Você pra lá e eu pra cá, depois da quarta-feira

Por Ronaldo Correia de Brito
Terra Magazine

No final de semana passado, havia carnaval em todos os bairros do Recife, tanto nos de classe média e rica, como nos bairros populares. Em Casa Forte e Apipucos saiu Segura o Talo, fundado desde o tempo em que Gilberto Freyre era vivo. Lembro de Gilberto bem velhinho, recebendo o bloco em frente à sua casa, balançando o corpo ao som do frevo e levantando os braços para cima. Nesse tempo, a orquestra desfilava a pé. Agora são sete trios elétricos e uma multidão de dar medo. O bloco, no início, era apenas uma brincadeira dos funcionários da Fundação Joaquim Nabuco. Agora, tornou-se outro tipo de instituição.

Na mesma hora em que desfilava Segura o Talo, brincantes das classes c e d, mesclados com as categorias sociais x, y e z brincavam em Engenho do Meio no Cabeça de Touro, nome que faz referência aos homens cornos, pois, segundo garantem, se chover argolas no bairro, nenhuma vai ao solo, tantas são as pontas de galhas em que podem se enganchar. A piada é grosseira e de mau gosto, mas o carnaval do Recife é feito desse humor escrachado, que não perdoa ninguém.

De noite saiu o Gagau, um pandemônio de rapazes e moças das “classes favorecidas”, no bairro da Jaqueira. O mingau, vocês imaginam qual era: o combustível inventado pelo deus Dioniso, o tal que os romanos chamavam Baco.

Existem muitas prévias de blocos: os bailes do Guaiamum Treloso, Siri na Lata, Eu acho é pouco, Paraquedistas, Enquanto isso na sala de justiça, baile dos artistas, baile municipal e por aí afora. Do primeiro dia de janeiro ao domingo posterior à quarta-feira de cinzas, o que mais se faz no Recife é brincar o carnaval. Ninguém acredita que um povo aparentemente sisudo seja tão carnavalesco.

E a democracia social carnavalesca? Bom, existem centenas de outros brinquedos, maracatus rurais e de baque virado, clubes, blocos, bois, la ursa, papangus, caboclinhos, troças e dezenas de polos de animação espalhados pelo Recife, periferias e cidades do interior. No meio da rua, atrás de uma orquestra, rodopiando ao batuque do maracatu, debaixo do sol de mais de quarenta graus, suando e bebendo cerveja são todos iguais aos olhos de Deus.

Alguns estarão lá no alto, em camarotes refrigerados, que custam caro aos que podem pagar e não têm fama bastante para serem convidados. Em baixo, no asfalto, não se paga nada e se esfrega o corpo aleatoriamente, em qualquer um, numa democracia racial e financeira que apenas o carnaval propicia. Mas, findados os dias de Momo, o deus bêbado que enlouquecia a turba romana, cada um reassume seu lugar na vida: os que têm lugar na vida.

Carnaval é isso mesmo. Há os tolos como eu, que inventam de pensar sobre o sentido da festa, e os que brincam sem pensar em nada. Acho que esses últimos são bem mais felizes. Com certeza.

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