Vizinhos

Há pouco me mudei para o novo apartamento; modesto, pouco mais de 50 metros quadrados de pura mediocridade imobiliária urbana do Recife. A vista da minha diminuta varanda me agrada: tenho plena visão de todos os prédios da Boa Vista, daqueles riozinhos verdes que ninguém se atreve a chegar perto, e dos desesperados pedestres quando percebem que seu ônibus já cruzou a esquina. Tudo me satisfaz – menos os vizinhos.

A mera palavra me indigna. Vizinho, no diminutivo – como se fosse pequeno, inofensivo, apenas uma dispensável inconveniência. Poderia até ser, mas certamente não é o caso dos meus.

A começar pela tal de Fátima – perdão, dona Fátima – a síndica  que, em termos democráticos, se coloca no mesmo patamar do próprio presidente da república. Não preciso dizer que não sou frequentador assíduo das reuniões de condomínio. Se não são os usuais comentários sobre a inadimplência do seu fulano ou seu sicrano, ela insiste em condenar o senso de organização e decoração doméstica de todos os condôminos.

Outro que nunca está satisfeito é o seu Ozório. Cotidianamente, ele expressa sua profunda indignação com a situação política do país – com toda a glória que seu diploma em ciências políticas lhe permite – ao mesmo tempo em que se esquiva das cartas veementes do dono do apartamento, lembrando-lhe que seu aluguel está atrasado em seis meses.

Tenho certeza que seja culpa da extrema direita e dos conservadores – afinal, por qual razão inimaginável alguém não o contrataria, sendo ele o portador de tão formidável diploma? É o preço da ignorância.

Há também aqueles cujas inconveniências são ocasionais; a loira oxigenada do 503, cujos Toc-toc-tocs dos saltos são ouvidos desde a mais tenra hora do dia, até a morbidez silenciosa da cidade às quatro da manhã.

O seu Simão, que – sempre trajando sua carranca – não compreende que apenas um ‘‘bom dia’’ é mais do que suficiente para a boa convivência entre os vizinhos. Ou ainda as duas senhoras do 407 e do 408, cujos dias se resumem à troca de insultos e perpetuação das fofocas do condomínio – prática permitida pela comodidade da aposentadoria.

A lista continuaria, mas meu datilógrafo não parece interessado em me auxiliar com esta crônica. Terei que pedir mais tinta à dona Danuza – só espero que, dessa vez, não venha com suas incontestáveis teorias sobre a posição de marte e sua influência na Terra ser a responsável pelo problema em minha máquina.

Aluna do 1ª série do Ensino Médio [ Ver todos os artigos ]

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