Voltando à origem

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CRISTOVÃO TEZZA
FOLHA DE SÃO PAULO

“C OMPREI UM livro de bolso e li. (…) Então me perguntei por que estava lendo aquela porcaria quando podia estar decorando “Os Irmãos Karamazov”. Sem conseguir nenhuma resposta boa, apaguei a luz e fui dormir.” Essa observação do detetive Philip Marlowe, personagem do americano Raymond Chandler (1888-1959), dá uma medida da autoironia de um autor que, com seus contos e romances dos anos 1930 e 40, revolucionou a literatura policial.

Criado por Edgar Allan Poe, o gênero já semeava seus sinais de suspense e mistério em algumas obras-primas do século 19, assinadas por autores como Dostoiévski e Vitor Hugo, até se consolidar como composição fechada nas mãos de Conan Doyle e seu Sherlock Holmes. Agatha Christie transformará o modelo num jogo frio de salão: em suas tramas, o detetive sempre restaura a tranquila ordem do mundo, ameaçada pelo crime.

Com Chandler, descobrimos que não há ordem a se restaurar em lugar algum, bandidos e mocinhos vivem do mesmo lado incerto ao sabor do desejo, mulheres belas são armadilhas letais, todos mentem e o detetive é um ser solitário movendo-se por sua conta e risco numa sociedade sem referência moral. A publicação de duas antologias de seus contos, “A Porta de Bronze” e “Chantagistas Não Atiram”, permite-nos reler esse fino estilista da paródia, tanto em clássicos como “A Dama do Lago”, uma síntese perfeita de Chandler, como em suas incursões ao fantástico, encontradas nos contos “A Porta de Bronze” e “O Rapé do Professor Bingo”.

Nesses contos, o marido se livra da mulher por mágicas desconcertantes; no primeiro, uma porta de antiquário faz desaparecer quem passa por ela, e, no segundo, um rapé que nos torna invisíveis quase permite o crime sem culpa.
As antologias incluem duas raridades inéditas: “Verão Inglês”, em que Chandler exercita seu olhar irônico sobre a Inglaterra, onde viveu na juventude, e “O Lápis”, que tem como pano de fundo o crime organizado dos sindicatos americanos.

Percebe-se a relação visceral entre o texto de Chandler e o cinema. Há em Chandler uma absoluta nitidez narrativa; tudo que ele escreve se move e pode ser visto. Os olhos da personagem “são a última janela que nunca se abre numa casa que, afora isso, não é secreta”. A tentativa de sedução dos gestos de alguém se define como “a graça desbotada e incerta de fiapos de névoa”.

Sente-se na sua linguagem uma dupla paródia, atravessada de filmes dublados e histórias em quadrinhos, chavões requentados em mil roteiros, um linguajar popular de frases-feitas que se tornou parte de um dialeto da cultura de massa. Ler Chandler é como voltar à origem, recuperar o brilho das pepitas originais antes que o poder avassalador da cópia vulgarizasse o mundo que ele lapidava em primeira mão.

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