unter den Linden, culminando no Portão de Brandemburgo, uma experiência épica e de rasgos shakespearianos.

Pouco restou dessa Berlim nabokoviana na cidade que me surpreendeu numa madrugada fria de maio, de chuva fina, quase imperceptível, desmentindo vaticínios meteorológicos em contrário, e espargindo pelo verde abundante, ordenado, do passeio público, rastilhos de um inverno que começava a bater em retirada.

Ao invés de uma cidade antiga, a Berlim que conheci de passagem se revelou aos meus olhos uma cidade jovem, efeito resultante, em parte, do intercurso urbano que molda seus transeuntes aos hábitos e conceitos de uma urbanidade que se deseja contemporânea. Não se pode esquecer um fato histórico fundamental: a reunificação alemã e a volta do poder federal para Berlim, em 1990.

Nesse contexto relativamente novo, a Unter den Linden pode ser vista como o símbolo de uma cidade decidida a ser outra vez uma grande capital europeia. Por isso, realça suas propriedades e características, investindo nos espaços reservados aos pedestres e ciclistas, sem prejuízo para o tráfego ostensivamente civilizado em horários que, em outros contextos, aceitam tensões e estresses passageiros como naturais. Outros signos dessa moderníssima tribo urbana podem ser vistos nos seus múltiplos ativos culturais, como a biblioteca Estadual, a Potsdamer Platz, o Memorial Judaico, a Staatsoper (a ópera nacional), a Ilha dos Museus ladeada por uma suntuosa igreja barroca mandada construir pelo Kaiser Frederico o Grande…

Em toda a parte parece sobrar espaço em Berlim, talvez o traço que mais a distinga entre as capitais europeias. A melhor prova pode ser comprovada no Neue Wache, templo neoclássico de dimensões grandiosas e que abriga uma única escultura, em pedra, em tamanho natural, de uma mãe segurando seu filho morto. Seu peso simbólico, porém, é significativo. Trata-se do “Memorial para as vítimas do fascismo e do militarismo”. Dá para perceber que não faltam memoriais à capital germânica, como que purgando-a de erros próprios ou de terceiros cometidos no passado.

Não é preciso lembrar que Berlim foi uma das cidades mais fortemente atingidas pelos bombardeios aliados, às vésperas do término da Segunda Guerra. Daí causar tanta admiração o esforço gigantesco que está por trás da reconstituição meticulosa de cada prédio ou monumento histórico dessa cidade.

Início de primavera, já é possível perceber que algo diferente está em curso na cidade: os grandes e médios parques que pontilham Berlim se deixam ocupar por seus cidadãos em alegres e ruidosos bandos que ali vão acampar, com suas cadeiras coloridas e cestas de comida e bebida, renovando cultos antigos ao sol e à natureza.

Se pensarmos no rigor dos invernos berlinenses, fica fácil entender a razão de tanto entusiasmo estival.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 21 de maio de 2011 18:21

    Berlim tão estrangeira, tão patriota.A leitura da tua crônica de viagem coube como uma luva neste sábado, meu bróder.

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