Volta

Por Jarbas Martins

E já se libertava de um disco de vinil -uma relíquia amorosa, que me abria sulcos de ciúmes – a voz de Fagner, cantando os versos de Rafael Alberti: “Azul, blanco Y anil/ Postal y marinero/ De azul se arranca/ El toro del toril”. E ressuscitavas em ti uma espanhola que desastradamente não pudera advinhar. Dizia-te, então, que eu próprio era o furioso touro marinheiro de Rafael Alberti, e que não eras nem poderias ser o meu socorro. Despertavas, ante as minhas palavras, um bando de pardais com tuas risadas. Dizia-te insistentemente que eras uma Maga, uma Maga, uma Maga- enquanto bruxarias à parte a noite caía, mais que de repente, em uma Ponta Negra sem mistérios, em tua rua onde não rondavam duendes. Depois de inventariarmos todas as formas de matar o tempo, formas bem menos cruéis que o próprio tempo, como crianças velhas aborrecíamos de tanto brincar. E hoje, o passado tátil a nossas mãos, já me vejo, da minha varanda de nuvens, de volta ao teu jardim, a uma lua que testemunha os beijos instatâneos,as bocas repletas de promessas. Promessas, graças a Deus, nada eternas, pois somos, ao nosso modo, instavelmente felizes.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 10 de maio de 2010 11:20

    joão, waldick soriano é um dos meus poetas clássicos preferidos, e também, tânia, arnaldo antunes e alice ruiz.

  2. João da Mata 10 de maio de 2010 7:55

    Torturas de Amor

    Wladik Soriano

    Hoje que a noite está calma
    E que minh’alma esperava por ti
    Apareceste afinal
    Torturando este ser que te adora
    Volta fica comigo
    Só mais uma noite
    Quero viver junto a ti
    Volta meu amor
    Fica comigo não me desprezes
    A noite é nossa
    E o meu amor pertence a ti
    Hoje eu quero paz
    Quero ternura em nossas vidas
    Quero viver por toda vida
    Pensando em ti

  3. Tânia Costa 9 de maio de 2010 22:46

    “Socorro, não estou sentindo nada!”

    Volta, Socorro!

  4. Nina Rizzi 9 de maio de 2010 22:07

    ah, anda a jogar amarelinha, e não há melhor jogo. poxa, o final me remeteui demais o sétimo capítulo “toco tua boca toco…” que coisa linda, camarada. adoro sua prosopoética.

    saudade do porto
    nina rizzi

    o ambulante não apareceu co’as rendas
    e se o tivesse feito de nada adiantaria:
    não me foi dada passagem
    à mãe-de-santo ou viajante.

    as viroses e virtuosidades da rede
    desprendi-me por falta de pagagem,
    ao menos a fumaça do meu cigarro
    leva-me à marinheira, quiça toureira.
    *

    beijos, querido.

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