Vivendo de sal, turismo e vento

Por Roberto Cardoso

Vivendo de Sol e de brisa, elementos meteorológicos e climáticos fundamentais, para obter o sal, o sal que um dia já teve muito valor, e foi salário, hoje é bastante desvalorizado. Deve haver um grande segredo na exportação de sal. Não há como entender que um navio carregado de sal, vá parar em mesas e cozinhas, domésticas ou industriais, do outro lado do oceano.

Em uma determinada época navios partiam do Brasil, com porões carregados de areia monazítica, com a justificativa de fazer lastro, proporcionando estabilidade e segurança à navegação. Pesquisaram e descobriram a radioatividade. Hoje saem navios carregados de sal do RN, com a justificativa do preço e da qualidade. Navios que atravessam oceanos salgados, com equipamentos para dessalinizações. E a água do mar se torna salgada pelos sais carreados pelos rios, das terras ao longo de seus cursos, por onde passa, até chegar ao mar. O sal tem um histórico, um DNA.

A cidade do/de Natal/RN, e o estado do Rio Grande do Norte/RN, continuam mantendo o seu paradigma histórico. O seu comportamento histórico, suas repetições, seus arquétipos comportamentais, seus dias e suas noites seguidas, suas portas abertas. Desde as suas primeiras ocupações por povos indígenas, nativos ou estrangeiros, amigos e/ou inimigos.

Litoral amplo sem acidentes geográficos notáveis. Limites da ITCZ, o Equador climático e marítimo. Com céu claro, sujeito a nuvens isoladas e esparsas no decorrer do período, reduzindo a iluminação, com possibilidades de leves chuvas ou chuviscos. Portas abertas para o mar, transito livre para quem vier e chegar, pelo ar ou pelo mar. Esquina do continente, chegada de correntes aéreas e correntes marítimas.

Cidade dos Reis Magos: americanos, portugueses e holandeses. Influenciada por correntes, a capital estadual não se define, se é a cidade do Natal ou cidade de Natal. As leis ortográficas, tal como as leis constitucionais municipais e estaduais, não são suficientes para definir e obrigar o uso da preposição, a julgada correta, para uma população misturada e miscigenada, sem raiz e sem vocação local. Afinal, a palavra Natal denota e transmite uma ideia de nascimento e renascimento, nunca é um crescimento ou uma finalização, sempre uma renovação, o ressurgimento. A cidade foi ocupada, invadida, desocupada, e reocupada por diferentes povos e culturas, nascendo e renascendo. Viver de sal turismo e vento, evita novamente um olhar para dentro. Viver de sal e brisa, não quebra o paradigma.

Cidade de limites geográficos reduzidos, sem área rural ou de expansão. Tenta aumentar seu território agregando cidades vizinhas, emancipando-as a participar da Região Metropolitana. Também conhecida como a Grande Natal. Onze municípios já fazem parte da grande nação.

Desde a chegada dos povos europeus, os primeiros turistas, o litoral norte-rio-grandense se mostra aberto, para novos viajantes, novos exploradores, novos ocupantes e novos colonizadores. Do litoral Norte com o marco de Touros à praia do Forte; de Tibau do Sul a Tibau do Norte; de Pirangi do Norte a Pirangi do Sul; de Monte Alegre no extremo Oeste a Monte Alegre no Leste; da ponta do Calcanhar à ponta do Cotovelo. Do rabo do paquiderme norte-rio-grandense à ponta da tromba do elefante potiguar, passando pelo olho em Mossoró/RN, e as pernas no Seridó. Com o mundo estampado em suas costas.

Ponto geográfico das primeiras viagens internacionais, das primeiras travessias transatlânticas. Trampolim da Vitória, e base de lançamento de sondas para pesquisas espaciais. A vitória e caminhos de terceiros, e para terceiros. Navios e aviões atravessaram o atlântico para ali chegar, atracar ou pousar, tinham seus objetivos. Os que não atingiram seus intentos e objetivos, caíram ou afundaram, antes de seus ocupantes ou tripulantes pisarem nas terras potiguares, ficaram no litoral norte-rio-grandense.

Um marco ficou esquecido e abandonado em Touros/RN, talvez bem antes de Cabral embarcar em Portugal, e desembarcar na Bahia. Havia ali uma intenção. Cabral chegou em viagem oficial, reconhecida pelos reis portugueses, e pelo Papa em gestão, respaldado pelo tratado de Tordesilhas. E Cabral oficialmente declarou o descobrimento de novas terras, documentando pela missiva descritiva do escrivão da frota. A representação cartorial a bordo.

Documenta-se assim na história a existência das novas terras descobertas, e cria-se o documento cartorial de posse, o registro do imóvel. Tal como um registro de imóveis no RGI, datado, registrado e carimbado, com o selo real, com anuência do selo papal. Qualquer nova ocupação, daria o direito a reintegração de posse, usando as armas se fosse necessário. Construíram fortes e fortalezas atuando como sentinelas. Tal como os sem-terra, hoje estaqueando e ocupando espaços. Recebemos os sem-terra do hemisfério Norte.

A coluna capitolina talvez fosse um outro marco a ser implantado. Mas mudaram os planos de voo, e de objetivos, com a “queda” do avião que simbolicamente a transportava. Ficou como um presente do governo italiano para Natal. Um agradecimento a acolhida de aviadores, e ao avião que “caiu” em Touros, mas disseram que pousou, estava apenas desorientado. Um pedaço de pedra entalhada, que talvez tenha servido de lastro para teste de carga. Estava a bordo de um navio que dava apoio a epopeia aérea italiana. O primeiro voo aéreo, direto e sem escalas.

Portugueses aportaram e ocuparam com caravelas. Mas outros povos europeus não pensaram da mesma forma, queriam participar da nova ocupação. Uma ocupação ainda não totalmente consolidada, com falta de ocupação populacional e poderio militar, para vigilância e defesa. Notícias de ataques e ocupações levariam meses para chegar ao comando maior, para que este então mandasse navios e reforços. Haviam piratas e corsários, prontos para pilhagem.

Os índios por sua parte, não ofereciam resistência a enormes caravelas, em contraste com suas pequenas canoas de cascas e troncos; e homens cheios de vestimentas coloridas em contrastes aos seus corpos nus. Usavam arcos e flechas enquanto os viajantes usavam o chamado pau de fogo, conheciam o chumbo e a pólvora. Uma covardia e desproporção, na arte bélica e na argumentação. Povos que não possuíam uma escrita, mas possuíam uma cultura com conhecimentos passados, por canções e costumes, a chamada oralidade. O paraíso tropical. Evitando o Cabo das Tormentas, encontraram o Cabo da Boa Sorte, no Rio Grande do Norte. Com o tempo e as pesquisas, descobriu-se inscrições rupestres, tinham uma escrita, as mídias de suporte eram pedras e paredões.

Observando o litoral norte-rio-grandense a partir de Natal/RN, e mais um pouco para o Norte, ou mais um pouco para o Sul, é possível observar que o litoral não oferece resistência ou facilidades para quem chegar. Não há pequenas ilhas, pedras ou rochedos, que se possa esconder, ou criar um desembarque inicial, para observar o litoral maior. Índios e ocupantes em terra, teriam então, tempo para preparar exércitos, munições e armas. Antes da caravela se identificar (hastear uma bandeira), fundear e desembarcar. Não fizeram, eram povos de boa vizinhança. Havia terra e comida com fartura. Estavam de braços e corações abertos. Acolheram povos, rezas e costumes.

Os índios eram calmos e receptivos, receberam e acolheram diversos povos. Gostavam de novidades e presentes; novidades e curiosidades. Não conheciam a ciência da construção de caravelas e o conhecimento logaritmo da navegação. O tempo passou e deixaram de ser índios, passaram a ser nativos. E os nativos perpetuaram o comportamento dos índios. Não conheciam os grandes navios estrangeiros. Gostavam de presentes e notícias de outros continentes. Chegavam notícias para livros e jornais, o tempo em que Natal era a tal, um poeta em cada rua e em cada esquina um jornal. Depois apreciaram tropas e aviões. Receberam chicletes e refrigerantes do tipo cola. Participaram de festas americanas, com triangulo, zabumba e sanfona.

Hoje os índios, nativos e moradores, estão todos misturados, e continuam gostando de presentes, novas notícias e novos conhecimentos. A todo custo as iniciativas privadas e públicas reformam e ampliam portos e aeroportos. A eterna capacidade de receber outros povos, e ela não foi esquecida, o comportamento histórico do bem receber, de oferecer a fartura. Basta ter algo em troca. Incentivam bares e restaurantes, a uma capacitação de recepção de estrangeiros. Aprendem idiomas desconhecidos. Usam novos aplicativos.

Em um breve passeio pelo estuário do Rio Potengi, entre as duas pontes que ligam a cidade com a zona Norte, um resumo da história entre o espaço das duas pontes, a antiga e a nova, a nova e a velha, de ferro e de concreto, o passado e o presente; com caracterizas inglesas e americanas. No pequeno espaço do rio a presença de ícones: espaços, objetos e construções lembrando os que já habitaram, ocuparam, ou passaram por ali.

Os habitantes antigos e atuais estão sempre abertos a novas informações e conhecimentos. Agora aderiram ao que os estrangeiros estrategicamente chamam de gestão e inovação, a nova persuasão: a gestão da qualidade, a gestão do conhecimento. Os cursos inovadores estão espalhados pela cidade. A cidade da inovação, uma faculdade em cada rua, e em cada esquina uma pós-graduação. A necessidade continua da formação e atualização, da graduação e da especialização. A educação continuada.

Estas são as últimas notícias e informações. Com o tempo os ventos trarão novos povos e novas ideias, com outros objetivos. E tanto a capital como o estado vão perdendo a oportunidade de se conhecer por dentro. Resolver seus conflitos internos.

Um câncer vai sendo criado por este comportamento, basta observar as ruas da cidade com precariedades, e as manifestações.

A cidade é um organismo vivo onde reflete o comportamento enviado e recebido pelo cérebro, o dono do conhecimento fisiológico e corporal. Existe uma fisiologia e uma psicologia urbana, na arquitetura anatômica da cidade. Prefeituras municipais e governos estaduais controlam os males e o bem-estar das cidades. Com gestões e digestões de comportamentos e gentes. A cidade e o estado vão divulgando por diversos canais e mídias de divulgação, que é mais do que suficiente viver de sal, turismo e vento. Tentam convencer, mostrando novos recordes de exportação de sal e produção de energia eólica. Produzida por cata-ventos importados, o gerador eólico. Tecnologia desenvolvida pelos países autodenominados como desenvolvidos e civilizados.

E a história se repete. Tal como viver de missa, reza e fé. O chamado BOI (Bíblia, Oração e Igreja). Sem se preocupar com o pão e o peixe, a ginga e a tapioca; a rapadura e a farinha; SEST: saúde, escola, segurança e transporte, a busca da mobilidade urbana. Tudo tem um domínio simbólico e uma simbologia, o súdito e o rei.

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