Viver é brincar de inventar motivos

Por Bruno Costa

Aurora era uma menina confusa, semi-alegre, semi-triste. Procurava nos fragmentos da infância dispersos na memória sua identidade. Aos 18 anos decidiu cursar filosofia. Alimentava a ingênua esperança de desvendar o motivo da existência. Inventava e desinventava amores. Nunca revelou aos amantes sua obsessão pelo recomeçar. Os professores da faculdade nutriam por ela um carinho imenso, mais por lhes permitir a fulga de suas monótonas relações conjugais em noites de elogio à imanência do que pelo desempenho acadêmico da faltosa estudante, que não raro trocava a sala de aula pelas atividades do movimento estudantil contra o aumento da tarifa de ônibus. Não foi difícil, entretanto, adentrar na pós-graduação. Rapidamente concluiu sua dissertação sobre “A natureza do belo” e iniciou sua tese sobre “A decadência da civilização ocidental”. Aos 29 anos Aurora se despedia de sua cidade natal para lecionar na Faculdade de Filosofia da Universidade… Não recordo o nome, desde que ela partiu optamos por não manter mais contato. Ainda guardo bem guardada sua carta de despedida, na qual elogiou minha metodologia de ensino e afirmou que sentiria saudade do corpo docente. Não desvendou o motivo da existência, mas descobriu que viver era exatamente aquilo: brincar de inventar motivos.

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