Volta

Por Jarbas Martins

E já se libertava de um disco de vinil -uma relíquia amorosa, que me abria sulcos de ciúmes – a voz de Fagner, cantando os versos de Rafael Alberti: “Azul, blanco Y anil/ Postal y marinero/ De azul se arranca/ El toro del toril”. E ressuscitavas em ti uma espanhola que desastradamente não pudera advinhar. Dizia-te, então, que eu próprio era o furioso touro marinheiro de Rafael Alberti, e que não eras nem poderias ser o meu socorro. Despertavas, ante as minhas palavras, um bando de pardais com tuas risadas. Dizia-te insistentemente que eras uma Maga, uma Maga, uma Maga- enquanto bruxarias à parte a noite caía, mais que de repente, em uma Ponta Negra sem mistérios, em tua rua onde não rondavam duendes. Depois de inventariarmos todas as formas de matar o tempo, formas bem menos cruéis que o próprio tempo, como crianças velhas aborrecíamos de tanto brincar. E hoje, o passado tátil a nossas mãos, já me vejo, da minha varanda de nuvens, de volta ao teu jardim, a uma lua que testemunha os beijos instatâneos,as bocas repletas de promessas. Promessas, graças a Deus, nada eternas, pois somos, ao nosso modo, instavelmente felizes.

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