Volta

Por Jarbas Martins

De um vigésimo andar de uma nuvem diviso teus telhados. E posso advinhar também uma sala com teus quadros e livros e CDs. Neste espaço, em um rigoroso silêncio, lembras?, estabelecemos um pacto. Conseguimos abolir, mais do que em tempo hábil, um passado por demais incômodo para nós. Amores desfeitos, o cadáver de um ideário, o eco da infância irremediavelmente perdida. Salvamos, no entanto, o essencial: a esperança no inverno da nossa amizade. Conversas, distrações, predileções comuns e incomuns. O meu Baudelaire, o teu Carlos Drummonde Andrade, o meu Catulo, a tua Clarice Lispector, o meu Cortázar. E partilhamos, em vivências de segundos, tudo que nutre e enriquece uma tarde: os utensílios domésticos, o cheiro das plantas, o balanço de uma cadeira, o sono de um gato, um presságio de chuva passageira. O chá ritual de tuas viagens: Madri, Paris, São Petersburgo, o mundo. Como não amar- te, cada vez mais, agora, amiga? Acreditamos, ou fingimos acreditar, que o amor nunca foi algo passageiro. Teimamos e insistimos neste equívoco, tanto quanto em outras crenças: no socialismo, na economia de mercado, no pós-modernismo, no silenciamento do passado, no cubismo. Falava-te de levezas e insustentabilidades, enquanto fingindo não me escutar, ias desdobrando em teu computador o meu mapa astral. E derivávamos como navios no mar, e trazíamos em seus cascos um tempo anterior à descoberta das instabilidades: o cheiro do aguapé num açude, a sombra de uma oiticica, as guerras do azul com o encarnado, a lembrança de Angicos, o relógio cuco na casa de uma tia, as brincadeiras de anel e cabra cega. Mas já havíamos decidido, em um trocar de olhos, esquecer o passado, esse luxo infeliz.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 + oito =

ao topo